O que músicos e produtores pensam sobre uso de IA em músicas? Veja opiniões

O avanço da inteligência artificial na música deixou de ser uma tendência distante para se tornar uma realidade concreta nas plataformas de streaming. Além de usuários já utilizarem a tecnologia para criar músicas, muitas vezes em tom de piada, como foi o caso da Tocanna, há casos de usos imperceptíveis na composição, produção ou interpretação vocal. O crescimento acelerado levanta questionamentos sobre qualidade, autenticidade e impacto no mercado. Ao mesmo tempo, abre espaço para um debate mais profundo sobre o futuro da criação artística. Afinal, até onde a tecnologia pode ir quando o assunto é música?
Segundo levantamento divulgado pela Deezer, mais de 13 milhões de músicas enviadas às plataformas continham elementos gerados por inteligência artificial, o que pode levar a boa parte do público a ter dificuldades para distinguir músicas humanas das criadas por algoritmos. Além disso, a Rádio CBN destacou casos de fraude envolvendo faixas geradas por IA para monetização indevida, enquanto o Spotify anunciou reforço em políticas de proteção a artistas. Mas, além dos números e das medidas institucionais, como músicos e produtores enxergam esse cenário na prática? Conversamos com alguns especialistas para entender. Confira a seguir.
Entre algoritmos e sensibilidade: especialistas avaliam os limites da IA na criação musical.
Reprodução/Freepik
O avanço da IA na música hoje
O crescimento acelerado de músicas criadas com inteligência artificial deixou de ser uma tendência distante e passou a ocupar espaço concreto nas plataformas de streaming. Para o produtor musical e compositor Vinnie Pereira, esse movimento aconteceu de forma intensa e rápida, pegando parte do mercado de surpresa. “Nos últimos dois anos houve uma avalanche de criações assim nas plataformas”, afirma. Segundo ele, o volume expressivo de faixas geradas por IA provocou reações imediatas de artistas e selos, especialmente por questões ligadas à monetização e à concorrência. A tecnologia deixou de circular apenas como experimento e passou a interferir diretamente na dinâmica de visibilidade e disputa por audiência.
Sob a perspectiva de quem atua diretamente na criação musical, o avanço técnico da IA não significa, necessariamente, amadurecimento artístico. O baterista e compositor Caio Gaona avalia que muitas produções seguem um padrão reconhecível, baseado em referências já existentes. “A música feita por IA faz um recorte de várias músicas já lançadas, pegando algumas características de cada uma delas”, explica. Para ele, esse processo pode até soar convincente em um primeiro momento, mas ainda revela limitações quando analisado com mais atenção. A falta de variação e de decisões intuitivas acaba entregando a origem artificial da música.
Essa percepção se intensifica quando o foco está na voz, elemento central da conexão emocional com o público. A vocalista Juliana Rossi observa que, mesmo quando a execução parece correta, há sinais claros de artificialidade. “A princípio até soa ok, porém dá pra perceber que é IA porque falta dinamismo, respiração e sentimento”, afirma. Para ela, a ausência dessas nuances compromete a interpretação e afasta a música de uma experiência verdadeiramente humana. O avanço da IA é evidente, mas ainda encontra barreiras sensoriais difíceis de ultrapassar.
Onde a IA realmente ajuda músicos e produtores?
Apesar das críticas, os entrevistados reconhecem que a inteligência artificial já desempenha um papel relevante como ferramenta de apoio no processo criativo. Para Vinnie, o uso prático da IA no estúdio vai muito além da simples geração automática de músicas. “Hoje em dia, é possível criar uma versão prévia ou até definitiva de uma música, mesmo que o compositor não toque todos os instrumentos”, explica. Ele destaca que a tecnologia também facilita a criação de guias vocais e acelera etapas técnicas como mixagem e masterização. Nesse contexto, a IA funciona como um recurso de viabilização criativa.
Caio amplia essa visão ao lembrar que a música já passou por outras transformações tecnológicas semelhantes. “Desde os anos 2000 existem vários instrumentos sendo substituídos por instrumentos virtuais, como é o caso dos VSTs de bateria”, observa. A diferença, segundo ele, está no uso consciente dessas ferramentas. Mesmo quando sons são programados, há sempre um músico tomando decisões estéticas e estruturais. A IA, nesse sentido, entra como mais uma camada de apoio, e não como agente criador independente.
Juliana também enxerga a tecnologia como aliada quando aplicada de forma estratégica. Para ela, a IA pode contribuir principalmente no estudo e no desenvolvimento técnico da voz. “Usar a ferramenta para estudar de forma inteligente pode ajudar muitos profissionais da voz”, afirma. Ela ressalta que, quando usada como suporte e não como substituição, a tecnologia amplia possibilidades de aprendizado e experimentação. O valor criativo, porém, continua partindo do artista.
Por que a IA ainda não substitui músicos nem ferramentas tradicionais?
Mesmo com avanços significativos, os profissionais apontam limites claros para a atuação da inteligência artificial na música. Para Vinnie, a principal barreira está na origem das ideias. “Ela não tem ideias iniciais. Isso sempre vai partir de uma mente criativa”, afirma. Segundo ele, a IA executa comandos e desejos previamente definidos, mas não concebe intenções artísticas por conta própria. A criação, no sentido mais profundo, continua sendo um processo humano.
Caio reforça esse argumento ao destacar a ausência de emoção e imprevisibilidade nas produções geradas por algoritmos. “Ainda soa artificial e emulando músicas já feitas”, diz. Para ele, elementos como groove, interpretação e dinâmica surgem da vivência, da escuta e da interação entre músicos. Esses fatores não seguem fórmulas fixas e dificilmente podem ser reproduzidos integralmente por sistemas automatizados.
Juliana complementa essa visão a partir da experiência vocal. Ela aponta que a chamada perfeição técnica da IA acaba se tornando uma limitação expressiva. “A voz de IA é mecânica, perfeita, mas oca, sem emoção”, explica. Segundo a cantora, são justamente as pequenas imperfeições humanas que dão identidade, intensidade e verdade à interpretação. E é exatamente esse espaço subjetivo que a tecnologia ainda não consegue alcançar.
O público percebe a diferença?
A capacidade do público de identificar se uma música foi criada por humanos ou por inteligência artificial ainda divide opiniões, especialmente fora do círculo de músicos e produtores. Para Vinnie Pereira, essa percepção depende do nível de escuta e familiaridade com processos musicais. Ele observa que, em muitos casos, o ouvinte comum consome a música de forma mais intuitiva do que analítica. Quando a produção é bem finalizada, a distinção pode não ser imediata. Ainda assim, segundo ele, a ausência de intenção criativa genuína tende a se refletir na forma como a música se sustenta ao longo do tempo.
Na visão de Caio Gaona, essa diferença se torna mais perceptível para quem possui maior bagagem musical. “O público leigo, sem muita bagagem musical, não consegue diferenciar bem”, afirma. Ele explica que algumas produções ainda soam artificiais, principalmente pela dinâmica e pela previsibilidade estrutural. Mesmo quando a tecnologia atinge um nível técnico elevado, certos padrões repetitivos acabam denunciando a origem automatizada da faixa.
Caio acrescenta que o ouvinte pode não identificar racionalmente o uso de IA, mas sente quando algo soa excessivamente calculado. A repetição de fórmulas e a falta de variação emocional criam músicas que parecem familiares, porém pouco memoráveis. Essa sensação, segundo ele, interfere na capacidade da obra de gerar vínculo duradouro com o público. A experiência pode ser agradável, mas não necessariamente marcante.
Para a vocalista Juliana Rossi, a percepção da diferença é ainda mais evidente quando o foco está na interpretação vocal. “Eu acredito que o público consegue perceber na sua maioria sim, porque realmente muda a forma como a música é sentida”, afirma. Segundo ela, cantores funcionam como narradores de histórias, transmitindo intenção e emoção por meio da melodia e da entrega. “Nós passamos o sentido daquela letra com melodias e intenções”, explica. Quando essa camada interpretativa não está presente, a música pode soar correta, mas perde profundidade emocional.
Impactos no mercado e nos direitos autorais
A expansão da IA na música também intensificou debates sobre ética, monetização e direitos autorais. Casos de músicas criadas para inflar reproduções e gerar receita reacenderam discussões sobre fraude e uso indevido das plataformas. Para Caio, existe um risco concreto de desvalorização do trabalho musical gravado. “Os instrumentistas, principalmente, já vêm sendo substituídos por programações há um tempo”, afirma. Ele ressalta que muitos músicos hoje se sustentam principalmente pela música ao vivo, onde a presença humana é insubstituível.
No campo vocal, Juliana chama atenção para a questão da identidade artística. “Nunca se sabe quando a sua voz pode ser usada de forma leviana”, alerta. Para ela, o uso de IA envolvendo vozes reais precisa de limites éticos bem definidos e controle rigoroso. Situações como dublagens, continuidade de personagens ou novos trabalhos exigem consentimento claro do artista. Sem isso, a tecnologia pode ultrapassar fronteiras sensíveis.
Vinnie, por sua vez, adota uma visão mais pragmática sobre a questão jurídica. “Quem assina o produto final responde legalmente por ele”, afirma. Ele lembra que disputas por similaridade e direitos autorais já existiam antes da IA e continuam sendo responsabilidade humana. A ferramenta pode mudar, mas a autoria e a responsabilidade permanecem atreladas a quem coloca a obra no mercado.
O futuro da criação musical com IA, segundo profissionais
Ao projetar os próximos anos, os entrevistados enxergam a inteligência artificial como uma ferramenta cada vez mais integrada ao processo profissional. Vinnie acredita que ainda haverá um período de experimentação intensa. “Em 2026 e 2027 ainda veremos muitas revoluções musicais com IA”, afirma. No entanto, ele avalia que a tecnologia tende a se tornar mais direcionada a músicos e produtores do que ao grande público. “Hoje é um brinquedo divertido na mão do leigo”, completa.
Caio destaca que existe um limite claro que a IA dificilmente ultrapassará: a experiência ao vivo. “Nunca a música por IA vai substituir a música ao vivo e a energia que isso traz”, afirma. Para ele, a interação entre músicos e público, a improvisação e a resposta emocional do palco seguem sendo elementos centrais da música enquanto experiência coletiva.
Juliana compartilha dessa visão e mantém uma perspectiva positiva sobre o uso consciente da tecnologia. Ela acredita que a IA pode seguir como aliada, especialmente no estudo e no aprimoramento técnico. “Pode ser uma aliada criativa”, afirma. O futuro da música, segundo os três, aponta para mais ferramentas, mais possibilidades e, sobretudo, para a permanência da sensibilidade humana como eixo central da criação.
Com informações de Superinteressante, CBN, Spotify, Exame.

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