“Não existe mais Carnaval de SP sem mim”, afirma Traemme

Traemme se apresenta no bloco Agrada Gregos, em São PauloInstagram

Um hit pode mudar a vida de uma pessoa, e em 2025 a música “Sou Eu” virou o mundo de uma jovem de Embu-Guaçu, no interior de São Paulo, de ponta cabeça. Agora, em 2026, Traemme se prepara para subir no trio do Bloco do TikTok e Agrada Gregos ao lado de Gloria Groove e Gretchen no Carnaval de São Paulo, descrito como um dos maiores carnavais do mundo.

Em entrevista ao Portal iG, a cantora abriu o coração sobre os bastidores de sua ascensão no cenário musical brasileiro. Traemme detalhou como a plataforma TikTok foi importante para sua visibilidade e como o apoio da família sempre foi essencial, mesmo nos momentos mais difíceis.

A artista revelou que sempre foi apaixonada por música desde criança, quando brincava de fazer shows da Banda Calypso com os amigos.

Minhas brincadeiras de criança eram brincar de fazer show, e a gente brincava de show de Banda Calypso. A Joelma sempre foi minha diva master, e eu sempre quis muito ser ela“, contou. No entanto, por ser travesti, na infância não podia interpretar a cantora Joelma e precisava fazer o papel do guitarrista Ximbinha.

Traemme se apresenta no bloco Agrada Gregos, em São PauloInstagram

Eu, de Ximbinha, cantava de costas, tocando, e a Gabi, minha amiga loira, que era a Joelma, ela dublava a minha voz“, relembrou. As crianças faziam cartinhas para convidar os vizinhos para os shows caseiros, mas apenas a mãe de Traemme comparecia às apresentações.

A influência de Joelma permanece forte no trabalho de Traemme até hoje. A cantora incorporou elementos marcantes da diva do Calypso em suas performances, como o uso de botas de salto alto e cabelos volumosos com muito movimento. “Esses signos muito femininos que a Joelma usa, que eu sempre fiquei muito apaixonada, eu trouxe pra mim“, explicou.

A Igreja Adventista, então, foi onde o dom de cantar se abriu para a artista, sendo o primeiro lugar em que teve contato com equipamentos profissionais de som. Vinda da periferia, Traemme encontrou no púlpito da igreja seu primeiro palco e a oportunidade de usar um microfone sem fio. “Eu subia no púlpito, parecia que eu tava no palco do Rock in Rio“, recordou.

Traemme se apresenta no bloco Agrada Gregos, em São PauloInstagram

Da igreja aos palcos

A trajetória de Traemme na igreja foi interrompida quando sua identidade de gênero se tornou mais evidente. “Saí da igreja porque a minha travestidade já tava muito aflorada, e já não podia mais estar no púlpito daquele jeito. Porque eu já tava indo de batom pra igreja“, explicou. Apesar de deixar a congregação, a cantora manteve sua conexão com o sagrado e continuava cantando louvores em casa.

Com a chegada da vida adulta e das responsabilidades financeiras, o sonho de ser cantora foi temporariamente deixado de lado. Foi durante a pandemia de COVID-19 que Traemme se reencontrou com sua paixão pela música. “Eu passava o dia inteiro cantando dentro de casa. E aí eu me reencontrei com o meu sonho“, contou.

A família sempre foi uma rede de apoio importante para a artista. Traemme participava de concursos musicais em sua cidade natal e ganhou o prêmio “A Mais Bela Voz do Estudantil” em sua escola. “Era conhecida como artista da escola. Porque eu sempre cantava… Ah, tinha uma apresentação, era eu cantando, dançando“, relembrou.

Mesmo com o apoio familiar, Traemme passou por períodos de autossabotagem e questionamento sobre suas capacidades. “Às vezes a gente tem que se provar muito. E às vezes teve momentos que eu não me achei autossuficiente ou boa o suficiente“, admitiu. Foi o incentivo das pessoas ao seu redor que a manteve firme no propósito.

A cantora trabalhou em diversas profissões antes de conseguir viver da música. “Já fui vendedora de loja, já fui telemarketing, já fui cuidadora de brinquedo. Já fiz de tudo. Cabelereira, me formei em cabelo e maquiagem pela Embeleze“, listou. Nenhum desses trabalhos, no entanto, trazia a realização que ela buscava.

Traemme se apresenta no bloco Agrada Gregos, em São PauloInstagram

Prostituição para a sobrevivencia

Traemme revelou que recorreu à prostituição por necessidade financeira para sustentar seu sonho artístico. “Já caí na prostituição por necessidade. Que foi o que sustentou o meu sonho. Pra que eu pudesse construir o meu sonho, que é a minha carreira“, afirmou sem demonstrar arrependimento. A artista ressaltou que essa é a realidade de muitas pessoas trans no Brasil.

 “Não falo isso com remorso, porque faz parte da minha história. E faz parte da história de muitas pessoas que são como eu hoje em dia“, pontuou. Ela usou o dinheiro da prostituição para investir em sua carreira musical e construir seu projeto de vida. “É a realidade que a sociedade bota pra gente. Prostituição. E já que eu caí ali, eu usei isso pra construir o projeto da minha vida“, declarou. A música representou sua saída dessa realidade e sua entrada em um novo capítulo profissional.

A música “Sou Eu” foi o divisor de águas na carreira de Traemme, viralizando em 2025. “De fato, fui a mudança de chave na minha vida porque foi a música que me tirou da prostituição“, revelou emocionada. O hit abriu portas e levou seu nome para mais pessoas.

Traemme se apresenta no bloco Agrada Gregos, em São PauloInstagram

Após o sucesso de “Sou Eu”, Traemme iniciou a turnê “Vai Trava Tour 2.0“, viajando pelo país de forma independente. “Eu sou uma artista independente. Não tem empresários milionários botando grana. Tudo que a gente faz é de forma independente porque o trabalho é bom“, afirmou com orgulho. 

Além de trios elétricos, Traemme conseguiu construir uma base firma em diversos grandes enventos, como a final do reality Corrida das Blogueiras 5, onde apresentou em um teatro para mais de quatro mil pessoas. 

A Traemme que, de fato, é a inspiração pra muitas meninas que, às vezes, não vê esperança, sabe? Porque, muitas vezes, eu não vi esperança. E eu tô emocionada, eu fico emocionada porque é um lugar de afirmação, assim. Tipo, meu Deus, eu consegui, sabe? Eu consegui. E eu vou com fogo no olho de mostrar pra todas as meninas independente se for travesti, não-binária e pra toda a comunidade que, meu, a gente vai além!

Traemme se apresenta no bloco Agrada Gregos, em São PauloInstagram

Carnaval 2026

O Carnaval de São Paulo 2026 marca um momento histórico para o Bloco do TikTok e Agrada Gregos, que completa 10 anos de existência. O maior bloco LGBTQIAPN+ do Brasil reunirá Gloria Groove, Traemme e Gretchen em um encontro de gerações no trio elétrico. O evento acontece no sábado de Carnaval, 14 de fevereiro, a partir das 13h, no circuito do Parque do Ibirapuera, com expectativa de reunir mais de um milhão de foliões.

O Carnaval sempre foi um momento especial para Traemme, representando liberdade de expressão. “É o momento que as pessoas são livres. E o carnaval eu me sentia livre de tudo, de todos os signos, de todas as correntes“, explicou. Após se tornar artista profissional, passou a ser convidada para performar nos trios todos os anos.

Para a cantora, a oportunidade está sendo um desafio e uma responsabilidade. “Hoje em dia, você consegue contar no dedo as travestis que estão em lugares de destaque“, observou. Para ela, estar nesse palco representa mostrar para pessoas como ela que é possível alcançar seus objetivos.

Traemme se apresenta no bloco Agrada Gregos, em São PauloInstagram

A artista admitiu que às vezes se pega em momentos de autossabotagem, questionando se merece estar nesses espaços. “Às vezes, eu me pego, me auto-sabotando e pensando: Meu Deus, será? Será que eu mereço?“, confessou. No entanto, logo se lembra de tudo que construiu e passou para chegar até ali.

Além da participação no Agrada Gregos, a cantora acabou de lançar a música “Flexiona” em parceria com Cariúcha e DJ De Veras. O single dance traz coreografia e é voltado para a festa de carnaval, com uma pegada dançante e divertida. “Calor, amor, verão, beijar na boca, e… Enfim, essas coisas gostosas. Do carnaval mesmo“, descreveu.

Traemme também revelou em primeira mão que lançará um novo forró antes do Carnaval, seguindo a fórmula de sucesso de “Sou Eu”. “A gente meio que quis continuar com a receita de ‘Sou Eu’, que é um forró. E forró pra mim é pop, porque pop é popular“, justificou. A artista acredita que o ritmo é essencial para alcançar os interiores do Brasil.

Traemme se apresenta no bloco Agrada Gregos, em São PauloInstagram

A cantora mantém “Sou Eu” como parte obrigatória de seu repertório em todos os shows. “Eu vou cantar pra sempre, porque tem uma história. É a música que mudou a minha vida“, explicou. No palco, existe um momento especial dedicado à canção, onde Traemme conta de onde veio e aonde a música a levou.

O forró é visto por Traemme como um ritmo estratégico para sua carreira. “Nos interiores, o que mais toca é forró, é piseiro. Então eu sinto que é um ritmo que faz meu nome ir ainda além”, avaliou. A escolha do gênero não é aleatória, mas parte de uma estratégia para alcançar diferentes regiões do país.

Em 2025, Traemme participou de sete trios diferentes durante o Carnaval de São Paulo. Ela cantou todas as noites em casas como Zappers e Áudio, além de sua participação no Agrada Gregos. “Eu só tenho a agradecer ao Universo, agradecer a mim mesma“, declarou ao relembrar a intensa programação do ano anterior.

A demanda no Carnaval mostrou para Traemme que seu trabalho tem valor e alcance. “O carnaval me mostrou o contrário, de tipo, Traemme, vou te dar três tapas na cara. Você é Traemme“, contou emocionada. Esse reconhecimento a ajudou a vestir sua identidade artística com mais confiança e autenticidade. “Hoje em dia eu consigo entender que não existe mais Carnaval de São Paulo sem Traemme“, afirmou com propriedade. 

Traemme se apresenta no bloco Agrada Gregos, em São PauloFoto: Instagram
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Primeiro álbum

Em revelação exclusiva ao iG, Traemme anunciou que está produzindo seu primeiro álbum de estúdio intitulado “Mundana“. O projeto terá 12 faixas e está previsto para ser lançado no primeiro semestre de 2026. “Nunca contei isso em lugar nenhum. O nome do álbum é ‘Mundana’“, compartilhou pela primeira vez.

A cantora sente que chegou o momento de entregar um projeto mais sólido e completo para o público. “Eu sinto que é o momento que a galera tá esperando mesmo um projeto maior“, avaliou. 

Sem empresários milionários ou grande estrutura, Traemme construiu sua carreira batendo de porta em porta. Quando não tinha shows agendados, a solução foi criar oportunidades. “Eu alugava uma caixa de som e ia pra Paulista pra gerar movimento, pras pessoas me verem, pra gravar conteúdo“, contou sobre suas estratégias iniciais.

A falta de recursos nunca foi impedimento para a criatividade da artista. “Não tinha dançarino, quem sonha aí? Juntei quatro gay que sonham tanto quanto eu e a gente foi construir o império“, relembrou. 

KING Saints e Traemme mergulham no afrobeat da inédita ‘Otário’Foto: Kim Koeche

Traemme hoje tem contatos e parceiros importantes, mas tudo foi conquistado com trabalho e persistência. “Foi construído do zero, foi indo pra Avenida Paulista, porque não tinha show“, disse. As apresentações na Paulista serviam para gerar conteúdo, movimento e visibilidade quando as oportunidades eram escassas. “Não é brincadeira pra mim, porque é o projeto da minha vida. Cantar, estar no palco. Mostrar pras pessoas que são como eu que a gente pode fazer o que a gente quiser fazer“, afirmou. A música é a única coisa que realmente a preenche profissionalmente.

Traemme se vê como exemplo para outras pessoas trans que buscam seguir carreira artística. “Que as meninas possam ver um exemplo de, poxa, a gata saiu do nada, igual a gente, a gente pode também“, disse.

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