Há oito anos, um sonho pessoal se transformava em um dos principais projetos de formação artística de São Gonçalo.
Fundada em 2018 pelo ator, diretor e professor Gabriel Engel, a então Oficina de Teatro Gabriel Engel nasceu para suprir uma carência histórica da cidade, oferecendo ensino de teatro de qualidade, acessível e capaz de preparar artistas para o mercado profissional.
Hoje, transformada na Casa de Artes Gabriel Engel, conhecida pelo público como CAGE, a instituição ultrapassa a marca de mil alunos formados e acumula mais de 30 prêmios em festivais nacionais.
Ela também revelou profissionais que atuam no teatro, na televisão, no streaming e na dublagem.
Em julho, a Cage celebra seu oitavo aniversário promovendo mais uma edição do FestCAGE, festival que valoriza as produções desenvolvidas pelos próprios estudantes.
A grande final acontece no dia 17 de julho, às 19h30, no Teatro Municipal de São Gonçalo, reunindo seis cenas finalistas escolhidas ao longo da etapa seletiva.
O evento representa o resultado de um trabalho iniciado muito antes da abertura da escola, quando Gabriel Engel ainda buscava seu próprio espaço no teatro.
Nascido e criado em São Gonçalo, Gabriel conheceu desde cedo as dificuldades enfrentadas por quem deseja seguir carreira artística.
Na época, a cidade não oferecia cursos de formação em teatro e, para estudar, era necessário se deslocar para outros municípios, realidade que limitava o acesso de muitos jovens.
“Não tínhamos nenhum curso formativo de teatro. Os mais próximos eram muito caros. Como um adolescente pobre, tive que buscar no Rio de Janeiro um curso com valor popular. Me formei no Instituto Nossa Senhora do Teatro, lugar que carrego em meu coração até hoje. Ainda assim, era difícil pagar. Eu vendia lanches na escola e fazia animação de festas para custear as passagens e minha tia me ajudava com as mensalidades”, recorda.
Depois vieram outros cursos, a licenciatura em Teatro e a convicção de que precisava devolver ao seu território tudo aquilo que havia aprendido fora dali.
Antes mesmo de abrir a escola, Gabriel já desenvolvia um intenso trabalho artístico na cidade. Criou a Phoenix Cia., passou a dirigir espetáculos e rapidamente conquistou reconhecimento no cenário cultural, chegando a estampar a capa do jornal Extra.
Naquele período, São Gonçalo ainda não possuía teatro municipal.
Mesmo diante das limitações estruturais, Gabriel fazia questão de apresentar suas montagens na cidade.
Espetáculos que estreavam em espaços tradicionais da capital, como o Teatro dos Quatro, na Gávea, também eram levados para o Teatro Carequinha, dentro do Colégio Ernâni Farias, muitas vezes sem qualquer apoio ou divulgação por parte do poder público.
Foi justamente observando essa realidade que surgiu a vontade de criar uma escola.

Em 2018, incentivado pelo ator Elcino Dello Carmo, Gabriel decidiu transformar o projeto em realidade e fundou a Oficina de Teatro Gabriel Engel.
O início foi marcado por muita dedicação e poucos recursos. Na prática, ele fazia absolutamente tudo sozinho.
Além de dar aulas, cuidava das matrículas, da limpeza do espaço, da administração, da comunicação, do marketing e ainda caminhava até a escola para economizar dinheiro.
Ao mesmo tempo, precisava lidar com o desestímulo de pessoas que acreditavam que um projeto daquele porte dificilmente prosperaria em São Gonçalo.
“Eu ainda ouvia de colegas artistas mais experientes que deveria deixar isso para lá, porque ‘em São Gonçalo nada dá certo’. Mas eu não conseguia desistir. Como eu poderia estar bem sendo artista sem transformar o meu território através da minha arte?”
A primeira turma contou com apenas dez alunos. O número cresceu rapidamente e, com ele, aumentaram também as histórias de transformação.
Uma frase passou a ocupar um lugar de destaque nas paredes da escola e resume a filosofia da instituição: “A arte vai salvar o mundo.”
Segundo Gabriel, essa frase deixou de ser apenas um lema para se tornar uma experiência vivida diariamente. Ele lembra que houve momentos em que parecia impossível continuar.
A pandemia obrigou o fechamento das atividades presenciais.
Em outra ocasião, criminosos invadiram o espaço durante a madrugada e furtaram computadores, aparelhos de ar-condicionado, equipamentos e figurinos utilizados nas montagens, causando um enorme prejuízo financeiro.
Mesmo assim, nunca cogitou abandonar o projeto.
“Realmente existem dias em que não dá certo. Há pouco tempo roubaram os fios dos nossos aparelhos de ar-condicionado, causando um prejuízo enorme. Naquele dia, não deu certo, mas no dia seguinte, um aluno não verbal começou a falar por causa do teatro. Uma aluna foi aprovada em uma grande seleção e agradeceu por poder trabalhar com o seu ofício. Nesses dias, deu muito certo.”
Esses episódios ajudam a explicar por que a escola ultrapassou a função de ensinar interpretação. Ao longo dos anos, a CAGE passou a ser reconhecida como um espaço de acolhimento, desenvolvimento humano e transformação social.
Em 2021, acompanhando esse crescimento, a instituição deixou de se chamar Oficina de Teatro Gabriel Engel e passou oficialmente a ser Casa de Artes Gabriel Engel. A mudança refletia uma nova fase.
Além dos cursos de teatro, o espaço passou a reunir diferentes linguagens artísticas, oferecendo também aulas de canto, dança e circo, além de abrir espaço para artistas independentes, coletivos e novos projetos culturais.
Hoje, Gabriel Engel continua à frente da coordenação pedagógica dos cursos de teatro, mas já não está sozinho. A equipe conta com mais de 20 professores especializados em diferentes áreas, consolidando a CAGE como um verdadeiro centro de formação artística.
O compromisso permanece o mesmo desde o primeiro dia: oferecer ensino de qualidade sem perder a preocupação com a acessibilidade. Ao longo dessa trajetória, a instituição também desenvolveu projetos gratuitos voltados para a democratização da arte.
Entre eles está o São Gonçalo Musical, realizado em duas edições por meio de editais culturais, que formou cerca de 25 alunos por turma em teatro musical, reunindo aulas de interpretação, canto, dança e uma montagem final.
Outro destaque foi o Trans em Cena, projeto que proporcionou formação teatral gratuita voltada para pessoas trans, ampliando o acesso à cultura e fortalecendo iniciativas de inclusão por meio das artes.

Mais recentemente, a escola também entrou para a história ao produzir “Promíscua – O Musical”, considerado o primeiro espetáculo musical totalmente autoral realizado por artistas de São Gonçalo com patrocínio do Governo do Estado do Rio de Janeiro.
Com texto e direção de Gabriel Engel, a montagem reuniu 25 artistas entre atores, bailarinos, cantores e artistas circenses, além de receber indicação ao Prêmio Musical.Rio.
Os resultados desse trabalho podem ser medidos não apenas pelos prêmios conquistados, mas também pelas histórias de quem passou pelas salas de aula da CAGE e hoje atua profissionalmente no mercado artístico.
Ao longo desses oito anos, diversos alunos e ex-alunos conquistaram espaço em produções para televisão, streaming, teatro e dublagem, reforçando o papel da instituição como um dos principais polos de formação de artistas da região.
Entre eles estão os atores de TV Faiska e Fumassa, que passaram pela Formação de Atores da CAGE e hoje integram produções como Impuros, Dona de Mim e De Volta aos 15.
Outro destaque é o ator Diogo Luiz, aluno da escola que interpreta o personagem Kelvin na série Vicky e a Musa, do Globoplay.
Nos palcos, a atriz Flávia Freitas, também formada pela instituição, integrou o elenco da montagem As Bruxas de Salém, dividindo cena com nomes como Carmo Dalla Vecchia e Vanessa Gerbelli durante temporada realizada no Teatro Casa Grande, no Leblon.
A atuação da escola também alcançou o universo da dublagem. Ex-alunos como Matosu, Felipe Carneiro e Rackel Soares seguiram carreira na área, ampliando ainda mais a presença da CAGE em diferentes segmentos do mercado artístico.
Além de formar profissionais, a instituição também impulsionou o surgimento de novos grupos e companhias de teatro.
É o caso da Trupe Silvas de Teatro, fundada pela ex-aluna Madu Emmerick. O grupo já soma dezenas de indicações e prêmios em festivais e representa uma das diversas iniciativas que nasceram dentro da Casa de Artes Gabriel Engel.
Também surgiram a partir da formação oferecida pela escola o Coletivo Aziza, a Cia. Cortina de Papel, a Cia. Pluma e o Coletivo Libélula, mostrando que o impacto da CAGE ultrapassa a formação individual e contribui diretamente para o fortalecimento da produção cultural em São Gonçalo.
Alguns espetáculos criados dentro da instituição também seguiram carreira profissional.
Foi o caso de A Canção dos Oprimidos, adaptação inspirada em Os Miseráveis. O espetáculo nasceu como trabalho de conclusão de curso da Formação de Atores e, posteriormente, foi contemplado em três editais de cultura, realizando temporadas patrocinadas em teatros do Rio de Janeiro e de Niterói.
Outras montagens produzidas pela escola, como O Rei Leão, A Família Addams e Alice no País das Maravilhas, também ultrapassaram o ambiente acadêmico e ganharam temporadas abertas ao público.
Além disso, a própria CAGE passou a gerar oportunidades de trabalho para seus alunos.
Produções como o musical Assassinas, com texto e direção de Gabriel Engel, tiveram elenco formado integralmente por artistas da instituição.

A escola também atua indicando atores e atrizes para companhias parceiras, produtoras e novas montagens, ampliando as possibilidades de inserção profissional dos estudantes.
Ao longo desses oito anos, a Casa de Artes Gabriel Engel e seu grupo oficial acumularam mais de 30 prêmios em festivais de teatro realizados pelo Brasil, além de seis moções de aplauso e homenagens concedidas pela Prefeitura de São Gonçalo e pela Secretaria Municipal de Cultura em reconhecimento ao trabalho desenvolvido em prol da arte e da formação cultural no município.
FestCAGE celebra novos talentos
As comemorações pelos oito anos da instituição terão como principal destaque a realização da grande final do FestCAGE, marcada para o dia 17 de julho, às 19h30, no Teatro Municipal de São Gonçalo.
Criado pela própria Casa de Artes Gabriel Engel, o festival nasceu da percepção de que muitas cenas produzidas pelos alunos durante as aulas possuíam qualidade artística para serem apresentadas ao público, mas acabavam restritas às salas de ensaio.
A proposta foi transformar o processo de aprendizagem em uma experiência semelhante à vivida pelos artistas profissionais, incentivando a criação de novas montagens e oferecendo aos estudantes a oportunidade de defender seus trabalhos diante de uma plateia e de um júri especializado.
Podem participar alunos regularmente matriculados nos cursos de Formação de Atores, Teatro Livre, Teatro para Adolescentes e TV & Cinema, desde que as cenas sejam dirigidas pelos próprios estudantes.
O regulamento permite diferentes formatos cênicos, como monólogos, esquetes, performances e cenas curtas, valorizando tanto textos inéditos quanto adaptações.
Depois de uma etapa de seleção, entre quatro e seis trabalhos conquistam vaga para a final.
Neste ano, os finalistas são Partus, O Suficiente para Caber, Quando a Corda Arrebenta, Moamba de Mulambo, Até Onde Vai o Jogo e Antes Que Decidam Por Nós.
Durante a noite de encerramento, as montagens serão avaliadas por um júri formado por profissionais convidados da área artística.
Além de reconhecer as melhores produções, o festival conta com categorias que valorizam diferentes aspectos da criação teatral, como Melhor Cena, Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Texto, Melhor Direção Cênica, Melhor Cena pelo Júri Popular e Prêmio Especial do Júri. Os vencedores recebem troféus e outras premiações oferecidas pela organização e por parceiros do evento.
O FestCAGE, que está com ingressos a venda, representa uma extensão da proposta pedagógica da escola, estimulando autonomia, criatividade, trabalho coletivo e experiência de palco para quem está iniciando sua trajetória artística.
Ao completar oito anos, a Casa de Artes Gabriel Engel celebra uma história construída com perseverança, formação e impacto social.
O projeto que começou com apenas dez alunos, conduzido por um professor que fazia sozinho todas as funções da escola, tornou-se um centro de formação artística reconhecido dentro e fora de São Gonçalo, responsável por revelar talentos, criar grupos de teatro, produzir espetáculos premiados e ampliar o acesso à cultura.
Para Gabriel Engel, o objetivo continua sendo o mesmo que motivou a criação da instituição em 2018: transformar vidas por meio da arte.










