Malu Galli dá gás a ‘Mulher em Fuga’, da obra de Édouard-Louis

Tiago Martelli e Malu Galli em Mulher em FugaJoão Pacca

Atriz que sempre transitou com naturalidade entre repertório contemporâneo e dramaturgia clássica, Malu Galli se consolidou como intérprete capaz de sustentar espetáculos ancorados sobretudo na palavra. Foi assim em sua (excelente) passagem anterior por São Paulo há três anos em A Cerimônia do Adeus, texto de Mauro Rasi (1949-2003) em que o autor passava a limpo parte da vida em luto de sua mãe. 

Curiosamente, seu novo trabalho Mulher em Fuga, em cartaz no Sesc 14 Bis, resvala na mesma temática ao tomar como foco as memórias do escritor francês Édouard-Louis a respeito de sua mãe durante sua infância, adolescência e vida adulta relatadas em duas de suas obras, Lutas e Metamorfoses de uma Mulher e Monique se Liberta

Longe da densidade dramática que carrega a obra de Mauro Rasi, os livros de Louis contam com a capacidade da atriz de valorizar todo e qualquer texto para encontrar o motor que faz com que Mulher em Fuga não se dilua no (fraco) material literário que lhe serve de base. 

Na obra, o teor autobiográfico se pretende a uma análise de vínculos familiares, deslocamentos sociais e marcas de violência simbólica. A proposta carrega, na teoria, uma densidade jamais revelada na prática. 

O texto se estrutura em prosaicidade insistente, uma sucessão de episódios relatados como quem folheia memórias ainda quentes, mas sem necessariamente transformá-las em dramaturgia. A sensação recorrente é a de uma pretensa profundidade analítica que raramente se sustenta além da superfície.

O problema está muito mais no material base do que necessariamente na competente adaptação de Pedro Kosovski, que busca sustentações dramatúrgicas para uma obra de apelo raso e até encontra lampejos de criatividade. Mérito também da direção de Inez Vianna, que aposta numa linguagem econômica quase ascética. 

Essa escolha tem ganhos, evitando o excesso ilustrativo e permitindo que o foco permaneça nos intérpretes. Por outro lado, há momentos em que essa contenção parece resultar menos de rigor estético e mais de certa timidez em intervir sobre o material.

Falta tensão cênica em trechos decisivos, e a encenação por vezes se limita a acompanhar o fluxo narrativo sem propor fricção dramatúrgica mais consistente.

Nesse contexto, Malu Galli emerge como a força que nunca seca neste espetáculo. Sua atuação é precisa, sem recorrer a inflexões grandiloquentes, e demonstra domínio raro do tempo interno da cena. A atriz consegue extrair nuances emocionais de um texto que frequentemente se mantém em tom declaratório. 

Mesmo quando a escrita de Louis resvala numa autorreferencialidade típica de parte da literatura contemporânea (aquela que supõe relevância automática à própria experiência), Galli encontra caminhos de comunicação direta com a plateia.

Idealizador do espetáculo e parceiro da atriz em cena, Tiago Martelli, dispõe de menos material para desenvolver. Seu trabalho é correto e atento, mas a dramaturgia lhe reserva funções mais periféricas, narrativas e, por vezes, apenas reativas. A dinâmica entre os dois poderia gerar contrapontos mais interessantes se o texto oferecesse maior espessura dramática ou conflito efetivo.

Tecnicamente, a montagem encontra seus pontos mais consistentes na cenografia de Dina Salem Levy e no desenho de luz de Aline Santini. Ambos constroem atmosferas que não disputam protagonismo com os atores e contribuem para uma espacialidade coerente com a proposta intimista.

Tiago Martelli e Malu Galli em Mulher em FugaJoão Pacca

Já a trilha sonora assinada por Felipe Storino parece cumprir função protocolar. Ela entra, sublinha e sai sem alterar significativamente a percepção da cena.

Mulher em Fuga confirma a excelência cênica de Malu Galli, mas reacende um debate recorrente sobre a literatura autobiográfica recente e sua transposição para o palco. Nem toda experiência pessoal, ainda que legítima, se converte automaticamente em matéria teatral indispensável. 

A atriz parece compreender isso intuitivamente e, talvez por essa consciência, impede que o espetáculo afunde de vez na introspecção genérica. Mesmo quando o texto insiste em permanecer ali.

COTAÇÃO: ★ ★ ★ (BOM)

SERVIÇO:

Mulher em Fuga
Data: 15 de janeiro a 8 de fevereiro
Local: Sesc 14 Bis, Teatro Raul Cortez, São Paulo (SP)
Endereço: R. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, região central
Horário: Quinta a sábado, 20h; domingo, 18h
Preço do ingresso: R$ 35 (meia) a R$ 70 (inteira)

Relacionados

35dhubwkt2krttriz8l8cgl9m
0cfl17sdyw12o1oz2qbmxew70
dwxisv45amzcxz9q1huotjz63
Receba atualizações na palma de sua mão e fique bem informado Siga o Canal do portal Ibotirama Notícias no WhatsApp

2025 | Ibotirama Notícias Todos os direitos reservados  Por DaQui Agência Digital

Rolar para cima