Historicamente, a alta relojoaria foi associada a narrativas predominantemente masculinas. Nos últimos anos, porém, essa lógica começa a mudar com a influência da cultura digital e o protagonismo crescente de mulheres no consumo e na construção de tendências no mercado de luxo.
A empresária e influenciadora Kylie Jenner tornou-se uma das figuras mais observadas quando o assunto é relógio de luxo feminino. Com centenas de milhões de seguidores nas redes sociais, cada aparição da empresária usando modelos como o Audemars Piguet Ladies Royal Oak ou versões específicas do Rolex Datejust costuma gerar aumento imediato nas buscas por referências semelhantes nas plataformas digitais.
Outro exemplo citado é o da estilista Victoria Beckham, que frequentemente aparece usando versões menores e mais discretas do Patek Philippe Nautilus, ajudando a reforçar a presença feminina em um segmento tradicionalmente associado ao público masculino.
A apresentadora Ellen DeGeneres também ganhou destaque nesse cenário ao se consolidar como uma das colecionadoras femininas mais respeitadas do setor.
No campo estético, o artista Pharrell Williams acrescenta uma dimensão diferente ao universo da relojoaria ao incorporar cores vibrantes e modelos ousados da Richard Mille em suas aparições públicas, aproximando o segmento de públicos mais jovens e conectados à cultura pop.
Para o especialista Renan da Rocha Gomes Bastos, essa mudança é estrutural e vai além de tendências passageiras.
“O luxo tornou-se mais narrativo. A peça precisa dialogar com identidade e autenticidade, não apenas com reconhecimento visual imediato.”
Segundo ele, a chamada Gen Z tem papel central nesse processo. Uma parte significativa desse público descobre novos modelos de relógios diretamente nas redes sociais, e não mais nas vitrines tradicionais. Nesse contexto, o chamado watch spotting digital passou a influenciar também a formação de preços.
“Primeiro, acelera a descoberta de tendências. Segundo, aumenta a transparência. O público compara, debate e analisa referências em tempo real”, explica.
Como consequência, o mercado de relojoaria de luxo se torna mais dinâmico e informado. O segmento feminino deixa de ser visto apenas como nicho e passa a ocupar posição estratégica no crescimento global do setor.
Marcas como Cartier e Audemars Piguet ampliam sua presença entre consumidoras jovens, impulsionadas por figuras públicas com grande alcance cultural.
Nesse novo cenário, o relógio deixa de ser apenas um acessório e passa a funcionar também como elemento de narrativa pessoal e ativo cultural. Em um ambiente onde cultura digital influencia liquidez e percepção de valor, compreender comportamento se torna tão importante quanto compreender engenharia.
É nesse ponto que o mercado revela sua nova complexidade: a valorização de um relógio não nasce apenas da escassez, mas da intersecção entre desejo, visibilidade e estrutura.










