Charly García é um gênio. Apesar do qualificativo estar, atualmente, desgastado pela banalização de seu uso, neste caso é mais do que verdadeiro.
Sua produção musical, sempre à frente de seu tempo, ultrapassou as fronteiras da Argentina e ganhou o mundo.
A genialidade do roqueiro teve ecos também no Brasil.
Aqui será lançado, em breve, o livro Pasajero en trance – uma história de Charly García no Brasil, escrito pelo jornalista Diego Queijo.
Radicado em Brasília e atuando entre a reportagem e a comunicação estratégica, Diego foi ganhador dos prêmios Latino-Americano de Reportagem (Red Harvest/Open Society Institute, 2013) e MPT de Jornalismo (2015).
Confira uma entrevista exclusiva feita com o autor.
O início
Como surgiu o projeto de fazer um livro sobre Charly García?
Sempre achei o Charly um compositor extraordinário e acompanho sua trajetória desde a adolescência, quando conheci o álbum MTV Unplugged (que é talvez o álbum mais palatável para um primeiro contato com os mais de 50 discos do Charly).
Como acontece com muita gente que entra no universo dele, o interesse acabou virando uma obsessão saudável.
Ao longo dos anos fui comprando livros argentinos e me chamou a atenção o fato de existirem mais de 20 títulos dedicados a ele.
Que músico no Brasil tem essa bibliografia? Foi lendo esses livros que percebi que o Brasil aparecia constantemente como um lugar importante na trajetória do Charly, mas quase sempre de forma superficial ou incompleta.
Sou jornalista e atuei como repórter, por isso surgiu essa curiosidade.
Mas posso dizer que os responsáveis por decidir fazer o livro foram o jornalista argentino Róque di Pietro e a empresária Ivone de Virgiliis.
Di Pietro escreveu uma epopeia em dois volumes chamados Esa noche toca Charly, cada um com umas 700 páginas. Ele fez um trabalho hercúleo de mapear e descrever shows de toda a carreira do Charly.
E chamou-me a atenção não haver menção ao show realizado em Gramado (RS) em 2004.
Foi uma apresentação lendária no Sul porque ele atirou um sofá dentro do Lago Negro, um dos cartões postais da cidade.
Aí resolvi pesquisar sobre o show, falei com pessoas que estiveram lá, vi fotos inéditas do espetáculo, cobertura de jornal e mandei para o Di Pietro.
Começamos a conversar sobre tudo isso lá no início de 2024 e achei bacana.
Em outros livros, como os do baterista Fernando Samalea, encontrei uma personagem pouco mencionada mas que despertou minha curiosidade porque ela era citada como “a empresária brasileira” do Charly.
Trata-se de Ivone de Virgiliis. Ao pesquisar sobre ela, descobri que ainda estava atuando no mercado cultural e resolvi procurá-la. Quando ela retornou, eu liguei, e ficamos mais de 1h ao telefone.
As histórias dela por si só dariam um livro, e não só apenas sobre o Charly. Ivone hoje é empresária do grupo teatral argentino Fuerza Bruta, mas foi empresária do Charly, do Fito (inclusive foi na casa dela no RJ que ocorreu a comoção quando chegou a notícia do assassinato de seus familiares), da Legião Urbana, Blitz, Kid Abelha entre outros.
Aliás, começou trabalhando na turnê europeia do álbum Black and Blue dos Rolling Stones em 76 e tem um Grammy por um álbum do Ivan Lins.
Naquele telefonema percebi que havia uma história muito maior do que eu imaginava.
Não se tratava apenas dos shows do Charly no Brasil, mas de uma rede de relações culturais, amizades, empresários, músicos e encontros entre Brasil e Argentina que nunca havia sido contada de forma sistemática.
No início de 2026 fui ao RJ para encontrar com ela e tivemos uma conversa de mais de três horas. A partir daí a pesquisa ganhou vida própria.
Uma entrevista levou a outra, uma história revelou outra ainda mais surpreendente.
O que começou como a curiosidade de um jornalista sobre um capítulo pouco explorado da carreira de Charly García acabou se transformando numa investigação sobre mais de quatro décadas de encontros entre Brasil e Argentina através da música.
Qual a importância de Charly García para a música da Argentina e para o rock de maneira geral?
Uma referência que se repetiu entre os entrevistados, principalmente entre os argentinos, é que Charly hoje tem um status de Maradona.
É alguém que extrapolou a área da música e virou algo como um símbolo cultural. Charly não é apenas um grande compositor. Ele participou diretamente da criação da linguagem do rock argentino moderno.
Com Sui Generis, Serú Girán, La Máquina de Hacer Pájaros e sua carreira solo, ele ajudou a estabelecer alguns parâmetros de composição, arranjo e ambição artística para praticamente todas as gerações que vieram depois.
Em 2026 Charly faz 75 anos. Inclusive no prólogo do livro eu falo sobre o que aconteceu entre o último show dele no Brasil, ocorrido em 2011, e agora, 2026.
Nos últimos 15 anos, sua fama e status só cresceram,
Lançou dois álbuns de músicas inéditas, um single com o músico inglês Sting, teve quase toda sua discografia remasterizada e lançada em vinil, foi tema de um documentário da National Geographic apresentado pela cantora mexicana Julieta Venegas, foi assunto para mais de 15 livros.
Encontrou com Paul McCartney, Pete Townshend, Rod Stewart, Rosalía, Lionel Messi e foi mencionado como convidado de honra por Mick Jagger em um show dos Rolling Stones.
E os músicos brasileiros?
Também reencontrou Gilberto Gil, Caetano Veloso, e os amigos de longa data d’Os Paralamas do Sucesso.
Ganhou prêmios e esquinas com seu nome em Buenos Aires e Nova Iorque, além de estátua em Mar del Plata.
Isso tudo dá uma certa dimensão sobre o respeito que ele tem, principalmente de grandes músicos de renome mundial, por mais que sua música tenha disseminado mais nos países de língua espanhola.
E essa influência persiste até para músicos de gêneros bem diferentes. Abro um dos capítulos do livro com as declarações de admiração de Milo J sobre o Charly feitas em 2026.
Mas falando sobre rock e Brasil, de Charles Gavin aos Paralamas do Sucesso, passando por Marcelo Gross, encontrei um respeito quase unânime por alguém que, paradoxalmente, continua sendo pouco conhecido pelo grande público brasileiro.

A experiência
Como está sendo a experiência de realizar uma obra sobre Charly García?
É um quebra-cabeças. São muitas histórias e contextos. E a ideia não era publicar uma “biografia” ou fazer apenas uma “apresentação” do Charly ao público brasileiro.
Até porque hoje, para quem não conhece e tem curiosidade, basta perguntar à IA ou buscar na Wikipédia ou YouTube para ter informações importantes sobre ele.
Claro que há, sim, uma apresentação do personagem e muitas notas biográficas, mas é um livro-reportagem.
Eu queria investigar mais a fundo essa relação dele com o Brasil e do Brasil com ele a partir de episódios que não estavam muito documentados.
Acho que é importante pelo registro e para os leitores. Muitas vezes você começa pesquisando um show e termina encontrando uma história completamente diferente.
Um nome leva a outro, uma foto em jornal leva a uma entrevista da MTV, uma entrevista leva a uma amizade que atravessa décadas.
Em vários momentos tive a sensação de que estava menos pesquisando a trajetória de um músico e mais reconstruindo uma rede de encontros entre brasileiros e argentinos que se formou ao redor da música.
No geral, posso dizer que consegui juntar vários relatos e sou grato pela confiança que músicos, empresários, fãs e jornalistas depositaram no meu projeto.
O livro é dedicado ao Charly e à Ivone porque, de maneiras diferentes, os dois representam o coração dessa história.
Um por ter criado a obra que inspirou tudo isso. A outra por ter ajudado a construir muitas das pontes entre Brasil e Argentina que o livro procura revelar.
Em que fase você se encontra da produção da obra?
Estou na fase final. Ainda aguardo algumas respostas por e-mail para acrescentar, e também a digitalização de mais um material inédito.
A campanha de financiamento coletivo começou no dia 15 de junho, pela plataforma Catarse (catarse.me/livrocharly) , e permanece aberta por 45 dias.
É uma campanha flexível, ou seja, o livro vai ser lançado independentemente da meta, mas é a chance de quem gosta comprar na pré-venda, ajudar a financiar e receber alguns brindes.
O objetivo é arrecadar o suficiente para bancar parte dos custos com edição, revisão, diagramação, impressão, envios e também alguns licenciamentos de imagens.
O lançamento do livro está previsto para novembro de 2026.
A produção
Falemos da elaboração do livro. Quantas pessoas foram entrevistadas, dá para adiantar os nomes de alguns?
Foram mais de 70 os entrevistados que ajudaram a construir essa história. Preciso destacar a entrevista com a Mariza Pederneiras, a Zoca. Não encontrei durante a pesquisa absolutamente nenhuma entrevista dela no Brasil, sendo que ela teve um papel muito importante na carreira do Charly.
Mariza não é apenas uma personagem biográfica, mas testemunha privilegiada, ou mediadora cultural, fundamental daquele momento do fim dos anos 1970 e durante a década de 1980.
Entre os músicos brasileiros entrevistados, posso mencionar Gilberto Gil, Flávio Venturini, George Israel, Thedy Corrêa, Ritchie, Nei van Soria, Os Paralamas, Paulinho Moska, Vitor Ramil, Torcuato Mariano (mezzo argentino, mezzo brasileiro) e argentinos que tocaram com ele, como Pedro Aznar, Daniel Melingo, Fernando Samalea, Hilda Lizarazu, Ulises di Salvo, Mariela Chintalo e Toño Silva.
Além de empresários como a própria Ivone, Billy Bond (Serú Girán), Zé Fortes (Paralamas) e Vinicius Canto (Cascavelletes). Também jornalistas como Róque di Pietro (Argentina), Facundo Soto (Argentina), Sergio Cancino (Chile), Emilio Pacheco, Franklin Valverde, Marcélo Ferla, Mauro Borba, Marcelo Fróes e Fernando Rosa.
A obra já tem um título?
O título é Pasajero en trance – uma história de Charly García no Brasil.
Ficou longo, mas eu não queria chamar apenas de “Charly García no Brasil”. A alusão à música “Pasajero en trance” deixa mais referencial e esse “uma história de…” tem algo de tradição latino-americana.
O livro mais famoso sobre o Charly na Argentina é o do jornalista Sérgio Marchi e chama No digas nada: una vida de Charly García.
Além disso, falar de “uma história de Charly García no Brasil” implica que não estou escrevendo “a” história definitiva do Charly no Brasil.
Estou escrevendo uma entre muitas possíveis, construída a partir de arquivos, lembranças, bibliografias e entrevistas. Isso dá humildade intelectual e profundidade narrativa, eu acho.
Inclusive espero que surjam mais livros e ensaios sobre ele e outros artistas importantes dos países vizinhos por aqui.
Já tem uma editora responsável pela publicação?
O livro será lançado pela editora gaúcha Satolep Press. Eles prezam muito pela qualidade dos produtos e toparam o projeto desde o início.
A Satolep Press existe desde 2005 e tem publicado alguns livros importantes nesse contexto de histórias de fronteiras e América Latina.
Só tenho a agradecer pelo apoio da Gabriela Mazza, Vinicius Peraça e Valder Valeirão.
Diego, tem alguma informação no livro que possa ser antecipada?
Sim, entre shows solo e participações especiais, mapeei 35 apresentações do Charly no Brasil. E os primeiros shows dele em São Paulo ocorreram no Aeroanta, em 1988.
Um spoiler interessante dessa temporada de 88 é que em uma das apresentações ocorreu o encontro de Charly com Cazuza, que estrearia a turnê Ideologia/O Tempo Não Para, no mesmo Aeroanta uma semana depois.
Pelos relatos, Cazuza e Ezequiel Neves conheciam razoavelmente a música do Charly.
Além disso, durante a pesquisa nos jornais da época, encontrei um anúncio informando que o Charly havia sido entrevistado para o Radio Hispanidad, programa de música latina da Rádio Brasil 2000, e que essa conversa foi ao ar em 16 de agosto de 1988.
Não se esqueça
Esta coluna é um espaço destinado à cultura e músicas latinas. Mais informações sobre esses temas você encontra em www.ondalatina.com.br e no Canal Onda Latina: https://www.youtube.com/@canalondalatina
Assista o vídeo sobre o livro:







