Quando o mundo vem até nós

Drag Con 2026Divulgação

Silvetty Montilla existe há décadas. Grag Queen virou apresentadora de um programa internacional. A Gongada Drag lota teatro sem precisar de tapete rosa. A cena drag brasileira não nasceu esperando permissão — ela nasceu à margem, se construiu na resistência e chegou ao centro por conta própria.

Por isso, quando a RuPaul’s DragCon anuncia sua primeira edição latino-americana em São Paulo, nos dias 5 e 6 de junho, a pergunta mais honesta é: o que significa quando o mundo finalmente vem até você?

Talvez seja a maior resposta possível ao famoso meme “Come to Brazil“. Há anos, as queens de RuPaul’s Drag Race enxergam o Brasil como destino — vêm para festas, festivais com ingressos que esgotam tão rápido quanto os de qualquer grande show musical. O Brasil não precisava ser descoberto. Precisava ser reconhecido.

Criada em 2015 por RuPaul e pela World of Wonder, a DragCon nasceu para transformar a arte drag em força criativa, cultural e econômica. Deu certo. Hoje é a maior convenção drag do mundo, com edições em Los Angeles, Nova York e Londres. E agora São Paulo — escolha que não é aleatória. O Brasil tem uma das cenas drag mais vibrantes do planeta, uma comunidade LGBTQIAPN+ que move cultura, consumo e narrativa, e uma Parada do Orgulho que reúne milhões na Avenida Paulista no dia seguinte ao evento.

Fontana – Drag brasileira que vive na HolandaDivulgação

Mas fica a pergunta: quando uma convenção americana chega ao Brasil trazendo queens internacionais para dividirem espaço com Silvetty e Grag Queen, quem está apresentando quem ao mundo? Quem valida quem?

Não há resposta simples — e talvez essa ambiguidade seja o ponto. A institucionalização de uma cultura marginalizada é, ao mesmo tempo, vitória e transformação. O DragBooth, o meet & greet e a ativação de marca são sinais de que a arte drag chegou a um lugar de reconhecimento que custou muito para ser conquistado. Como dizia RuPaul: “If you can’t love yourself, how in the hell are you gonna love somebody else?” — e parte de se amar é ser visto, remunerado, celebrado em grande escala.

A DragCon Brasil chega numa semana em que São Paulo já seria o centro do mundo drag. Ela não cria o fenômeno — ela responde a ele. E talvez seja exatamente isso que vale notar: quando uma franquia global escolhe o Brasil para inaugurar um continente inteiro, ela finalmente reconhece algo que a gente já sabia.

Assim como edições de CCXP e outros eventos, o Brasil é um mercado que tem um consumidor ávido para estar e consumir nesses espaços, criando oportunidades comerciais para franquias de eventos explorarem o nosso território.

Com programação extensa, a convenção será dividida em três palcos com propostas complementares. O Main Stage, comandado por Ikaro Kadoshi e Grag Queen, apresentadora do Drag Race Brasil, concentra os grandes shows, performances, momentos de moda e apresentações de maior impacto. No Eleganza, apresentado por Alexia Twister, a programação aprofunda conversas sobre identidade, carreira, representatividade, arte e cultura LGBTQIAPN+. Já o Extravaganza, apresentado por Jade Odara, assume o lado mais irreverente, caótico e interativo da feira.

Valenttini, uma das estrelas da Gongada Drag, também comanda o quadro “Aquenda ou Desaquenda”, ao lado de Thelores e Eddylene Água Suja, em uma espécie de talk-show humorístico sobre os conhecimentos da arte drag, recheado de interações e desafios propostos pela plateia.

RuPaul’s DragCon Brasil acontece nos dias 5 e 6 de junho no Expo Center Norte, São Paulo contando com um line-up com mais de 40 queens nacionais e internacionais. Ingressos em dragcon.com.br

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