A comunidade da Mangueira, localizada na zona norte do Rio de Janeiro, enfrenta historicamente uma série de desafios complexos, que vão desde questões de infraestrutura e serviços básicos até problemas sociais e de segurança pública. Porém, a Mangueira é também um território de grande resistência e vitalidade. Foi lá que nasceu a fábrica ecológica Omìayê, em que moradores recolhem, reciclam e transformam óleo de cozinha usado em sabão e detergente ecológicos, que são distribuídos gratuitamente na comunidade.
“O projeto Omìayê surgiu para enfrentar um dos principais desafios estruturais das comunidades periféricas do Rio de Janeiro: o saneamento básico insuficiente. A iniciativa começou na Mangueira e se baseia em uma solução integrada e acessível. Recolhemos óleo de cozinha usado, transformando-o em produtos de limpeza sustentáveis com micro-organismos encapsulados. Esses produtos são distribuídos gratuitamente à população local e, ao serem utilizados, liberam microorganismos vivos que ajudam a degradar a matéria orgânica presente no esgoto. O resultado é a redução de odores e a prevenção de doenças de veiculação hídrica — impactando positivamente a saúde e a qualidade de vida dos moradores da Mangueira”, afirma Gabriel Pizoeiro, diretor do Instituto Singular Ideias, responsável pela implantação da fábrica.
De acordo com o Instituto, com este processo de reciclagem, já foram evitados mais de 80 milhões de litros de água poluída, o equivalente a aproximadamente 28 piscinas olímpicas. A ecofábrica já reaproveitou 3200 litros de óleo, que se tornaram sabão e detergente distribuídos a cerca de 1.500 famílias da Mangueira.
Como funciona
O processo começa com a doação de óleo pelos moradores. O material é peneirado, filtrado e misturado aos microrganismos em caldeiras especiais. A transformação é visível: um resíduo doméstico passa a ter valor social, econômico e ambiental, ao mesmo tempo em que dissemina práticas sustentáveis na própria favela. O que antes era poluente (óleo usado) no projeto é matéria-prima de produtos que servem às casas e às famílias.
A tecnologia utilizada na ecofábrica foi desenvolvida em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e se baseia em processos de biorremediação.
Microorganismos inofensivos à saúde humana são incorporados aos produtos e passam a atuar no tratamento do esgoto diretamente nas casas das famílias, toda vez que o sabão ou detergente é utilizado. A parceria garante ainda monitoramento técnico e validação científica dos resultados.
O impacto deste projeto ultrapassa os indicadores ambientais e se desdobra em educação, geração de renda, autonomia produtiva e consciência coletiva sobre o cuidado com o território. É uma excelente demonstração de que comunidades podem liderar processos de inovação quando ciência, território e participação social caminham juntos.
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