Anthropic vai cobrar (a mais) pelo Claude Fable 5

A Anthropic anunciou que passará a cobrar pelo uso do Claude Fable 5, seu modelo de inteligência artificial (IA) mais avançado voltado ao público consumidor, mesmo para usuários que já pagam uma assinatura mensal do serviço.

A mudança entra em vigor em 12 de julho, às 23h59 (horário do Pacífico) — 3h59 (horário de Brasília) do dia 13 — e representa alteração significativa no modelo de negócios adotado pelas empresas de IA.

Segundo a empresa, assinantes dos planos de US$ 20, US$ 100 e US$ 200 por mês precisarão pagar tarifas adicionais baseadas no volume de utilização do modelo. Esta é a primeira vez que um grande laboratório de IA passa a cobrar consumidores dessa forma para acessar seu modelo mais avançado.

Claude Fable 5 será cobrado por quantidade de tokens utilizados

  • As novas cobranças seguirão a mesma tabela já aplicada aos desenvolvedores que utilizam a API da Anthropic;
  • O custo será de US$ 10 (R$ 51,36) por milhão de tokens enviados ao Claude Fable 5 e US$ 50 (R$ 256,78) por milhão de tokens gerados pelo modelo nas respostas;
  • Na prática, um assinante do plano de US$ 20 que utilize um milhão de tokens de entrada e receba um milhão de tokens de resposta pagará US$ 60 (R$ 308,13) adicionais, totalizando US$ 80 (R$ 410,84) naquele mês;
  • Um milhão de tokens corresponde aproximadamente a 750 mil palavras;
  • Ainda assim, usuários que utilizam intensamente ferramentas de IA podem consumir grandes quantidades de tokens, principalmente porque modelos mais recentes empregam cadeias internas de raciocínio que aumentam significativamente o processamento necessário para responder às solicitações.

Mudança acompanha tendência do mercado

A cobrança baseada em consumo já é comum entre desenvolvedores que utilizam modelos de IA por meio de APIs. No mercado de consumidores, porém, as empresas tradicionalmente optaram por assinaturas mensais de valor fixo, tanto para gerar receita quanto para controlar a demanda pelos serviços.

Contudo, essa estratégia começou a mudar nos últimos meses. No ano passado, empresas de ferramentas de programação baseadas em IA, como a Cursor, abandonaram planos ilimitados e passaram a cobrar conforme o volume de utilização.

A própria Anthropic também adotou recentemente um modelo semelhante para grandes clientes corporativos, cobrando empresas de acordo com o uso feito por seus funcionários, em vez de uma taxa fixa.

Para a WIRED, essas mudanças podem estar relacionadas aos preparativos da companhia para uma futura oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês).

Agentes de IA exigem muito mais processamento

Executivos do setor argumentam que os modelos tradicionais de assinatura deixaram de fazer sentido diante da chegada dos agentes de IA, capazes de executar tarefas complexas que demandam muito mais capacidade computacional do que chatbots convencionais.

O ex-chefe do ChatGPT na OpenAI e atual responsável pelos produtos corporativos da empresa, Nick Turley, resumiu essa visão durante um podcast realizado neste ano. “É possível que, na era atual, ter um plano ilimitado de IA seja como ter um plano ilimitado de eletricidade. Simplesmente não faz sentido.”

Anthropic diz que pretende voltar a incluir o modelo na assinatura

Apesar da mudança, a Anthropic afirma que não pretende abandonar definitivamente o modelo de assinatura tradicional.

Em declaração à WIRED, a porta-voz da empresa, Reem Ateyeh, afirmou que a companhia pretende reintegrar o Claude Fable 5 aos planos de assinatura assim que houver capacidade computacional suficiente. Segundo ela, isso ocorrerá “o mais rápido que pudermos”.

A declaração indica que a principal limitação atualmente enfrentada pela empresa está relacionada à disponibilidade de infraestrutura computacional.

Nos últimos anos, a Anthropic firmou acordos multibilionários para ampliar sua capacidade de data centers com SpaceX, Amazon e Google, embora a infraestrutura disponível ainda esteja abaixo do desejado pela companhia. Ainda assim, não há previsão de quando essas limitações deixarão de existir.

Porta-voz da empresa afirmou que a companhia pretende reintegrar o Claude Fable 5 aos planos de assinatura assim que houver capacidade computacional suficiente – Imagem: Samuel Boivin/Shutterstock

Empresa testa disposição dos consumidores em pagar mais

A mudança ocorre após um período promocional em que o Claude Fable 5 foi disponibilizado sem custos extras para assinantes. Quando anunciou o modelo, em 7 de junho, a Anthropic afirmou esperar uma demanda “muito alta e difícil de prever”.

Desde então, o interesse pelo sistema aumentou ainda mais. O crescimento ocorreu após o governo dos Estados Unidos proibir temporariamente o acesso ao modelo por cidadãos estrangeiros e, posteriormente, liberar sua disponibilidade geral em 1º de julho.

Segundo a reportagem, independentemente da forma como a Anthropic apresente a decisão, a nova política de preços representa um teste para medir até que ponto consumidores estão dispostos a pagar pelo acesso ao modelo considerado mais avançado da empresa.

Embora tenha concentrado seus esforços principalmente no mercado corporativo nos últimos anos, a Anthropic vem ampliando sua presença entre consumidores, segmento atualmente liderado pelo ChatGPT, da OpenAI, e pelo Gemini, do Google.

Claude cresce, mas ainda está distante dos líderes

Dados da empresa de inteligência de mercado Sensor Tower, citados na reportagem, mostram que o Claude registrou 245 milhões de visitantes únicos em maio, mais que o dobro do registrado em fevereiro. Apesar do crescimento, o serviço ainda está distante dos principais concorrentes.

Segundo o levantamento, o ChatGPT recebeu 1,11 bilhão de visitantes únicos mensais, enquanto o Gemini alcançou 662 milhões.

Estratégia aposta em usuários dispostos a pagar por desempenho

A popularidade do Claude cresce ao mesmo tempo em que parte do setor de tecnologia critica a Anthropic por cobrar preços elevados enquanto utiliza grandes volumes de conteúdo protegido por direitos autorais no treinamento de seus modelos.

A empresa aposta em se tornar a “Apple da era da IA”, confiando que sempre haverá consumidores dispostos a pagar mais por um modelo considerado premium. Uma fonte próxima à Anthropic, que falou sob condição de anonimato à WIRED, afirmou que a discussão entre usuários mudou.

“A dinâmica interessante que está acontecendo agora é que ninguém quer fazer a pergunta: ‘Eu preciso da melhor inteligência para esta tarefa?’”

Segundo essa fonte, a questão passou a ser outra. “Na maioria das vezes, ao escolher qual modelo de IA usar, as pessoas perguntam a si mesmas: ‘Eu sou o tipo de pessoa que precisa de uma inteligência intermediária ou da melhor?’”

A reportagem acrescenta que muitos profissionais altamente remunerados dos setores financeiro, político e tecnológico já demonstram disposição para pagar pelo modelo considerado mais avançado, tanto no trabalho quanto no uso pessoal, e que um número crescente deles enxerga o Claude como essa opção.

Ao mesmo tempo, ressalta que manter essa reputação dependerá da capacidade da Anthropic de permanecer à frente da concorrência. Segundo a revista, as primeiras reações ao GPT-5.6 Sol, da OpenAI, indicam que a disputa continuará acirrada.

Concorrentes podem seguir outro caminho

Contudo, OpenAI e Google não necessariamente adotarão a mesma estratégia da Anthropic. Essas empresas tendem a ampliar o uso de publicidade para financiar seus planos gratuitos e de baixo custo.

Como a Anthropic tem adotado uma posição contrária à utilização de anúncios, aumentar os preços pode ser, no curto prazo, sua principal alternativa para ampliar a receita.

A mudança sinaliza que a chamada “era de ouro” das assinaturas subsidiadas de IA para consumidores pode estar chegando ao fim.

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