Quais as dificuldades dos gringos ao aprender português?
Não pense que a vida é difícil só para os brasileiros que tentam pronunciar “world” (mundo) em inglês. Ser gringo e tentar aprender a falar em português leva a questionamentos como:
“Eu amei, eu brinquei, eu estudei, eu… comei?” Não. Eu comi.
“Ela estava na China. Estará, então, na Canadá?” Não. No Canadá. “Ok, no Cuba?” Não. Em Cuba.
“A caixa?” Sim. “Vou pagar a compra na caixa?” Não, no caixa. “A pessoa que trabalha lá é o caixa?” Não, é a caixa. “E eu saco dinheiro na caixa eletrônica?” Não, no caixa eletrônico. “Tá, e vou ver o preço no caixa registrador?” Não, na caixa registradora.
Nesta reportagem, você entenderá, a partir de exemplos reais e de explicações de linguistas, quais são as maiores dificuldades de um estrangeiro aprender nosso idioma, como:
flexão de verbos;
pronúncia de “ão”, “lh”, “nh”, vogais abertas (avó) e “r fraco” (caro);
preposições (gostar de algo, trocar por outro, ir à festa);
gênero de palavras (o mapa ou a mapa?);
diferenças regionais (tu vais ou tu vai?; casa da Maria ou casa de Maria?);
mudanças na adaptação da escrita para a fala (quequeisso, cé loco?).
“Faço uma aula por semana, e a palavra que aparece sempre e que eu não sou capaz de falar é TRABALHA. Troubala? Troubaya? Simplesmente, não consigo fazer minha língua produzir esse som”, diz ao g1 a americana Courtney Novak, que viralizou nas redes sociais ao descobrir a obra “Dom Casmurro”, de Machado de Assis.
Ela segue firme na missão de dominar a língua portuguesa. No momento, o desafio maior é entender o que os personagens de Avenida Brasil falam — naquela velocidade bem diferente da que aparece em materiais didáticos.
“Minha professora é a Carminha”, diz.
Tipos de dificuldade
Qual a principal característica do português que torna a missão de aprendê-lo mais desafiadora? É uma língua flexional.
“São muitas pessoas verbais [eu, tu, ele, nós, vós, eles], cada uma com uma forma”, explica Paola Mandalá, coordenadora do centro de línguas e professora de português para estrangeiros na Universidade de São Paulo (USP).
Em inglês, por exemplo, conjugar um verbo no presente significa usar a mesma palavra em todas as pessoas verbais, exceto na terceira, em que se acrescenta um “s”: I play, You play, She/He/It plays, We play, They play. Em português, traduzindo, temos: Eu jogo, tu jogas, ele joga, nós jogamos, vós jogais, eles jogam. Seis formas diferentes.
“Meus alunos chegam dizendo que português é difícil. Um exemplo: são seis formas verbais que se referem ao passado [pretérito perfeito simples (eu andei), pretérito perfeito composto (eu tenho andado), pretérito imperfeito do indicativo (eu andava), pretérito mais-que-perfeito (eu andara), pretérito imperfeito do subjuntivo (se eu andasse) e pretérito perfeito do subjuntivo (que tenha andado)]. Há línguas com dois ou três”, diz a professora.
Outros obstáculos vão variar de acordo com o idioma nativo do aluno:
1º grupo dos desafios: pronúncia
ÃO
Exemplos de palavras: “não”, “maçã”, “pão”, “irmão”.
Para quem pode ser difícil? Para falantes de espanhol, inglês e outros idiomas sem a presença de vogais nasais
Por quê? A articulação exige que o ar saia simultaneamente pela boca e pelo nariz. Como essa mecânica não existe em línguas sem vogais nasais, os alunos têm dificuldade tanto para produzir quanto para perceber o som, tendendo a pronunciar ou ouvir “não” como “nau”; “pão” como “pau”.
“O ditongo ÃO é o grande campeão de dificuldade. Palavras como pão, coração e mão frequentemente saem como ‘pao’, ‘pan’ ou ‘pantom’ “, afirma Wellington Souza, criador da WS português (iniciativa para ensinar português para estrangeiros por meio de materiais autênticos).
SONS ABERTOS DE VOGAIS
Exemplos de palavras: “dó” vs. “do”, “avó” vs. “avô”; “dez”.
Para quem pode ser difícil? Hispanofalantes e falantes de línguas eslavas (como o russo) .
Por quê? Na percepção auditiva desses idiomas, o contraste entre o som aberto e o fechado da mesma vogal não aparece. Em espanhol, por exemplo, não existe o “ó” agudo.
“Sabe os sons fechados que temos? ‘Ê’, em vez de ‘é’. Ele não aparece em línguas eslavas… A pessoa russa pode dizer ‘eu quero dez pães’ como ‘dêz pães’, e o brasileiro entender ‘três'”, exemplifica Wellington.
LH E NH
Exemplos de palavras: “trabalha” / “trabalho”, “mulher”, “olho”, “lhama”, “amanhã”, “carinho”.
Para quem pode ser difícil? Anglófonos, francófonos e outros falantes de línguas sem consoantes palatais contínuas (quando a língua encosta no céu da boca durante a saída do som).
Por quê? São sons que exigem que a língua se espalhe contra o céu da boca (palato duro). Sem essa prática, estrangeiros tendem a separar os fonemas, pronunciando como “L” ou “N” seguido de “Y” (como “trabal-yo” ou “carin-yo”).
Por isso que Courtney, mencionada no começo da reportagem, sofre tanto ao falar “trabalho”.
R ‘FRACO’
Exemplos de palavras/frases: “caro”, “arara”, “o carro é caro” .
Para quem pode ser difícil? Falantes de francês e de alemão.
Por quê? O “R” brando (intervocálico), como em “caro” ou “lareira”, depende de um batimento rápido da ponta da língua no alvéolo (região da gengiva logo atrás dos dentes superiores). Nativos de idiomas com “R” gutural (aquele “rr” bem forte, como no francês ou no alemão) sofrem para não usar a garganta ao emitir esse som.
“Alemães e holandeses têm dificuldade… Esse R da ponta da língua, eles não fazem. Fazem o mais gutural… ‘O carro é caro’ vira ‘o carro é carro'” , diz a professora Paola, da USP.
2º grupo dos desafios: gramática
PREPOSIÇÕES
Exemplos de palavras/frases: “gostar de arroz” (por que “de”?); “trocar por outra pessoa”; “assistir ao programa”, “levar para algum lugar”.
Para quem pode ser difícil? Praticamente todas as nacionalidades, especialmente anglófonos e falantes de idiomas distantes do português.
Por quê? Preposições são palavras sem referencial concreto e variam bastante dependendo da regência verbal e de convenções arbitrárias de cada língua. Não há uma regra lógica intuitiva: exige memorização.
“Eu sei o quanto um aluno é avançado no português baseado em quanto ele erra nas preposições… A única maneira de aprender é com o hábito”, explica Wellington.
GÊNERO ARBITRÁRIO
Exemplos: a mesa, a caixa, a estante, a foto; o livro, o mapa, o planeta
Para quem pode ser difícil? Para qualquer pessoa (por diferenças específicas e ausência de regras), mas especialmente a quem vem de línguas com gênero neutro.
Por quê? Qual é a regra para definir quando uma palavra vai ser masculina ou feminina? Não existe. A única forma de acertar é ouvir e ler bastante.
Quem fala línguas com gênero neutro, como inglês, não está acostumado a definir gênero para objetos. Os artigos são sempre os mesmos antes de substantivos no singular: “the” (definido) ou “a”/ “an” (indefinido), não importa a palavra seguinte: a table, a box, a bookcase, a picture, a book, a map, a planet (traduzindo na ordem dos exemplos acima).
E mesmo para falantes de idiomas com gênero, como espanhol, pode haver confusão: nós falamos “o leite”; já eles dizem “la leche”. A tendência de quem está aprendendo o português é reproduzir o mesmo gênero de sua língua nativa.
VERBOS IRREGULARES
Exemplos de palavras/frases: verbo medir (“meço”), “eu sou cansado” vs. “eu estou cansado”; “eu tinha imprimido/ o texto estava impresso”.
Para quem pode ser difícil? Anglófonos, hispanofalantes e aprendizes de línguas com menor flexão verbal.
Por quê? O português segue um sistema verbal altamente flexional, como explicado no início da reportagem. O aluno tenta encontrar um padrão de conjugação, mas aí cai na armadilha dos verbos irregulares.
“O aluno que fala inglês e que está no básico do português entende que EI é final de pretérito perfeito, porque 70% dos verbos terminam em AR… ‘falei’, ‘cantei’, ‘brinquei’. Mas aí colocam COMEI em vez de comi”, diz Regina Sellan, professora de tradução de português para estrangeiros na PUC-SP.
3º grupo de desafios: a diferença da vida real
VELOCIDADE DE FALA E O ‘COMER’ DE SÍLABAS
Exemplos:
“Você está fazendo o quê?” → “Cê tá fazendo o quê?”
“Eu não sei” → “Num sei”
“para” → “pra” → “pa”
“os meninos” / “cantar” → “os menino”, “cantá”
“o que é isso?” → “queque isso?
Para quem pode ser difícil? Estrangeiros treinados só com livros didáticos tradicionais e expostos apenas à variante formal.
Por quê? Na conversa espontânea, ocorrem constantes reduções vocálicas, elisões de consoantes finais e junções de sílabas para agilizar a fala. Essas fusões mascaram as fronteiras entre as palavras, impedindo que o aluno reconheça termos que até dominaria se estivessem escritos.
“As reduções e as junções fazem com que o estrangeiro não consiga perceber o limite das palavras… Na fala, faz um bololô, e o estudante que está aprendendo tem dificuldade”, diz Sellan.
Wellington acredita que o uso de áudios muito formais nas aulas dificulta esse contato dos estrangeiros com o “português do dia a dia”.
“A discrepância entre quem vai de escola tradicional de português para estrangeiros e quem vai conviver com cariocas e nordestinos é um mundo diferente… Nossos materiais didáticos para português brasileiro estão muito datados”, diz Wellington.
Ele até produz conteúdos nas redes sociais mostrando como é difícil compreender brasileiros em entrevistas ou cenas de novelas.
Nas explicações, mostra o vídeo como exemplo e, em seguida, pronuncia as falas bem pausadamente, deixando claras as fronteiras entre as palavras.
DIFERENÇAS REGIONAIS
Exemplo: “menino” (SP) vs. “ménino” (Norte/Nordeste); uso de “tu vai” (Rio) / “tu vais” (Belém) vs. “você vai”; r do interior de São Paulo (“poRRta”) vs. r de outras regiões; sotaques e expressões regionais.
“Tive aluna que aprendia com professor do Pará. Outro sotaque, claro. Quando veio para ter aula na PUC em São Paulo, ela disse: ‘não foi esse o português que aprendi'”, conta Sellan.
Por quê? O Brasil possui uma enorme variação fonética, gramatical e regional que raramente é contemplada pelo português padronizado dos manuais didáticos.
“Tenho 6 aulas que sempre fazem parte do curso com vídeos de apresentação do BBB. São de diferentes partes do Brasil… Karol Conká, Juliette, sotaque gay do Gil. Esse é um exemplo de material que representa o Brasil melhor que o material tradicional”, conta Wellington.









