A brasileira Lilian deixou o mercado de trabalho aos 33 anos após poupar até 70% da renda. Ela segue o movimento Fire, de independência financeira e aposentadoria antecipada, mas especialista questiona se a ideia é viável para todos.
“Eu me aposentei aos 33 anos. Hoje estou com 38. Já vivo essa realidade há cinco anos.”
Lilian Ferro é uma brasileira que diz ter poupado entre 50% e 70% da renda para parar de trabalhar mais cedo. Começou aos 27 e, seis anos depois, já estava de boa, viajando pelo Brasil com o marido.
“Eu comecei com cortes básicos, como todo mundo faz. Então comecei a controlar mais os gastos do dia a dia, ter mais consciência com os gastos do cartão, começar a cozinhar mais em casa, usar menos aplicativo, andar mais de transporte público. A minha prioridade era atingir a liberdade. Era reconquistar a autonomia do meu tempo”, conta a economista e escritora.
Lilian estava, na verdade, seguindo os princípios de um movimento global que nasceu no início dos anos 90. O movimento Fire.
A sigla quer dizer algo como Independência Financeira Aposentadoria Antecipada. E prega que a pessoa poupe a maior parte do que ganha para construir patrimônio com rapidez. E que depois limite os gastos anuais a 4% desse montante para a coisa não sair do controle.
Comunidades na internet
“A gente tem muitos luxos hoje no dia a dia, que a gente trata como essencial, mas não é. É supérfluo”, diz Lilian.
A questão é: será que a gente está falando de um sonho possível para a maioria?
“Se situa num caso específico que foge à normalidade, porque a enorme maioria das pessoas simplesmente não pode poupar 70% da renda”, afirma Fabio Giambiagi, especialista em finanças públicas e Previdência Social.
No Brasil, mais de um terço dos trabalhadores ganha até um salário mínimo. A renda média mensal é de pouco mais de três mil reais.
Sem contar que as regras do regime geral de Previdência ficaram mais rígidas com a reforma de 2019. O que, para o especialista, faz com que a ideia de aposentadoria antecipada fique restrita a uma parcela da população.
Como a que tem o recorte social de Lilian: alguém sem filhos, com curso superior, que teve emprego estável e uma boa noção sobre investimentos.
“É absurdo. A não ser que a pessoa seja rica, herdeira de uma grande fortuna, não é? Mas isso não é uma possibilidade para os comuns mortais”, diz Giambiagi.P
Papel do trabalho
Dia desses eu recebi uma cartinha aqui na Alemanha. Com a previsão da minha aposentadoria para 2053. E conheci Karoline Fendel, que tinha recebido um documento parecido. E esta foi a reflexão do nosso encontro:
“E o aposentar também vai levar ao quê? Porque, sim, tem muitos aposentados que depois entram em depressão”, afirma a analista de projetos ambientais.
“Então, acho que é um tema que a gente tem que se debruçar com um certo olhar crítico assim, porque o fazer nada, se ele for um ócio criativo e se tiver voltado a um bem comum para a comunidade, ótimo. Mas se não, o que vai ser? Porque a gente precisa de pessoas com boas intenções e boas intuições e boas ideias estarem ativas na sociedade.”







