POR IZABELA DA SILVA, ALINE BECKMANN, ANDREICI ARAUJO, JAMES FERREIRA, JULIANA FLEURY E LUANA KUMARUARA
As mudanças climáticas já não representam apenas uma ameaça ambiental futura: elas estão gerando impactos concretos na saúde física e mental das populações em todo o mundo.
Relatórios recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Lancet Countdown on Health and Climate Change alertam que eventos extremos, como secas prolongadas, queimadas, ondas de calor e enchentes, têm intensificado quadros de ansiedade, sofrimento psicológico, depressão e deslocamentos forçados, especialmente entre populações historicamente vulnerabilizadas.
Vivemos em um contexto de emergência não declarada; portanto, é fundamental agir desde já na preparação antecipada e no alerta precoce das populações, nos apropriando de conceitos que já foram desenvolvidos, testados, aprimorados e validados pelo Comitê Permanente Interinstitucional (Inter-Agency Standing Committee – IASC), o fórum de coordenação humanitária mais antigo e de mais alto nível do sistema das Nações Unidas.
Entre as abordagens desenvolvidas pela IASC, está o Emergency Response Preparedness (ERP), que envolve planejamento, avaliação de riscos e treinamento – como o desenvolvimento de planos de evacuação, a montagem de kits de emergência ou a implementação de sistemas de alerta – para gerenciar potenciais desastres naturais ou causados pelo homem, garantindo uma resposta rápida e eficaz. Nas políticas globais de adaptação climática, no entanto, a saúde mental permanece praticamente invisível.
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Proposta de mapeamento nacional de políticas de clima e saúde mental
No Brasil, esse debate começa a ganhar força a partir da articulação entre pesquisadores, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e comunidades diretamente afetadas pela crise climática.
Um exemplo concreto é o projeto, recentemente aprovado pela United for Global Mental Health (UnitedGMH), em parceria com o Vertentes – Ecossistema de Saúde Mental, que pretende fortalecer a integração entre saúde mental e mudanças climáticas nas políticas públicas brasileiras.
A proposta prevê o mapeamento nacional de políticas de clima e de saúde mental para identificar lacunas e oportunidades de incidência política, elaborar uma estratégia e articular ações concretas de advocacy, com base em evidências.
O projeto Vertentes Saúde Mental e Clima surge em um momento decisivo para o país, com a intensificação das secas históricas, das queimadas e das ondas de calor na Amazônia. Mais do que reconhecer os impactos emocionais da crise climática, o desafio agora é transformar esse reconhecimento em políticas públicas integradas e efetivas.
Isso significa fortalecer os sistemas públicos de saúde mental nos territórios mais vulnerabilizados, ampliar as estratégias de promoção e prevenção diante dos eventos extremos e reconhecer os saberes tradicionais como parte fundamental das respostas climáticas. Afinal, como mostram as comunidades amazônicas, não há adaptação climática possível sem floresta em pé, sem proteção dos territórios e sem cuidado com os corpos, as memórias e os modos coletivos de viver.

Crise vivida no corpo e na memória
Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Fiocruz vêm alertando para o fato de que as mudanças climáticas impactam profundamente a saúde mental, especialmente em populações que dependem diretamente da natureza para sobreviverem materialmente, culturalmente e espiritualmente. Para essas comunidades, a floresta funciona como um verdadeiro sistema de cuidado, fonte de alimento, cura, pertencimento e equilíbrio emocional.
E as vozes do Tapajós, do Marajó e das comunidades quilombolas do Pará revelam que a crise climática também é uma crise de saúde mental, de memória e de continuidade dos modos de vida.
No Território Indígena Kumaruara, no Baixo Tapajós, Tainan Kumaruara, 27 anos, relata: “Essa seca foi diferente… Houve um momento em que o igarapé secou, e as famílias foram obrigadas a sair.” A falta de água não afeta apenas o território físico, mas também o equilíbrio emocional e espiritual das pessoas que nele vivem.
Arlete Kumaruara, 60 anos, liderança indígena e comunitária, relata: “A gente não tinha água, não tinha como sobreviver… e tudo isso afeta o psicológico, principalmente das mulheres e das crianças.” O que antes era abundância, pesca, roça, floresta viva, hoje dá lugar à escassez, à incerteza e ao sofrimento, comprometendo a saúde mental e as práticas da vida cotidiana.
Para os Kumaruara, o impacto vai além do que se pode ver. A crise climática dilacera os vínculos na relação entre o ser humano e a natureza, os quais se expressam em laços espirituais profundos. “Se a floresta queimar, não há como buscar a cura”, afirma Alain Kumaruara, 29 anos. “O Pajé faz a conexão com os encantados, que trazem cura psicológica, espiritual e física”. Sem a floresta, essa conexão se fragiliza, e com ela, a própria possibilidade de cura.
Os mais velhos são especialmente vulneráveis. “Quem tem problemas de pulmão, anemia… sofre muito mais”, explica o Pajé Naldinho, de 31 anos. Mas a mudança do clima afeta todos os seres: plantas, animais e pessoas. “Sem essa conexão, não há razão para resistir. Essa é a nossa verdade.”
Nas comunidades quilombolas do Pará, os impactos das mudanças climáticas e dos conflitos socioambientais também afetam profundamente a saúde mental. As lideranças relatam que o avanço do desmatamento, da monocultura, das fazendas e da poluição dos rios vem causando sofrimento psicológico, ansiedade, medo e sensação de perda coletiva.
Em Salvaterra, no Marajó, um líder quilombola relata que a restrição ao acesso ao território e às áreas tradicionais de cultivo, pesca e coleta de ervas medicinais compromete não apenas a soberania alimentar, mas também os modos de vida e o bem-estar comunitário. Ele relata ainda casos de adoecimento mental relacionados aos conflitos territoriais e ao uso de agrotóxicos por grandes empreendimentos agrícolas: “Esse senhor adquiriu depressão, ansiedade, pressão alta. Acabou adoecendo mentalmente, ele não consegue dormir.”
Em comunidades como a de Médio Itacuruçá, em Abaetetuba, as mudanças ambientais também estão associadas ao aumento da violência, das preocupações cotidianas e das dificuldades de acesso ao cuidado em saúde mental. Lideranças locais relatam que muitas famílias vivem entre a insegurança territorial, a perda das roças e o avanço de grandes empresas sobre áreas quilombolas.
Ao mesmo tempo, o atendimento psicossocial especializado permanece distante da realidade comunitária. “As pessoas até vão para a primeira consulta, mas não dão continuidade”, relata uma liderança quilombola ao explicar os custos de deslocamento até o CAPS e a ausência de serviços permanentes dentro do território.
Nos territórios da Amazônia brasileira, a crise climática já é vivida no corpo, na memória e no cotidiano das comunidades. Para povos indígenas e quilombolas da Amazônia, saúde não se restringe à ausência de doença: ela envolve a relação com o território, os rios, a floresta, a ancestralidade, os modos coletivos de vida e as práticas espirituais de cuidado. Diante desse cenário, a saúde precisa ser compreendida de forma integral e territorializada.
Izabela da Silva – Professora associada do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Aline Beckmann – Professora da Faculdade de Psicologia, da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Andreici Araujo – Professora adjunta do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal do Pará (UFPA).
James Ferreira – Psicólogo comunitário e professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).
Juliana Fleury – Presidente da Associação pela Saúde Emocional, e MBE em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Luana Kumaruara – Professora do Magistério Superior na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA).
Este texto foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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