Banda paraibana Papangu se rebela contra o domínio da IA

Banda paraibana Papangu se rebela contra o domínio da IAReprodução: Redes Sociais

O que fica na memória são as imperfeições, já dizia o compositor britânico Brian Eno. O granulado dos filmes fotográficos, os chuviscos do VHS, o chiado do vinil: na arte, os limites do suporte também moldam a mensagem. Por isso, uma era dominada pela inteligência artificial (IA) e manipulação digital extrema talvez possa soar, para alguns, como o fim dos tempos.

Ou, ao menos na música, como um campo infértil, demasiadamente desumanizado. Mas se a arte também é feita de escolhas, a da Papangu foi olhar para frente a partir de um passado analógico, numa estrada sem atalhos, de João Pessoa até Berlim.

Foi em Lichtenberg, no leste da capital alemã, num edifício que servia antigamente à Stasi, o serviço secreto da extinta Alemanha Oriental, que a banda paraibana produziu o terceiro disco – Celestial, a ser lançado nesta sexta-feira (07). A gravação totalmente artesanal durou nove dias, com registros em fita magnética e sem nenhum software nas dez faixas que compõem o trabalho.

“Mais do que uma nostalgia estética, foi uma tentativa de manter total controle humano sobre o processo”, conta o baixista Marco Mayer à DW. “O analógico não permite que você tome atalhos eletrônicos, que modifique a performance humana de uma maneira totalmente livre, como dá pra fazer com o computador”, explica o músico, que hoje vive em Berlim e se prepara para a segunda turnê europeia da Papangu, grupo que recentemente foi tema de uma reportagem elogiosa no jornal britânico The Guardian.

Celestial vem sendo tratado pela banda como um “manifesto contra a dita inteligência artificial”, contra um cenário artístico que delega cada vez mais a capacidade criativa do ser humano ao algoritmo, que “pasteuriza a interpretação no mínimo denominador comum”, diz Mayer. “Tudo que está lá é um reflexo do que uma banda, do que um grupo social, um grupo de amigos consegue fazer na mesma sala juntos. É uma fotografia fiel do que a gente consegue compor sozinho, sem ajuda de máquinas. Uma autoafirmação da nossa humanidade”, resume ele.

À sombra da Stasi, mas à luz de David Bowie

A história da Papangu começou em 2012, quando amigos que estavam no primeiro ano das faculdades de direito e engenharia na Paraíba se juntaram para tocar metal extremo e progressivo, estilo que pautou o primeiro álbum da banda, Holoceno, de 2021. O trabalho foi bem-recebido pela crítica especializada internacional e alavancou o grupo também para o resto do Brasil. O nome é inspirado nas figuras mascaradas do Carnaval de Bezerros, em Pernambuco.

Na sequência veio Lampião Rei (2024), no qual a banda, já como quinteto, incorporou, de forma mais explícita, abordagens de fora do heavy metal, como o jazz, o progressivo, o krautrock alemão, além, é claro, de elementos brasileiros como a psicodelia nordestina, o Clube da Esquina, o som dos Mutantes, o forró e a música livre de Hermeto Pascoal – o que fez o som da Papangu ganhar as divertidas alcunhas “rock troncho” ou até mesmo “hermetocore”.

O disco em homenagem ao cangaceiro mais famoso do mundo foi mixado em Berlim, onde Mayer vive e trabalha desde 2021 – afinal, a banda mantém basicamente o status independente, com apenas um dos integrantes como músico em tempo integral. O trabalho anterior a Celestial foi gravado “ao vivo” e contou ainda com algumas edições feitas digitalmente.

A mixagem de Lampião Rei havia ficado a cargo de Richard Behrens, um dos sócios do Big Snuff Studios, a quem a banda recorreu para a empreitada 100% analógica do álbum atual. Celestial foi gravado em setembro de 2025, logo após o fim da primeira turnê europeia dos paraibanos.

Nesse meio-tempo, o estúdio de Behrens havia se mudado da região de Weißensee para Lichtenberg, em um edifício repleto de simbolismo histórico. O local havia abrigado, durante a Guerra Fria, o Fahrbereitschaft, serviço de transportes ligado à cúpula da República Democrática Alemã (RDA) e associado às operações da Stasi.

Oficialmente uma central de veículos do Partido Socialista Unificado (SED), o terreno era utilizado pelos agentes do serviço secreto da Alemanha Oriental, durante a existência do Muro de Berlim, para dar apoio logístico e financeiro – e oculto – a organizações de esquerda na Alemanha Ocidental.

Hoje celeiro de iniciativas culturais, o prédio preserva algumas instalações da época, como pista de boliche e bar com cassino e sauna, conta o baixista da Papangu.

Depois da gravação, Celestial recebeu outro banho de coincidências berlinenses na etapa final, mas do “outro” lado do Muro, justamente onde David Bowie e Iggy Pop transitavam no final dos anos 1970. A masterização do novo álbum ocorreu no Emil Berliner Studios, que divide a sede com os lendários Hansa Studios.

Foi lá, no bairro de Kreuzberg, lado ocidental da capital berlinense, onde foram gravados os três discos da aclamada fase berlinense de Bowie (Low, Heroes e Lodger) e que tiveram participação essencial de Brian Eno, cujas palavras abrem este texto.

E, na capital alemã, a Papangu pôde sentir na pele a importância das limitações e permanência dos “ruídos”, exatamente como disse o músico britânico.

“O meio analógico da fita impõe uma certa saturação e compressão, o que deixa o som um pouco acolchoado, remetendo aos discos da era de ouro do rock brasileiro dos anos 1960 e 1970. Aquela coisa dos Mutantes, Som Imaginário, Milton Nascimento. É uma sensação sonora bem parecida”, conta Marco Mayer à DW.

Nas sessões em Lichtenberg, as canções de Celestial foram registradas do começo ao fim, sem interrupções, pois o suporte em fita magnética não permitia editar partes específicas ou corrigir erros pontuais.

O uso de canais de áudio também foi limitado a 24, bem diferente dos processos atuais, com faixas quase infinitas de áudio. Isso obrigou a banda a se concentrar nos ensaios e na pré-produção para definir as partes que seriam tocadas – também “ao vivo” –, os timbres e até as posições dos microfones. “Você é obrigado a se conformar e tomar decisões finais já na hora de gravar. Quando você ouve as fitas, o que sai dos alto-falantes é praticamente o disco pronto”, diz.

Já no lado financeiro, acrescenta ele, os custos da gravação em analógico na Alemanha não fugiram muito do que seria gasto em estúdios de referência no Brasil e que utilizam o suporte digital. Muito disso, diz Mayer, é pelo fato de vários equipamentos já serem produzidos no país europeu. Além disso, a hospedagem também foi facilitada: a Papangu terminou a turnê europeia, se mudou para a casa do baixista em Berlim e entrou em estúdio.

Vinil e fita cassete em tempos de streaming

A Papangu é formado atualmente por Marco Mayer no baixo, Hector Ruslan na guitarra, Rodolfo Salgueiro nos teclados, George Alexandria na bateria e Pedro Francisco como “coringa”, entre guitarra, flauta, teclado, percussão e saxofone. Todos dividem as vozes. A banda também conta com Raí Accioly em algumas apresentações.

A turnê europeia de Celestial começa também nesta sexta-feira e passa por nove países – em 25 de agosto, os paraibanos tocam no Neue Zukunft, no bairro de Friedrichshain, em Berlim. No segundo semestre, a Papangu faz uma incursão no Brasil, com o primeiro show no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em 26 de setembro, ao lado do Ave Sangria, ícone do rock psicodélico nordestino.

Até lá, o novo álbum, que já teve algumas faixas divulgadas, estará disponível integralmente não só nas principais plataformas de streaming, mas também nos formatos físicos – CD, vinil e em fita cassete. Afinal, para a Papangu, o ciclo precisa ser completo.

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