Gilmar Mendes deixou Renan falar

Renan Santos Reprodução/Globoplay

No fim, Renan Santos vai falar.

Não porque a Globo mudou de ideia.

Não porque resolveu abrir voluntariamente uma cadeira no último debate presidencial antes do primeiro turno.

Renan vai falar porque Gilmar Mendes mandou.

Segundo informação divulgada pela CNN Brasil, o ministro do Supremo Tribunal Federal determinou nesta quinta-feira que a Globo inclua o candidato do Missão no debate presidencial desta noite.

A decisão tem efeito imediato.

E encerra, ao menos por enquanto, uma novela que talvez nem precisasse ter chegado ao Supremo.

Gilmar Mendes Fellipe Sampaio / STF

Renan passou os últimos dias tentando conseguir aquilo que a Globo poderia ter concedido por decisão editorial: um lugar no debate.

O Missão não possui os cinco parlamentares exigidos pela legislação para garantir automaticamente a presença de seu candidato. Por isso, juridicamente, a Globo não tinha inicialmente a mesma obrigação em relação a Renan que possuía com candidatos enquadrados nesse critério.

Até aí, tudo certo.

O problema estava em outro lugar.

As próprias regras da emissora admitiam a possibilidade de convidar candidatos adicionais. Renan, além disso, havia alcançado 3% na pesquisa Quaest mencionada nas decisões judiciais, enquanto Lula comunicou que não participaria do programa.

Ainda assim, a Globo decidiu não chamá-lo.

Renan foi ao TSE.

Nunes Marques negou.

Foi ao STF.

Cármen Lúcia também rejeitou a ação, sem entrar no mérito central da reivindicação, por considerar inadequado o instrumento jurídico utilizado.

Quando tudo parecia encerrado, apareceu Gilmar Mendes.

E Gilmar deixou Renan falar.

Uma decisão que vai além de Renan

A questão mais interessante dessa história talvez nem seja Renan Santos.

É o debate sobre quem deve participar do debate.

A legislação estabelece critérios objetivos justamente para evitar que uma emissora possa simplesmente selecionar os candidatos que prefere colocar diante de milhões de brasileiros.

Mas existe uma diferença entre participação obrigatória e participação facultativa.

Renan estava justamente nessa segunda situação.

A Globo poderia convidá-lo.

Preferiu não fazer isso.

Agora terá de recebê-lo por determinação judicial.

É uma diferença enorme.

O eleitor fará o julgamento

Renan Santos não ganha razão política porque ganhou uma cadeira no estúdio.

Também não ganha automaticamente importância eleitoral.

Ele ganha apenas aquilo que buscava: a oportunidade de colocar suas ideias diante dos demais candidatos e ser confrontado por eles.

O resto pertence ao eleitor.

Renan poderá fazer um grande debate.

Poderá fazer um debate ruim.

Poderá crescer aos olhos de quem assistir ou poderá sair menor.

Esse julgamento não pertence à Globo.

Também não pertence ao Supremo.

Pertence ao público.

É justamente por isso que debates existem.

A Globo poderia ter evitado tudo isso

Talvez essa seja a parte mais incômoda do episódio.

A Globo entrevistou Renan durante a campanha. O candidato participou de sabatina da emissora e foi tratado como personagem da disputa presidencial.

Quando chegou o maior debate da eleição, porém, ficou do lado de fora.

A emissora tinha argumentos jurídicos para sustentar sua posição. Nunes Marques, inclusive, havia entendido que as regras não obrigavam a Globo a convidá-lo.

Mas jornalismo não se resume ao que uma empresa é obrigada a fazer.

Existe também a escolha editorial.

E escolhas editoriais podem — e devem — ser discutidas.

Agora, ironicamente, a escolha já não está mais nas mãos da Globo.

Gilmar resolveu

A decisão de Gilmar Mendes não transforma Renan Santos em vencedor de nada.

Também não significa que os argumentos jurídicos apresentados anteriormente por Nunes Marques e Cármen Lúcia simplesmente desapareceram.

Significa algo mais concreto.

Nesta quinta-feira, Renan Santos estará no debate.

Vai poder questionar.

Vai poder responder.

Vai poder ser questionado.

E milhões de brasileiros terão a oportunidade de formar a própria opinião sobre ele.

Era exatamente esse o ponto desde o começo.

Não era necessário gostar de Renan.

Não era necessário concordar com Renan.

Nem sequer era necessário acreditar que Renan merecia mais votos.

Era necessário apenas permitir que suas ideias fossem submetidas ao mesmo ambiente de confronto público dos demais participantes.

A Globo não quis.

Gilmar Mendes deixou Renan falar.

Agora, Renan que fale.

E o eleitor que julgue.

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