Daparte fala sem filtro sobre música, amizade e nova fase

Entrevista com a banda Daparteig

A entrevista mal havia começado quando João Ferreira resumiu a fase atual da Daparte em uma palavra: “Ótima”.  Daniel Crase entrou no embalo: “As coisas seguem ótimas.”. Os outros riram. A resposta rápida abriu uma conversa em que quase ninguém falou sozinho. Um começava, outro completava, um terceiro puxava a piada e, quando parecia que o assunto finalmente seguiria em linha reta, alguém atravessava com uma lembrança, uma provocação ou um detalhe melhor.

Foi nesse clima, logo após o show realizado no início de julho em Juiz de Fora, em Minas Gerais, que a banda falou ao iG sobre o álbum “Baterias de Emergência”, a convivência na estrada e os próximos passos. O mais imediato deles chega nesta quinta-feira (23), quando o grupo lança uma nova música. Outras três faixas já foram gravadas.

Formada por João Ferreira, Juliano Rosa, Bernardo Cipriano, Daniel Crase e Túlio Lima, o Cebola, a Daparte completou dez anos em 2025. O quinteto surgiu em Belo Horizonte e construiu uma discografia que mistura rock, pop, música brasileira e referências que mudam conforme o disco, ou conforme o integrante que segura o microfone.

Um disco feito sem pressa

Banda DaparteReprodução/Instagram

Quando o assunto passou para “Baterias de Emergência”, lançado em 2024, João trocou a resposta de uma palavra por uma explicação mais longa.

A banda abriu as demos, refez ideias e escolheu as músicas coletivamente. Até a seleção final passou por votação entre os integrantes.

“Foi um processo democrático na banda. Olha para você ver que coisa linda”, brincou João.

O álbum tem dez faixas e ampliou o espaço para experimentações dentro do som da Daparte. Entre elas estão “Ultravioleta”, “Templos”, “Meus Poucos Amigos”, “O Vazio” e “Belo Horizonte”, gravada com Ana Caetano, do duo Anavitória.

Para João, o disco também alterou a maneira como a própria banda passou a se enxergar.

“A gente chegou a novas resoluções sonoras e estéticas, que estão abrindo espaço para o que vai fazer agora. Foi um disco que renovou os votos do casamento forçado que essa banda teve, desse casamento arranjado.”

Banda DaparteReprodução/Instagram

Ninguém pareceu ofendido com a definição. Ao contrário. A imagem do casamento improvisado combina com a forma como os cinco conversam: há liberdade para interromper, discordar de uma palavra, melhorar a história do outro e continuar a frase que ficou pela metade.

É essa relação que agora sustenta a próxima etapa.

Nesta quinta-feira (23), às 21h, a banda lança a nova música Panos Brancos, que estará disponível em todas as plataformas de música. 

Quatro músicas e muitas versões da mesma resposta

Quando o iG perguntou sobre o vídeo que antecipava novidades, Crase pediu o microfone. Antes que pudesse terminar a explicação, a resposta já havia virado coletiva.

“A gente está preparando uma música para vocês que gostam…”, começou.

“Quatro músicas”, corrigiram os colegas.

Bê Cipriano completou:

“Para vocês que gostam de música em larga escala e grande quantidade.”

João assumiu:

“A gente fez quatro músicas, gravou quatro músicas e vai lançar quatro músicas.”

A conversa seguiu com cada integrante acrescentando uma parte. Um brincou que o material ainda não estava pronto. Outro alegou falta de dinheiro. Cebola apareceu para desfazer as duas versões e garantiu que as músicas estavam gravadas, mixadas e masterizadas.

Depois vieram as especulações sobre o formato do lançamento, a possibilidade de as faixas formarem um EP e até um nome falso para o projeto. Não era falta de informação. Era a banda esticando a brincadeira e se divertindo com a própria dificuldade de dar uma resposta convencional.

Entre uma piada e outra, o dado principal ficou claro: a Daparte inicia nesta quinta uma sequência de quatro lançamentos.

Uma parada recorrente em Juiz de Fora

Juliano Alvarenga contou que aquela era a quarta apresentação do grupo em Juiz de Fora. A cidade entrou no trajeto frequente da banda, muitas vezes entre compromissos em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro.

Apesar das visitas, ele admitiu que os músicos ainda conhecem pouco a cidade fora do percurso entre hotel, passagem de som e palco.

“Nunca paramos para dar um rolê direito. Se vocês quiserem levar a gente um dia… Ouvi dizer que tem um restaurante em cima de uma árvore. Já me falaram desse restaurante. A gente precisa ficar mais tempo em Juiz de Fora para conhecer a cidade de fato.”

O conhecimento sobre o público local é maior.

“A galera abraça muito a banda. A gente fica muito feliz com todos os fãs que aparecem no nosso show aqui e quer continuar vindo.”

O repórter Pedro Emerenciano observou que não era fácil reunir tanta gente em uma quinta-feira quanto a banda conseguiu, um verdadeiro sucesso, e provocou que o juiz-forano poderia ser um pouco preguiçoso. A hipótese de um show no sábado foi rapidamente aprovada.

O tema combinou com a pergunta seguinte: quem era o mais animado para os ensaios?

“Ninguém”, responderam.

João apresentou o único nome realmente entusiasmado:

“O dono do estúdio, que vai receber o pagamento no final.”

Quem escreve, quem responde e quem escolhe o boteco

O bate-bola revelou algumas das funções assumidas pelos integrantes dentro e fora do palco.

Banda DaparteReprodução/Instagram

Quando a pergunta foi sobre quem mais gostava de escrever, todos apontaram para João.

“Eu gosto”, confirmou.

Além das composições da Daparte, João escreveu músicas gravadas por artistas como Anavitória, Lagum, Samuel Rosa e Vitor Kley. Em 2025, tornou-se o primeiro brasileiro indicado à categoria Compositor do Ano do Grammy Latino.

A banda então revelou que havia um jornalista entre os cinco e pediu que o Pedro Emerenciano tentasse identificá-lo.

“Juliano?”, arriscou o repórter.

“Aê!”, comemoraram.

Juliano é formado em Jornalismo, mas Crase reivindicou para si o posto de integrante que mais conversa com o público. Ele contou que procura e curte praticamente todas as publicações que mencionam a Daparte no X.

Todas mesmo.

“Às vezes tem tuíte falando mal, e eu simplesmente curto. Aí dá confusão. O João já me mandou apagar.”

João explicou que a curtida acabava dando visibilidade a uma crítica que poderia passar despercebida. Bê acrescentou que responder ao ataque entrega justamente a atenção buscada por quem publica o comentário.

Juliano preferiu mandar um conselho aos críticos: aprender um instrumento, estudar música e tentar subir em um palco.

“Vai fazer um acorde, uma aula de bateria. Quem sabe você não aprende?”, provocou.

Banda DaparteReprodução/Instagram

Cebola também encontrou uma responsabilidade para chamar de sua. Ele fez uma introdução com a seriedade de quem apresentaria um novo plano de negócios.

Depois de perceber que não acumulava tarefa alguma além de tocar baixo, ele passou a escolher os botecos visitados pelo grupo nas cidades da turnê.

A função exige pesquisa em aplicativos de mapas, cálculo da distância até o hotel e análise do tempo livre entre a passagem de som e o show.

“Minha função na banda é essa.”

Em Juiz de Fora, o trabalho rendeu torresmo, futebol na televisão, participação em um bolão e uma lista de bares visitados nas passagens anteriores. A riqueza de detalhes deixou claro que Cebola leva o cargo a sério.

As músicas favoritas mudam com o tempo

Escolher uma música preferida da Daparte exigiu mais esforço do que definir a fase atual da banda.

Juliano ficou com ‘Templos’. Ele gosta da faixa justamente por representar uma tentativa de sair do caminho mais familiar.

Cebola escolheu ‘Ultravioleta’.

“Eu nunca vou esquecer quando recebemos ela finalizada. Chegou prontinha. Era uma canção que agradava a todo mundo, e a mixagem entendeu de primeira o que a banda queria. A música é bonita mesmo.”

Bê lembrou ‘O Inimigo’, que havia reaparecido em um ensaio poucos dias antes. Bastou voltar a tocá-la para recordar o quanto gostava da faixa.

Crase escolheu uma composição própria ainda não lançada. Quando ganhou a oportunidade de citar a música preferida da vida, foi de Cachorro Grande: ‘Os Doces Exóticos de Charlotte Grapewine’.

A resposta virou cantoria no camarim.

As influências também renderam uma sequência de desvios bem-vindos. Beatles, Oasis e outros nomes esperados apareceram apenas de passagem. João declarou que o trabalho mais recente de Supla havia mudado sua forma de ouvir música e até melhorado seu futebol.

A conversa então saiu dos discos e foi parar no Rockgol, antigo campeonato disputado por músicos.

“O Samuca [se referindo à Samuel Rosa, pai do Juliano] pode ser um Messi, porque tem mais títulos. Mas o Supla é o Ronaldinho Gaúcho. Foi o futebol mais bonito que já teve no Rockgol”, decretou João.

Banda DaparteReprodução/Instagram

Bê disse que, depois de ouvir muita coisa ao longo da vida, passou a escutar a própria banda tentando descobrir o que ainda não havia feito.

Cebola respondeu que sua referência era tudo o que Bê indicasse. Citou Ferrugem, Dilsinho e aproveitou para revelar que tocou cavaquinho na música ‘Cláudia’.

“A Daparte colocou o dedo mindinho do pé esquerdo no pagode. Se Deus quiser, um dia coloca mais.”

A pergunta que encerrou a entrevista

Quando Pedro começou a se despedir, a banda impediu o fim da conversa.

“Não, não. A última”, pediu Crase.

O baterista tomou o lugar de entrevistador e iniciou um bate-bola com o repórter.

Música preferida da Daparte?

“‘Ultravioleta’.”

Lugar preferido em Juiz de Fora?

“Minha casa.”

Time do coração?

“Cruzeiro.”

Crase não precisou ouvir mais nada.

“Cala a boca… acabou a entrevista.”

Dessa vez, os cinco concordaram. Entre risadas.

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