Uma discussão que antes se limitava ao universo de geólogos e químicos entrou no debate público durante a polêmica do tarifaço de Donald Trump: as terras raras.
Trata-se de um grupo formado por 17 elementos químicos – escândio, ítrio e 15 lantanídeos – essenciais para a tecnologia da informação e equipamentos voltados para a transição energética.
Eles são necessários para a fabricação, por exemplo, de smartphones, TVs, ímãs potentes para motores elétricos e turbinas eólicas, entre muitos outros.
O termo “raro” se refere ao processo de separação e refino, altamente complexo, poluente e caro, que exige tecnologia avançada e grande controle ambiental.
O valor estratégico desses elementos, nas dimensões econômica e geopolítica, decorre justamente da ausência de alternativas equivalentes.
No caso do Brasil, pelas suas significativas reservas, analistas apontam o tarifaço de Trump (sobretaxa dos produtos brasileiros exportados) como um instrumento de barganha para a abertura do setor mineral brasileiro ao investimento americano, buscando diminuir a influência no mercado chinês global de terras raras.
Concentração no mundo e no Brasil
Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos, as maiores reservas conhecidas de terras raras estão na China, Brasil, Vietnã, Rússia e Austrália.
Atualmente, cerca de 60% da mineração global de terras raras ocorre em território chinês.
O Brasil tem a segunda maior reserva mundial, com estimativas significativas de reservas no Planalto Central, especialmente em Minas Gerais, Goiás e Tocantins, com potencial para desenvolvimento e produção futura.
O país detém 23% das reservas mundiais, o que nos dá cerca de um quarto das reservas presumíveis de terras raras presentes no mundo.
“Hoje, as terras raras são utilizadas também, infelizmente, em armamentos de guerra e, por isso, a corrida e a necessidade de se delimitar áreas ricas em terras raras para construção de armamentos de destruição. Mas o lado bom são os eletrônicos, as energias renováveis e elementos utilizados para a saúde humana, como o tomógrafo computadorizado, a ressonância magnética, equipamentos médicos de alta tecnologia”, avalia o economista Cícero Pimenteira, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em entrevista ao Portal iG.
Segundo ele, o Brasil apresenta uma reserva de terras raras ainda não explorada e ainda não dimensionada pelo Departamento de Estudos de Recursos Minerais.
Por isso, várias instituições têm realizado estudos para diagnosticar e identificar reservas naturais de terras raras no país, além das já descobertas. Entre elas, ele cita a Universidade de Santa Maria (UFSM), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e a Universidade Federal do Pampa (Unipampa).
“Efetivamente, o que nós temos hoje é que, da produção mundial, o Brasil responde por 1% da produção de terras raras do planeta e começou a fazer a exploração no estado de Goiás, em 2024. Então, ainda temos muito o que caminhar dentro dessa disponibilidade”, afirma Pimenteira. “E a vantagem é que não somos um território deflagrado por guerras ou que tenha política econômica fechada, como é o caso dos chineses”, acrescenta.
Perspectivas de exploração
Na opinião do economista, considerando a política e diplomacia do Brasil, somos um país que está disposto a permitir que outras empresas venham até as terras raras e façam a exploração de recursos naturais.
“Lembrando que, constitucionalmente, o Brasil é bem claro no que diz respeito aos seus recursos naturais, como petróleo, água, ferro e terras raras, que são do Estado. Há a possibilidade de concessão de exploração e o país recebe os chamados royalties pela retirada do recurso natural. E essa compensação financeira é utilizada para o desenvolvimento do país, a começar pela comunidade onde os recursos naturais estão domiciliados, mas vão até o país inteiro”, contextualiza.
Neste sentido, Cícero Pimenteira defende o fortalecimento das agências e dos órgãos de controle para que, em caso de exploração de recursos naturais não renováveis, como as terras raras, o processo seja feito sempre com total transparência e fiscalização.
“Hoje temos cerca de 23%, mais ainda existem locais no nosso país que não foram detectados essas terras raras ou que não estão sendo divulgados. De qualquer forma, temos um quarto das reservas mundiais em um terreno pacífico, que é a grande vantagem. Não há conflito ideológico, não há conflito bélico. Basta um bom acordo, uma boa diplomacia e um bom plano de investimentos, com geração de empregos, em saúde”, reforça.
Crítica ao processo de reprimarização da indústria
Pimenteira faz uma crítica ao momento atual da indústria brasileira que, segundo ele, passa pelo processo de reprimarização.
“Nós optamos por investir cada vez menos na indústria para exportar os nossos recursos naturais, minerais, agrícolas; todos sem processamento no território, o que é muito ruim”, atesta o economista.
Dentro desse contexto, nesta segunda-feira (24), em Maputo, capital de Moçambique, onde realiza visita oficial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), disse a empresários que o Brasil vai exigir que países que quiserem explorar minerais críticos em território nacional instalem indústrias no país.
Lula ressaltou que o Brasil não pretende ser apenas exportador dessas matérias-primas:
“Nós não vamos ser exportadores dos minerais críticos. Se quiser, vai ter que industrializar o nosso país para que nosso país possa ganhar esse dinheiro”, disse o presidente, se referindo a elementos como lítio, cobalto e terras raras.
















