A Black Friday se consolidou como uma das datas mais importantes do varejo brasileiro na última década.
Mas o evento vai muito além de um festival de promoções em lojas físicas e no comércio virtual; o brasileiro transformou a Black Friday em estratégia de planejamento doméstico.
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Desde que chegou ao Brasil, em 2010, a data passou por grandes transformações, impulsionadas principalmente pela mudança de comportamento do consumidor. E uma dessas mudanças se reflete diretamente no varejo de alimentos e itens de limpeza.
Ao contrário do que ocorria em anos passados, quando a Black Friday era vista como a oportunidade de se adquirir um item de valor elevado, como geladeira, televisão e celular, o consumidor também tem aproveitado as promoções do período para encher a despensa.
É o que as redes de comércio varejista têm constatado.
No caso do Grupo Pão de Açúcar (GPA), dono das marcas Pão de Açúcar e Extra Mercado, no chamado “Esquenta Black Friday”, em novembro, um tradicional período de promoções que antecede a data, o grupo registrou um aumento de mais de 20% nos pedidos on-line de produtos alimentícios e de limpeza, em comparação ao mesmo período do ano passado.
“A data tem ganhado cada vez mais relevância ano após ano e se transformou em um período bastante aguardado pelo consumidor para abastecer a casa com produtos alimentícios, bebidas e itens de limpeza”, confirma afirma Victor Maglio, Diretor de E-commerce do GPA.
Segundo Maglio, para atender a demanda, o grupo adota um planejamento estratégico antecipado com foco na negociação com fornecedores e em práticas de eficiência operacional que permitem manter o mesmo volume de estoque previsto para o período, mas com melhor alocação por loja, conforme o perfil de consumo de cada canal.

Ainda segundo o grupo, entre as categorias que devem apresentar maior índice de vendas estão nutrição infantil (mais de 60%), seguido de bebidas alcoólicas (mais de 40%), cervejas (mais de 30%), óleos e azeites (mais de 30%) e leite (mais de 20%).
Cesta de Natal na Black Friday
Com a aproximação do período que concentra as duas principais datas do varejo, o consumidor acaba usando as promoções da Black Friday para antecipar o abastecimento de itens que seriam adquiridos no fim do ano para as comemorações do período.
Esse comportamento tem se destacado desde o ano passado. É o que revela um novo estudo com dados combinados da Neogrid, ecossistema de tecnologia e inteligência de dados voltado à gestão da cadeia de consumo, realizado em parceria com o grupo Assaí.
Os números da Neogrid mostram que, no ano passado, categorias tradicionalmente associadas ao final do ano ganharam força já na semana promocional.
Os panetones registraram o maior avanço entre todos os itens analisados, com um salto de 175,9% na presença nos carrinhos em relação às semanas anteriores. O mesmo ocorreu com bebidas, com os espumantes elevando em 97,3% a incidência e tíquete médio 49,7% maior.
“A Black Friday deixou de ser apenas uma data promocional e passou a cumprir um papel estratégico dentro do calendário do varejo”, analisa Christiane Cruz Citrângulo, diretora Executiva de Supply Chain e Execução do Varejo da Neogrid.
Ainda segundo ela, quando o consumidor antecipa suas compras sazonais e reforça o abastecimento básico em novembro, ele cria um novo ritmo de demanda e abre espaço para que varejistas planejem sortimento, promoções e operação com maior precisão.
Para Paulo Monteiro, Diretor Comercial do Assaí, a Black Friday amplia o alcance das ofertas em itens alimentares e não alimentares.
Segundo ele, o período favorece quem busca economia no abastecimento da despensa e na antecipação das compras das ceias de fim de ano, e também atende empreendedores que utilizam o momento para reforçar seus estoques e organizar as vendas de dezembro.
Forma de driblar a inflação
Na avaliação da professora Valéria Vanessa Eduardo, do curso de Ciências Contabéis da Faculdade Anhanguera, os consumidores estão mais atentos às promoções para driblar a inflação.
A professora explica que a inflação oficial do Brasil em 2025 (IPCA) está projetada para fechar em 4,45%.
Na cesta de consumo que compõe o IPCA, os itens são organizados em grupos de despesa e, embora o grupo “Alimentos e bebidas” tenha apresentado uma desaceleração no mês de outubro, segundo dados do IBGE, esse item representou cerca de 21,6% do IPCA, maior peso, por ser gasto essencial e recorrente.
Já o grupo “Saúde e cuidados pessoais”, que inclui medicamentos e higiene, apresentou um impacto importante de 13,4%.
“Esses dados refletem que os preços de alimentos e de produtos básicos, têm pressionado os orçamentos das famílias”, pondera.
Nesse sentido, ainda conforme a especialista, a Black Friday se apresenta como uma oportunidade de realizar compras em maior volume para estocar.
Isso porque grandes redes de supermercados, de olho neste movimento, ampliam as ofertas em alimentos e produtos de limpeza, tornando essas categorias mais atrativas.
“Isso possibilita um consumo mais estratégico, com a priorização de necessidades essenciais em vez de supérfluos”. finaliza a professora.
















