Janguiê Diniz*
Embora o setor privado de educação superior ainda esteja se reorganizando após os impactos sofridos com uma primeira edição marcada por inconsistências metodológicas e regulatórias, as instituições de ensino precisam começar a se preparar para a edição de 2026 do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed).
A experiência vivida na edição inaugural da avaliação demonstrou que aguardar passivamente a definição das regras pode representar um risco significativo para cursos, estudantes e gestores acadêmicos. A preparação antecipada, portanto, deixou de ser apenas uma recomendação prudencial e passou a ser uma necessidade estratégica.
Mesmo sem a divulgação do cronograma e das diretrizes para a edição deste ano (o que, esperamos, seja feito muito em breve, evitando que se repita o cenário de 2025), existem alguns pontos centrais sobre os quais as instituições de educação superior podem, desde já, começar a trabalhar.
O primeiro passo consiste na construção de um plano de ação que articule as dimensões de gestão, pedagógica e estratégica. Trata-se de um planejamento que não deve ser conduzido de forma isolada por uma única área da instituição. Pelo contrário, exige uma construção coletiva que envolva coordenadores de curso, docentes, preceptores, estudantes, técnicos administrativos e a Comissão Própria de Avaliação (CPA). Quanto mais integrada for essa mobilização, maiores serão as chances de alinhamento entre as atividades acadêmicas e os objetivos da avaliação.
Outro aspecto essencial é a sensibilização dos estudantes que potencialmente participarão do exame. É fundamental que esses alunos compreendam a relevância do Enamed e se sintam comprometidos com o desempenho institucional. A experiência da edição de 2025 deixou claro que os resultados da avaliação estão sendo observados com atenção crescente pela sociedade e pelo mercado de trabalho. Ainda que o objetivo do exame não seja medir a proficiência profissional individual dos egressos, mas avaliar o domínio dos conteúdos curriculares, o fato é que os resultados passaram a ser percebidos por muitos como um indicador da qualidade da formação recebida. Nesse contexto, o engajamento dos estudantes torna-se um elemento decisivo.
Do ponto de vista pedagógico, as instituições também precisam considerar um aspecto adicional de complexidade. Atualmente, os cursos de Medicina convivem com três Diretrizes Curriculares Nacionais em vigor: as de 2014, as de 2022 e as de 2025. Essa sobreposição normativa exige atenção redobrada na organização dos referenciais formativos e na análise das competências e habilidades que podem ser cobradas na avaliação. Ignorar esse cenário pode gerar lacunas na preparação dos estudantes.
Outros dois pontos centrais exigem atenção imediata das instituições: quando o exame será aplicado neste ano e quais estudantes deverão ser inscritos. No que diz respeito à data de aplicação, a expectativa natural seria que a prova ocorresse novamente em outubro. Entretanto, por se tratar de um ano eleitoral, há a possibilidade de que essa aplicação seja antecipada para o mês de agosto, de modo a evitar sobreposição com o período mais intenso do calendário político e administrativo do país.
Uma eventual antecipação resultará em desdobramentos que vão além da questão logística. Por exemplo, ela impactará na definição do público participante. Caso o exame seja realizado em agosto, surge uma dúvida importante: quais estudantes deverão ser inscritos? Isso porque muitos dos alunos que estarão no 12º semestre em 2026 são os mesmos que participaram do Enamed em 2025 quando estavam no 11º semestre. A depender da interpretação adotada pelo Inep, corre-se o risco de que estudantes sejam novamente submetidos à avaliação ou, ao contrário, de que uma determinada coorte fique sem participação no ciclo avaliativo. Trata-se de um ponto que precisa ser esclarecido com urgência pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para evitar insegurança jurídica e dificuldades operacionais para as instituições.
Aliás, considerando que faltam cerca de cinco meses para agosto e aproximadamente sete meses para outubro, é razoável afirmar que já passou da hora de o Inep divulgar as regras que irão reger a edição de 2026 do exame. A transparência e a previsibilidade são elementos fundamentais para a boa condução de políticas públicas de avaliação educacional. O episódio ocorrido em 2025, quando as regras detalhadas foram divulgadas quase dois meses após a realização da prova, não pode se repetir. A ausência de orientações claras naquele momento gerou insegurança entre estudantes e instituições em todo o país e comprometeu a compreensão adequada dos resultados.
De todo modo, o momento exige atitude proativa das instituições. A preparação para o Enamed 2026 não pode começar apenas quando as regras e o cronograma forem publicados. Ela precisa começar agora. Quanto mais cedo as instituições estruturarem seus planos de ação, mobilizarem suas equipes e envolverem seus estudantes, maiores serão as chances de enfrentar a próxima edição do exame com segurança e consistência. Como resultado, tenho certeza de que teremos conceitos mais alinhados ao trabalho sério e comprometido que desenvolvemos ao longo de toda a formação dos nossos alunos.
*Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação – Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador e controlador do grupo Ser Educacional, e presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo.











