Atriz cuja trajetória no teatro sempre oscilou como uma espécie de espelho para os papéis que ganhou na TV, Danielle Winits sempre se mostrou apta para os grandes musicais e para estrelar comédias comerciais nem sempre à altura de seu talento como atriz, suplantado pelo excessivo apelo popular. Faltava à atriz um trabalho cujo material dramatúrgico fosse capaz de tensionar sua persona cênica.
Esse encontro acontece agora em Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente sob a direção de Gerald Thomas. Em cartaz no palco do Teatro FAAP desde 30 de janeiro, a obra é resultado de uma parceria à primeira vista improvável, mas de resultado fértil.
Historicamente associado a uma cena experimental marcada pelo fragmento, pelo humor absurdo e por uma poética muitas vezes hermética, Gerald Thomas encontra na atriz uma intérprete capaz de traduzir esse universo sem diluí-lo. Winits não normaliza o texto; ao contrário, assume suas arestas e faz delas motor expressivo.
Baseado na obra de Jane Wagner, cuja montagem estrelada por Lily Tomlin em 1985 reacendeu a chama da atriz americana para o teatro experimental, o espetáculo se estrutura como um mosaico de vozes.

Sob a intervenção de Thomas, que assina a adaptação do texto, Winits transita entre personagens, registros sociais e estados emocionais diversos, costurando crítica ao mercado da cultura, observação política e reflexões existencial com um humor desconcertante e por vezes autorreferente, que serve como ferramenta de aproximação com o público.
Choque! é também momento de brilho para diretor, que se livra de excessos que empalideceram o brilho de montagens anteriores, como Traidor, estrelada por Marco Nanini, e F.E.T.O, com Fabiana Gugli. Aqui, a direção resulta mais depurada, permitindo que a encenação respire sem perder identidade estética.
Winits responde a esse espaço com maturidade. Sua interpretação revela domínio técnico consistente, deixando claro seu senso de tempo cômico refinado, nem sempre perceptível em trabalhos anteriores, ainda que tenha vindo de ótimo momento em cena ao compor o elenco do musical Meninas Malvadas. Choque! leva essa maturidade a outro patamar.
A atriz alterna registros sem caricatura, preserva o ritmo narrativo e mantém uma bem desenhada comunicação direta com a plateia, mesmo quando o texto toma caminhos mais abstratos. É o trabalho mais completo de sua carreira.
Falta à atriz, contudo, mais confiança em sua própria técnica. Enfrentando problemas com o microfone desde os primeiros momentos do espetáculo, a artista deu uma pausa para tentar resolver as questões técnicas, causando uma espera sucessiva de um público impaciente.

O incidente fez com que a atriz desistisse da amplificação, o que expôs uma potência vocal crescente e tornou sua presença mais orgânica, o que suscitou o renascimento da já antiga discussão que ronda o teatro contemporâneo acerca da dependência crescente de microfonação mesmo em salas de médio porte.
Ainda que com uma trilha (excessivamente) presente, a voz natural da atriz se mostrou suficiente e, paradoxalmente, mais expressiva.
Os elementos visuais contribuem decisivamente. O cenário de Fernando Passetti evita excessos ilustrativos e cria um espaço onde as personagens emergem, enquanto o desenho de luz de Wagner Pinto estabelece atmosferas que dialogam com a dramaturgia sem disputar protagonismo com a intérprete.
No balanço geral, Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente resulta como bem vindo veículo para uma intérprete em plena maturidade artística. Winits alcança aqui um estado de graça cênico que redefine sua trajetória no encontro feliz com um Gerald Thomas ainda capaz de reafirmar sua capacidade de provocar sem se fechar em códigos inacessíveis.













