No dia 17 de janeiro, no Paraguai, será assinado o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Trata-se de um marco histórico após décadas de negociações marcadas por avanços, recuos e forte resistência política, sobretudo quando o tema central sempre foi a competitividade agropecuária do Mercosul, em especial do Brasil.
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Durante muito tempo, o acordo foi visto na Europa como uma ameaça direta à sua agricultura, altamente subsidiada e limitada por custos elevados, clima rigoroso e pela sazonalidade do hemisfério norte. Do outro lado, o Mercosul sempre enxergou o tratado como uma janela de oportunidade natural: produzir o ano inteiro, com escala, eficiência e preços mais competitivos.
A lógica da contraestação
A diferença climática entre os blocos nunca foi um problema econômico — foi, na verdade, o argumento central do acordo. Enquanto a produção europeia enfrenta longos períodos de inverno e janelas produtivas curtas, o Mercosul garante oferta contínua de alimentos.
Essa contraestação reduz a volatilidade, ajuda a conter preços e dá previsibilidade ao abastecimento europeu. Ao mesmo tempo, abre espaço para que produtos agropecuários do Mercosul encontrem mercado estável, com regras claras e horizonte de longo prazo.
Um acordo desenhado para evitar choques
O tratado não nasce como uma abertura abrupta. Tarifas serão reduzidas de forma gradual, com prazos longos e mecanismos de salvaguarda justamente para proteger setores sensíveis de ambos os lados. A lógica é integração progressiva, não ruptura.
Esse desenho explica por que o acordo resistiu ao tempo: ele busca equilíbrio político e econômico, evitando que a abertura comercial desestimule economias internas ou gere reações sociais imediatas.
Sinal verde para o capital privado
Mesmo antes de entrar plenamente em vigor, a assinatura do acordo já produz efeitos concretos. A previsibilidade institucional desperta interesse do investimento privado europeu no Mercosul e, ao mesmo tempo, incentiva empresas sul-americanas a investir em padronização, certificações e agregação de valor para acessar o mercado europeu.
Esse movimento antecede o comércio em si. O acordo funciona como um catalisador de decisões estratégicas, produtivas e logísticas.
Além do agro, uma agenda estratégica
Embora o agro seja o eixo mais visível, o acordo também cria espaço para uma cooperação menos ruidosa, mas decisiva para o futuro. O Mercosul reúne reservas relevantes de minerais críticos e terras raras, insumos essenciais para baterias, eletromobilidade, transição energética e tecnologias limpas.
Para a União Europeia, que enfrenta limitações geológicas e elevada dependência externa nesses insumos, a aproximação com o Mercosul pode ajudar a reduzir gargalos estruturais e acelerar uma agenda de energia sustentável que hoje avança mais lentamente do que o planejado.
Ganhos que vão além das exportações
Para o Mercosul, e especialmente para o Brasil, o acordo não se resume a vender mais. Ele abre portas para transferência tecnológica, participação em compras governamentais, integração em cadeias industriais e acesso a mercados de maior valor agregado.
Para a Europa, o acordo representa segurança alimentar, diversificação de fornecedores e redução de custos em um mundo mais instável, caro e fragmentado.
Um novo olhar sobre um velho debate
Por anos, o acordo UE–Mercosul foi tratado como um jogo de soma zero. A assinatura no dia 17 simboliza uma mudança de mentalidade: diferenças produtivas, quando organizadas por regras e prazos, não geram conflito,geram complementaridade.
Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, inflação de alimentos e desafios climáticos, o acordo nasce como uma aposta no pragmatismo, na integração e na previsibilidade. Não resolve tudo, mas aponta um caminho mais racional e necessário, para o comércio internacional daqui para frente.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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