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Há alguns anos, em meio à aceleração das tendências impulsionadas pelas redes sociais, o trabalho manual voltou ao centro da conversa no mercado de luxo, não como nostalgia, mas como valor concreto. Na coleção de inverno 2026, Chemena Kamali, diretora criativa da Chlóe, destacou esse valor em peças pintadas à mão e tricôs bordados manualmente, por exemplo.
Mais do que estética, o handmade se conecta diretamente à ideia de qualidade e diferenciação. Quando há domínio técnico e tempo investido, o resultado são peças com identidade própria, difíceis de replicar e naturalmente menos escaláveis, características que seguem no cerne do luxo.
Nesse cenário, o Brasil se destaca pela diversidade e sofisticação de seus saberes artesanais. Do trabalho com fibras naturais aos bordados e tecelagens, há um repertório amplo que dialoga com essa demanda por autenticidade sem esforço.
Antes mesmo de ganhar força como tendência global, o handmade sempre esteve presente em marcas autorais. É o caso de Flavia Aranha, estilista fundadora da label homônima, que constrói sua linguagem a partir de processos manuais e matérias-primas naturais, reforçando uma abordagem em que técnica e origem caminham juntas.
Claudio Silveira, idealizador e diretor do DFB Festival, evento de destaque no meio do handmade no Ceará, complementa: “se, antes, o artesanato era visto quase como um souvenir, hoje, o nosso ‘feito à mão’ é um dos pilares do luxo contemporâneo com DNA brasileiro. Ele une herança cultural, sustentabilidade e exclusividade, sendo, ainda, um motor para a economia criativa”.

A Forbes conversou com as marcas artesanais nacionais para entender como o handmade do país se destaca no mercado e opera fora dos momentos de tendência da moda.
Diferencial do fazer abrasileirado
O Brasil, como um país de dimensões continentais, apresenta uma diversidade de matérias-primas e tradições correspondentes. Ana Luisa Fernandes, fundadora e diretora criativa da Aluf, enumera manualidades do Nordeste, como as rendas e esculturas feitas com pedaços de madeira; do Norte, com o artesanato feito com fibras de plantas, borracha da seringueira e madeira das árvores locais e o Sul, com os trabalhos em couro e tecelagem.
Técnicas como o bordado tradicional do Bumba Meu Boi e as famosas rendas renascença presentes na região do Maranhão e Pernambuco, por exemplo, são valorizadas na marca Lizzi, da estilista Lisyane Arize. Com uma concept store no coração do Centro Histórico de São Luís (MA), o espaço de inspiração para a designer se aproxima literalmente do berço do artesanato maranhense.
Outro exemplo é a marca cearense Marina Bitu, comandada por Marina e Cecília Baima. Fundada em 2017, suas peças reinterpretam referências regionais e manuais – como o crochê, a renda, a cerâmica, o couro e a palha – cujos artesãos se envolvem diretamente na parte criativa. “Trouxemos matérias-primas naturais, como as palhas vindas diretamente do nordeste, texturas orgânicas e elementos que remetem ao território. Essa combinação reflete o nosso desejo de unir o regional ao global: valorizar a raiz sem perder o olhar para o mundo”, afirmou Baima à Forbes em entrevista.
Aranha percebe a influência histórica como uma das raízes desses diferentes ofícios: “Somos um país que foi invadido e colonizado. Nós recebemos muitas tecnologias e conhecimentos de diversos lugares do mundo, especialmente da Europa, mas não só. Temos muitas coisas da África também”.
Yasmine Paranaguá, diretora criativa da marca Glorinha Paranaguá juntamente de Naná Paranaguá, cita a raiz de bambu como material principal dos seus produtos. A matéria-prima utilizada extensamente nas bolsas da marca é uma espécie nativa e abundante no país, que tem o potencial de contribuir para o desenvolvimento da economia circular. “Esse material é um produto super circular. Uma matéria-prima que se você replantar, ela cresce de novo”, explica a diretora.

A mesma preocupação com a utilização de materiais naturais está presente na produção da Shauer, que acredita ser “a forma mais nobre, inteligente e sustentável de consumir moda”.
Por outro lado, não é só desse ambiente de dissidências entre a Europa, os povos africanos e nativos do Brasil, que nascem as especificidades do handmade nacional. Diferentemente de outras partes do mundo, em que processos artesanais permanecem imutáveis por diversas gerações, o fazer abrasileirado surge muitas vezes com a cultura do improviso diante de adversidades. “Você começa a olhar a matéria-prima de outras formas. Inclusive, a partir de realidades muito pesadas e horríveis, do ponto de vista ambiental. O artesanato tem aquele lugar mais puro, ingênuo e tradicional, mas o Brasil mistura coisas, de alguma forma, um ‘erro’ vira uma nova escola, um novo caminho”, afirma Aranha.
Tecnologia é antagonista do artesanal?
Com mais de 15 anos de mercado, trabalhando especialmente com o slow fashion e a moda sustentável e artesanal, Aranha afirma que essa alta da manualidade pode ser encarada como um reflexo do próprio momento hiper tecnológico e acelerado atual da sociedade. “Quando criamos tecnologias muito distantes, como a Inteligência Artificial, e vamos nos distanciando da nossa humanidade, essa tendência se reforça para lembrar que somos humanos, que ainda temos essa tecnologia única e especial, com toda a impressão do nosso gesto nessa produção”, reflete.
Esse retorno ao manual não é isolado. A estilista ressalta que há um histórico de ciclos de contraposição na dinâmica das ondas da moda. “Se olharmos com um pouco mais de distância, percebemos que é algo que vai e vem e sempre pensamos que agora temos mais tecnologia, mas há 10 anos também achávamos”, diz Aranha.

Apesar de ser vista como oposta ao artesanal, a tecnologia não é essencialmente negativa. A designer exemplifica a aplicação de técnicas super tecnológicas a partir da produção têxtil de um linho nacional, lançamento inédito de uma fibra natural 100% brasileira da sua marca. Com o intuito de promover uma cadeia produtiva dentro do país, sem a necessidade de importar o linho da Europa, o desenvolvimento da fibra sustentável alternativa ao tecido recorreu à pesquisa do naturalista português Manuel Arruda Câmara do século 17.
Sua pesquisa de plantas que pudessem produzir um linho e de técnicas ancestrais, como trançados dos povos originários, possibilitaram a criação do tecido inédito da marca e a produção, a partir de maquinários atuais. “Tem processos que são super tecnológicos, mas sempre a angústia que leva a essa pesquisa vem dessa conexão do ancestral. Então, de alguma forma, tudo anda junto”, conclui.
Conheça detalhes por trás da produção das marcas artesanais:
Qual o valor do handmade?
Desde técnicas milenares e ancestrais a novas tecnologias, o valor do trabalho manual pode variar de acordo com o tratamento que lhe é dado. Por exemplo, quando produzido e vendido localmente por comunidades tradicionais, pode custar centenas de reais; já nas grandes maison, pode ser considerado um item de luxo na casa dos milhares.
“Eu já vi muitos grupos de artesãos de renda renascença que demoram duas horas para chegar na pracinha, ficam debaixo do guarda-chuva tentando vender uma peça que demoraram um mês [para produzir] por R$ 200”, afirma Aranha. Ela ainda explica que esse trabalho passa por uma encarecimento: “Um atravessador compra [dessa artesã], vende na feira de Caruaru por R$ 3 mil e depois a pessoa de São Paulo compra e vende por R$ 20 mil. E a artesã ganhou R$ 200”. Existe, assim, a necessidade de se desromantizar o artesanato e de fato valorizar as pessoas por trás das técnicas e produtos.
O diretor do DFB Festival reforça que os perigos de uma exploração ainda maior da mão de obra artesã aumentam frente a maior demanda de produção. “Reforço que um artesão é, antes de tudo, um artista. A implantação de cooperativas de artesanato em polos vocacionados, às vezes eliminando a figura do atravessador e estreitando o diálogo direto entre produtor e cliente final é uma alternativa viável, já que profissionaliza e regula o setor, além de possibilitar a renovação da força de trabalho”, afirma Silveira.
Marcas artesanais também buscam desenvolver relações duradouras com comunidades e associações artesãs para haja uma verdadeira parceria e valorização ao longo de toda a cadeia produtiva. A Foz, comandada por Antonio Castro, por exemplo, constrói uma relação de anos com comunidades artesãs de Alagoas, como Capela, Pão de Açúcar e Entremontes – conhecida como “a capital do bordado alagoano”.
A importância dessa conexão também é percebida e priorizada por Marina Bitu: “Estar perto das artesãs é conviver com outras gerações, com mulheres experientes e suas histórias. O artesanato é o design conectado à natureza, ao território, à cultura e às relações humanas de um lugar”.
O tempo da grande indústria de tendências – que visa um produto barato e portanto mais abundante – difere do tempo do handmade, que exige a construção de um vínculo com aquela realidade e modo de produzir artesão. “Sem esse processo, uma cultura pode ser esvaziada em prol da tendência”, resume Flavia Aranha.
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