Como Ela Usa a Moda para Transformar a Vida de Mulheres no Sistema Prisional

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Em março deste ano, a moda brasileira pisou em um dos palcos mais importantes do mundo – fora do circuito tradicional das semanas de moda. Karen Brandoles, fundadora da Passarela Alternativa, ONG focada na reintegração de mulheres egressas do sistema prisional e em situação de vulnerabilidade social, participou da delegação oficial do Ministério das Mulheres na 70ª Comissão sobre a Situação das Mulheres (CSW 70), o maior fórum da ONU sobre igualdade de gênero, em Nova York.

Há oito anos, Karen fundou a ONG para combater a reincidência criminal de mulheres atacando a raiz do problema: a falta de oportunidade e o estigma. Hoje, já envolveu mais de 25 mil mulheres em seus projetos de moda e upcycling (reutilização criativa de resíduos têxteis) e capacitou 9 mil profissionais para geração de renda. “Quando a sociedade fecha portas, o caminho de reincidência acaba se tornando quase inevitável”, afirma. “O que o sistema considera descartável, na verdade, carrega potência, talento e capacidade de recomeçar. Meu trabalho hoje é criar a estrutura exata para que esses recomeços sejam possíveis.”

A costura de uma vocação

A paixão de Karen pela moda começou na infância, mas esbarrou no preconceito de que a área seria “fútil”. Depois de cursar relações internacionais e nutrição, encontrou seu propósito no trabalho voluntário, ao entrar em uma penitenciária pela primeira vez, em 2011. “Vi mulheres esvaziadas de si mesmas”, relembra.

A ideia de criar uma ONG para mudar o cenário que encontrou ali ficou incubada até 2017, quando Karen enfrentou um divórcio traumático, com uma filha de um ano no colo e pesando 17 quilos a menos. Inspirada por uma reflexão da escritora americana Audre Lorde — “Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.” —, ela decidiu transformar sua própria dor em um motor de mudança. “A primeira pessoa que passou na Passarela Alternativa fui eu. Eu me vi presa em outras correntes.”

Em 2018, bateu de porta em porta para entender o funcionamento do ecossistema penal, aprovou seus primeiros projetos e fundou oficialmente a organização.

“A Passarela Alternativa nasceu da convicção de que justiça também significa criar caminhos reais de recomeço.”

Karen Brandoles

O trabalho da Passarela Alternativa

Hoje, a Passarela Alternativa utiliza a técnica de upcycling (reutilização criativa de resíduos têxteis) como uma metáfora de reconstrução. “A matéria-prima está lá, rasgada ou descartada. A essência da pessoa também está lá, e é boa. A gente só precisa de um olhar criativo, de suporte e de uma nova perspectiva.”

DivulgaçãoKaren Brandoles em Nova York, na Comissão das Mulheres na ONU

Instalada em um edifício tombado na Praça da Sé, coração de São Paulo, a ONG divide sua metodologia em 80% de técnica e 20% de desenvolvimento humano. A atuação da ONG acompanha diferentes etapas da trajetória das mulheres no sistema prisional e após a liberdade.

No regime fechado, o foco está na intermediação de trabalho para remição de pena, combinada a aulas de educação financeira e planejamento para os primeiros dias fora da prisão. No semiaberto, iniciativas como o Projeto Moda Livre levam mulheres a faculdades de moda parceiras para um ciclo de formação que termina com a criação de peças próprias. Já no pós-soltura, elas têm acesso a um ateliê social, onde podemgerar renda desenvolvendo peças para clientes parceiros ou ser encaminhadas para oportunidades no mercado. Ao longo de todo o processo, a organização também garante suporte psicológico e assistência social.

Entre desafios e próximos passos

Manter a operação de pé exige um jogo de cintura estratégico, uma vez que a captação de recursos esbarra em vieses inconscientes da sociedade. “A pauta prisional não atrai doações facilmente. As pessoas preferem doar para causas infantis ou animais”, diz a fundadora. “O adulto encarcerado amedronta, é visto no lugar do ‘não merece apoio.’”

Agora, Karen está abrindo uma nova frente de negócios na ONG: um acervo para aluguel de peças únicas, focadas na alta cultura e no entretenimento. “Começamos a vestir artistas para turnês musicais e até para o Grammy.”

Além disso, firmou uma parceria com a agência FutureBrand São Paulo para um rebranding, organizando sua narrativa estratégica e posicionamento institucional. “A Passarela já era maior do que a forma como estava sendo comunicada”, afirma Karen. “Nosso papel foi organizar essa narrativa, dando forma a um sistema estratégico que sustenta expansão, credibilidade e diálogo com diferentes públicos, sem perder a força do propósito que move a Passarela Alternativa desde o início”, explica Amanda Oliveira, Head de Design da FutureBrand São Paulo.

Com ações que já chegaram a Manaus, Roraima e Fortaleza, a meta para os próximos anos é expandir a metodologia como uma tecnologia social replicável internacionalmente. “Queremos alcançar mais mulheres. O objetivo agora não é apenas crescer, mas transformar esse modelo de negócio de impacto em uma referência global.”

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