
Exportadores de carne bovina brasileira enfrentam novos desafios nos dois principais mercados compradores da proteína: China e Estados Unidos. Estão em discussão, de um lado, as salvaguardas impostas pela China e, de outro, a redução das cotas de importação pelos Estados Unidos, movimentos que exigem maior articulação tanto dos exportadores quanto do governo federal.
Nos Estados Unidos, a cota de importação de carne bovina brasileira foi reduzida de 65 mil para 52 mil toneladas em 2026 e se esgotou em apenas seis dias. As 13 mil toneladas retiradas da cota brasileira foram redirecionadas ao Reino Unido, em um acordo recíproco para facilitar a entrada da carne norte-americana no mercado britânico.
Na China, foram adotadas salvaguardas que funcionam como cotas para os principais fornecedores de carne bovina, como Brasil, Argentina, Uruguai, Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos. Segundo o consultor Fernando Iglesias, da consultoria Safras & Mercado, Brasil e Austrália foram os mais prejudicados, porque receberam volumes abaixo do que exportaram nos últimos anos. Em 2024, o Brasil embarcou mais de 1,6 milhão de toneladas para o mercado chinês, o que agora representa um déficit de cerca de 500 mil toneladas diante das novas regras.
”O governo brasileiro pediu esclarecimentos à China sobre aproximadamente 350 mil toneladas de carne que estavam em trânsito entre novembro e dezembro de 2025, questionando se esse volume vai ou não compor a cota de 2026”, apontou o consultor. Segundo ele, Brasília entende que esse produto não deveria entrar na conta. Caso seja contabilizado, o Brasil teria cerca de 750 mil toneladas disponíveis ao longo do ano, cenário considerado complicado para o setor.
A medida chinesa é descrita como protecionista, voltada a estimular a produção local de carne bovina, setor em que a China já é o terceiro maior produtor mundial. A expectativa para 2026 é que o Brasil não consiga repetir os volumes de embarque de 2025 e tenha de buscar novos compradores no mercado global.
Mesmo assim, a China deve permanecer como principal destino da carne bovina brasileira, com cerca de 1,106 milhão de toneladas previstas. Paralelamente, os Estados Unidos tendem a ampliar suas compras, mesmo fora da cota e pagando tarifa extra de 26,4%.
”O Brasil segue competitivo porque o custo de produção nos EUA é muito mais alto, com a arroba do boi gordo custa em média US$ 60 no Brasil, contra US$ 115 a US$ 120 nos Estados Unidos. Além disso, o rebanho e a produção norte-americanos estão em declínio, aumentando a necessidade de importação”, explica Iglesias.
Diante desse cenário, a Abrafrigo, que representa os frigoríficos brasileiros, e a Abiec, que reúne as indústrias exportadoras de carne, já se manifestaram junto ao ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, pedindo atuação direta do governo federal nas negociações, principalmente com a China.
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