Não é segredo que a cultura da magreza está mais de volta que nunca. Personalidades aparecendo mais magras que nunca, a moda abandonando a diversidade nos desfiles, as mil propagandas que posicionam as canetas emagrecedoras como um milagre ao alcance de um clique (ou dos três dígitos do seu cartão). Mas, em meio a isso tudo, algo me deixou estarrecido: a frequência na qual me deparo com o comentário “A felicidade é magra” em postagens falando sobre transformações corporais.
Essa frase não é aleatória. Ela se estabelece como um marcador cultural de um momento onde esse extremo separa o bom do mau. O vitorioso do derrotado. Ser magro é para quem pode, porque agora é “fácil”. Quase como se estivéssemos vivendo um episódio de Black Mirror onde estar acima do peso automaticamente vem com um revés social.

No meio disso? As redes sociais. Só no Brasil, o tempo médio de uso de tela está em alarmantes 9 horas ao dia. Em meio a esse consumo desenfreado, a comparação. Personalidades, criadores de conteúdo e usuários da plataforma compartilhando momentos encapsulados que indicam no geral o melhor momento de suas vidas e seus dias. Em fluxo contínuo de consumo, esses dados se uniformizam e criam uma pós-verdade onde todos são felizes, ricos, bem sucedidos e, agora, magros.
Estudos da década de 50, muito antes do advento das redes sociais, já indicam como a comparação de si com os outros é um comportamento que busca a validação. E aí mora a armadilha: estudos indicam que essa comparação busca áreas no outro onde esse outro te supera em performance e alcance de metas. O resultado? Autodepreciação, inveja e piora do humor.
Mas esse é só o topo do iceberg. O grande malefício dessas comparações, quando falamos sobre imagem corporal, é o surgimento de transtornos alimentares. Evidências experimentais indicam que a redução do uso de redes sociais está correlacionado com a melhoria da auto imagem por adultos e adolescentes. E que isso pode ocorrer em poucas semanas, tamanho o impacto do consumo do online sobre a psique e visão acerca de si próprio. A OMS indica que, apenas em 2021, 16 milhões de pessoas sofriam com transtornos. Em um mundo que cada vez mais empurra a magreza como solução para todos os problemas, é possível conjecturar que esse número possa estar em crescimento.

E a indústria da moda e beleza corrobora e muito para essa conversa. Cada vez menos vemos a diversidade de corpos em pauta – a ponto dela estar abolida em diversos desfiles e também campanhas de beleza – e vemos o retorno da estética super esguia dos anos 90, conhecida infelizmente pelo nome “heroin chic”, consolidada ao redor da magreza da modelo Kate Moss. Roupas de cintura super baixa e cortes que valorizam elementos associados à magreza cada vez mais dominam o mapa das tendências e as peças-chave de desfiles de marcas que ditam o futuro da capilaridade de informações que acaba por chegar nas marcas populares, difundindo um recado bem claro: a beleza é magra.

Quando comparamos cultural e medicamente esses dois períodos – anos 90 e 2025 – temos um elemento que transforma tudo: as canetas emagrecedoras. Iniciadas pelo análogo de GLP-1 , medicamento originalmente desenvolvido para combate ao diabetes, as canetas se transformaram em um facilitador do tratamento para a obesidade, permitindo a transformação da saúde e dos corpos de pessoas que antes recorriam a procedimentos mais extremos, como a cirurgia bariátrica.
No entanto, as canetas começaram a ocupar o lugar da dieta da sopa. O que nos anos 90 era alcançado através de dietas extremas e moderadores de apetite que colecionavam efeitos colaterais, hoje pode ser alcançado em um clique, com redução abrupta do apetite e resultados rápidos.
Memes como a “cabeça de ozempic” tomam as redes, mas por baixo do humor, vemos a frequência cada vez maior de celebridades que usam a caneta para alcançar pesos irreais, valorizando cada vez mais um extremo que se afasta do clinicamente saudável.
Com esse lugar de busca da saúde roubado, com o holofote voltado para a performance social e aceitação nos círculos, o emagrecimento agora ocupa um lugar perigoso que sai do debate sobre a obesidade e o combate aos sintomas físicos e mentais associados a esse quadro que é oficialmente reconhecido como uma doença.
Eu mesmo me vejo em meio a esse debate: iniciei o tratamento com esse medicamento em 2023, quando cheguei aos 140 kg e me vi com limitações físicas, além da dificuldade de encontrar uma simples camiseta ou bermuda que me coubessem. Hoje, depois de dois ciclos de medicações, consegui eliminar 40 kg do meu peso, e isso cria um impacto não só na minha saúde e na minha disposição – porque, no fim, é sobre redução de risco cardiovascular, de índices perigosos em meus exames de sangue e nas dores articulares e de quadros como a fascite plantar. Mas um impacto que percebi de imediato foi a parabenização e aumento da aceitação social. Perder peso acaba sendo usado como o acesso à uma chave social. Voltando ao estudo de 1954, pertencimento e auto comparação.
Diante de tamanha onda de estímulos que te direcionam para o emagrecimento e também despreparo social para lidar com toda essa informação, deixo o questionamento: A felicidade é magra ou a busca pelo pertencimento vale todo e qualquer sacrifício? No fim do dia, quem direciona mais os seus movimentos: índices de saúde reais e embasados ou a ideia falsa de que um número na balança confirma o seu valor como membro da sociedade?












