Durante a exibição relacionada ao Golden Globe Awards do filme “O Agente Secreto”, no Rio de Janeiro, um detalhe atravessou a reportagem do The New York Times: o concurso de sósias da personagem Dona Sebastiana. Vestidos florais, óculos escuros, gestos reconhecíveis e um cigarro cenográfico que se consolidou como uma das imagens mais marcantes do evento.
A autora do cigarro gigante é Marta de Oliveira Torres, atriz alagoana, com trajetória discreta, constante e consistente, no Brasil e no exterior, marcada pela presença do humor na combinação entre teatro, literatura, filosofia, performance e cinema independente autoral. Sua aparição recente no jornal nova-iorquino dialoga com um momento anterior de sua passagem por Nova York: em 2024, Marta lançou o filme Virtualidade no Chelsea Film Festival, evento que o jornal nova-iorquino destacou como espaço dedicado à revelação de novos diretores, produtores e atores, funcionando como vitrine de novas vozes autorais no circuito da cidade.
A participação no concurso de sósias de Dona Sebastiana nasceu de um gesto afetivo e cultural direto. A homenagem se conecta ao fato de sua mãe ter nascido em Parelhas, mesma região de origem de Tânia Maria, atriz carismática cuja presença popular conquistou reconhecimento internacional, incluindo prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante na Espanha e destaque por Melhor Cena com Cigarro, segundo críticos americanos.
“Foi uma maneira divertida de celebrar nossa cultura nordestina feminina, expansiva e expressiva, e também de homenagear minha ancestralidade. O Agente Secreto chega justamente para mostrar ao mundo a beleza e a força desses valores tão presentes no nosso cotidiano”, afirma Marta.
Esse gesto se insere em um percurso de combinar influências culturais nacionais diversas, que começa no Carnaval de Salvador, onde a atriz interpretava a poetisa carioca Cecília Meireles em ações do coletivo Boca de Brasa, aproximando poesia e festa popular no espaço público. A partir daí, seguiu construindo personagens marcantes no teatro brasileiro, como Regina, de As Pequenas Raposas, obra da dramaturga americana Lillian Hellman, sob direção do mestre do teatro baiano Harildo Déda. Sua interpretação combinava humor e leveza a uma personagem atravessada por forte tensão moral.
No cenário europeu, atuou em inglês em uma montagem de Shakespeare na Alemanha, interpretando Audrey, personagem construída a partir de pesquisa de campo no interior da Paraíba, junto a uma mulher reconhecida pelo trabalho como cuidadora de cabras.
A observação do cotidiano e a precisão física da personagem estabeleceram comunicação imediata com o público. “Acho que levo a leveza da cultura nordestina para tudo o que faço, inclusive em personagens criadas por autores ingleses. Vai ver que foi por isso que consegui arrancar gargalhadas do público alemão”, relembra a atriz.
No cinema, o mesmo olhar aparece em registros variados. O curta A Missão Encantada, reconhecido na China como o terceiro melhor filme do mundo para promoção da ciência, sendo o único brasileiro premiado entre mais de 10 mil obras internacionais, combina imaginação simbólica e humor sutil. Uma macaxeira gigante transformada em rainha em um templo sagrado de traço extraterrestre e uma cena em que a artista dialoga com uma lhama em idioma alienígena compõem um universo onde ciência e fabulação caminham juntas.
Esse percurso se desdobra ainda na websérie Farofeira pelo Mundo, dedicada à gastronomia, à feira livre e a temas sociais, e na produção literária, com poemas publicados em livros coletivos e obras autorais. Entrevistas recentes concedidas à Rádio Cultura de Buenos Aires e destaque no jornal uruguaio Diario El Pueblo completam uma circulação construída com regularidade e alcance internacional.
Entre a rua e a sala de cinema, Marta Torres desenvolve um trabalho que transforma gestos cotidianos em linguagem artística, conectando humor, imaginação e presença cultural. “O segredo do Nordeste é o tempero”, resume a atriz. “Quando o mundo prova, quer repetir. Vamos ver O Oscar repetindo o prato, digo, o prêmio, quatro vezes! O Agente Secreto vai até deixar a estatueta mais fortinha!”, aposta a atriz.














