Logo após a sessão de A História do Som (2025), de Oliver Hermanus, provavelmente irão estabelecer uma conexão entre o filme que acabaram de assistir com O Segredo de Brokeback Mountain (2005), de Ang Lee, que ficou conhecido – lamentavelmente, de modo pejorativo, também – como o filme dos “caubóis gays”.
A associação entre as obras acontece de modo natural, uma vez que ambas histórias retratam um amor profundo e íntimo, entre duas almas que se agregaram em uma só força energética, aquele algo sem explicação ou lógica que simplesmente aparece, diante de nós.
À parte tal similaridade, podemos afirmar que A História do Som e O Segredo de Brokeback Mountain, não poderiam ser mais diferentes, o que figura como algo positivo para as duas partes. Enquanto o longa-metragem de Ang Lee, lançado exatamente 20 anos atrás, escolhe uma via narrativa alternativa que transita entre as duas personagens, em destaque, além de exprimir pelos diálogos e performances, algo mais fervoroso; temos com A História do Som, um enfoque pela maior parte, em um dos lados da moeda, exprimindo uma atmosfera mais sóbria, que move a quem assiste, nos momentos de silêncio.
Em A História do Som, acompanhamos a relação entre dois homens, que se conhecem, em 1917, enquanto estudavam no Conservatório de Música da Nova Inglaterra e, após a Primeira Guerra Mundial, viajam juntos gravando canções folclóricas de seus compatriotas, na zona rural do Maine, no inverno de 1920.

É seguro afirmar que a narrativa escolhida por Oliver Hermanus para A História do Som, não será algo bem-vindo a todos, devido o andamento de frequência baixa que sentimos durante o desenrolar da história. Mas, para aqueles que se disporem, certamente, terão algo mais do que substancioso, especialmente pelas performances de sua dupla principal, composta pelos talentosos Paul Mescal e Josh O’Connor.
Sendo (muito) curioso quando colocamos, em comparação, o tipo de performance que cada ator forneceu para a história de amor e paixão.
Josh O’Connor ganhou maior reconhecimento por sua interpretação de Charles, Príncipe de Gales, na série dramática, da Netflix, The Crown (2019–2020), conquistando o Primetime Emmy Award de Melhor Ator em Série Dramática pelo papel. Desde então, estrelou a rom-com de época Emma. (2020), o filme romântico esportivo Rivais (2024), o drama de assalto The Mastermind (2025) e o ‘whodunnit’ Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025).
O ator inglês de apenas 35 anos de idade, entra naquela categoria de atores e atrizes que chamamos de ‘presença espiritual em cena’. Isso quer dizer que Josh O’Connor não precisa de muito para gerar atração com o público, pois de algum modo, apenas com sua presença física em cena, ficamos hipnotizados e, naturalmente, investimos nossos sentidos para aquela narrativa que se desenrola.
Tal capacidade magnética ficou melhor comprovada no espetacular – e exagerado – Rivais, de Luca Guadagnino, que misturava desejo, paixão e o esporte tênis, de modo singular.

Se Josh O’Connor se apresenta como um princípio instintivo, seu parceiro de cena Paul Mescal, já trabalha em outro módulo, mas também muito eficaz e cirúrgico para a proposta narrativa especulada pelo diretor Oliver Hermanus.
Na realidade, é o personagem interpretado por Mescal, o protagonista desta história de amor, no caso, um amor que surgiu, se desenvolveu, concretizou-se, mas que não se frutificou, cogitando-se no sentido de vida a dois. E, para A História do Som, é exatamente isso o que é necessário, pois não é sobre a convivência no dia-a-dia. Mas, o impacto de um momento, como um estrondo sonoro marcante que fica grudado na mente, muito depois.
Entra Paul Mescal, que em suas modestas expressões faciais, revela um amargor persistente, como algo que o segurasse mesmo quando outros fatores externos, empurravam-no para a frente.
É nesta contenção que A História do Som, triunfa. Pelos olhares melancólicos do ator irlandês de apenas 30 anos – que repete aqui algo similar ao que fez no excepcional Aftersun (2022) – sentimos o quanto a prisão diária, exclamava por um amor que, finalmente, libertaria.
Uma liberdade de uma vida humilde de muitas limitações, da perda de pessoas amadas, da guerra que deixa cicatrizes, sejam participantes ou testemunhas.

Por Paul Mescal e Josh O’Connor que, A História do Som, eleva-se como uma experiência (bem) sensível, sempre expressando que sons e barulhos, tanto aqueles da natureza quanto dos homens, simbolizam histórias. Invisíveis, mas onipresentes. E, em alguns casos, silenciosamente lacerantes.










