A lei do mais forte ameaça à ordem global

Foto: White House

O mundo assiste a uma escalada preocupante no discurso e na prática das grandes potências. A mais recente envolve os Estados Unidos pressionando a União Europeia com ameaças tarifárias e retaliações econômicas caso o bloco não aceite discutir a compra ou a anexação da Groenlândia, território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca. Discordar pode ter um custo.

Esse tipo de postura rompe um princípio básico que sustentou a ordem internacional no pós-guerra: as diferenças se resolvem por negociação, não por chantagem. Quando o mais forte ameaça e o outro é constrangido a ceder, o sistema deixa de ser regido por regras e passa a operar pela força.

A chantagem como método político

A Europa, com razão, resiste. Ceder significaria abrir um precedente perigoso: aceitar que pressão econômica e poder militar são instrumentos legítimos para redefinir soberanias. Não se trata apenas da Groenlândia. Trata-se do método.

Ao normalizar esse comportamento, abre-se espaço para que outros façam o mesmo, e o mundo já tem exemplos suficientes.

A China observa atentamente a questão de Taiwan, tratada por Pequim como parte de seu território histórico. A Rússia, por sua vez, tenta legitimar a invasão da Ucrânia, assim como já fez movimentos semelhantes na Geórgia.

O fio condutor é o mesmo: a substituição do direito internacional pela lei do mais forte. Quando isso acontece, o equilíbrio global se rompe. Alianças perdem previsibilidade, tratados se esvaziam e o comércio internacional passa a conviver com o risco permanente de sanções, tarifas e conflitos.

Uma declaração que escancara o risco

O episódio ganha contornos ainda mais graves diante de declarações recentes do próprio Donald Trump, ao afirmar que, por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, concedido pelo comitê norueguês, não se sentiria obrigado a “pensar em paz”.

Vinda do líder da maior potência econômica, militar e política do planeta, a fala sugere que a paz vira moeda de troca, condicionada a reconhecimento pessoal e concordância externa.

O custo global da força
Quando a força passa a orientar decisões estratégicas, o impacto não fica restrito à geopolítica. Ele se espalha:

  • Mercados mais voláteis, com fuga para ativos de proteção;
  • Comércio internacional travado, com cadeias produtivas sob risco;
  • Investimentos represados, diante da imprevisibilidade;
  • Países médios e pequenos vulneráveis, sem proteção institucional real.
  • O mundo não precisa de mais músculos; precisa de regras respeitadas.

E o Brasil?

O que muita gente ainda não está percebendo é que essa confusão global também pode abrir uma janela para o Brasil. Em um mundo mais instável, alimento deixa de ser mercadoria e passa a ser ativo estratégico. E o Brasil, hoje, está entre os raros países capazes de produzir e fornecer comida em escala, com regularidade e diversidade.

Quando os Estados Unidos pressionam a Europa com tarifas e ameaças, quando a guerra se prolonga no Leste Europeu e quando a Ásia vira foco permanente de tensão, a segurança alimentar europeia entra no centro do debate. E segurança alimentar não combina com isolamento. Por isso, não me surpreenderia se esse cenário acabasse antecipando e pressionando a própria Europa a implementar mais rapidamente o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, não por ideologia, mas por pragmatismo.

Num mundo fragmentado por sanções, tarifas e discursos de força, quem garante comida ganha poder sem precisar levantar a voz. E o Brasil, goste-se ou não, ocupa hoje esse espaço global.

A história mostra que a paz não nasce da imposição, mas do equilíbrio. Quando líderes tratam soberania como barganha e ameaças como ferramenta legítima, o planeta entra numa zona cinzenta, onde tudo é permitido e nada é seguro.

Se essa lógica prosperar, não será apenas a Europa, Taiwan ou a Ucrânia que pagarão o preço. O custo será global, econômico, político e humano.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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