Uma das bases para o samba-enredo da Beija-flor de Nilópolis, escola vice-campeã do carnaval do Rio de Janeiro em 2026, foi a pesquisa da professora e historiadora baiana Ana Rita Araújo Machado. A escola homenageou o Bembé do Mercado, tradicional celebração de Santo Amaro, no recôncavo da Bahia, e reconhecido como o maior candomblé de rua do mundo.
A festa foi objeto de pesquisa de Ana Rita, que consolidou os estudos na dissertação de Mestrado defendida no Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), na Universidade Federal da Bahia (Ufba). O trabalho acadêmico ajudou a fundamentar a narrativa histórica apresentada na Sapucaí, na última segunda-feira (16).
Na quarta (18), com a apuração das notas, a Beija-flor conquistou o segundo lugar, atrás apenas da Unidos do Viradouro, que somou 270 pontos na competição. As escolas retornam ao sambódromo neste sábado (21) para o Desfile das Campeãs.
???? Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Feira de Santana e região
Em entrevista ao g1, Ana Rita disse que, inicialmente, os integrantes da Beija-flor encontraram outro trabalho desenvolvido por ela — um estudo em parceria com o Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira (Muncab), situado em Salvador. A partir dessa publicação, eles aprofundaram a investigação até chegar à dissertação de Mestrado.
Pesquisadora Ana Rita Araújo Machado (terceira, da esquerda para a direita) celebrando o vice-campeonato da Beija-flor
Arquivo Pessoal
Ao longo de um ano de pesquisas, membros da escola vieram à Bahia, visitaram Santo Amaro, conversaram com a comunidade e realizaram um levantamento de dados históricos. A parceria fortaleceu o diálogo entre o universo acadêmico e o carnavalesco.
“Houve uma troca extrema, constante. Eles já tinham lido minha dissertação e outros textos que publico. Eles tiveram uma preocupação muito grande de representar Santo Amaro de maneira respeitosa e de pensar o Bembé com cuidado”, defendeu a professora, que acompanhou o desfile e também presenciou a apuração de votos.
Beija-Flor celebra Bembé do Mercado, o maior candomblé de rua do mundo
Reuters/Pilar Olivares
Ela destaca que toda a concepção artística, incluindo alegorias, fantasias e estética, foi mérito do carnavalesco João Vitor de Araújo e da equipe responsável pelo trabalho. A contribuição dela esteve ligada ao embasamento histórico e ao esclarecimento de dúvidas sobre aspectos culturais e religiosos.
“A linguagem científica dialoga com a arte, mas são linguagens diferentes. A pesquisa deu base para que ele criasse o universo que levou à Sapucaí”.
O que é o Bembé do Mercado
Tradição de Santo Amaro brilha no carnaval da Sapucaí
O Bembé do Mercado começou em 1889, um ano após a abolição da escravatura. Desde então, a celebração é realizada todo dia 13 de maio.
Com base na religiosidade popular de matriz africana, a festa é mantida pelos praticantes do candomblé como um culto às divindades das águas, representadas por Iemanjá e Oxum, sendo também um momento de agradecer a proteção individual e coletiva.
Em 2019, a festa do Bembé do Mercado ganhou o título de Patrimônio Cultural do Brasil, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Além disso, a celebração também é Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2012, após decisão do governo do estado.
Para a pesquisadora, o Bembé é um patrimônio cultural brasileiro.
TV Bahia
Para a pesquisadora, o Bembé simboliza o processo de organização das populações negras no pós-abolição e é um patrimônio cultural brasileiro. A projeção na Sapucaí, segundo ela, consolidou e ampliou o reconhecimento da manifestação.
“Quando a Beija-Flor escolhe um tema como o Bembé, as pessoas passam a ter dimensão do que existe ali há muito tempo”.
Cerca de 40 representantes da celebração viajaram para o Rio de Janeiro e desfilaram no último carro alegórico da escola. Ana Rita ressaltou que a participação teve forte impacto simbólico. “Eles representam valores civilizatórios das populações negras e das religiões de matriz africana. Estar ali é também dar visibilidade a essas pessoas em um evento de dimensão mundial”.
Festa do Bembé do Mercado reúne membros de 44 terreiros no recôncavo da Bahia
Georgenes Sampaio
Nascida em Santo Amaro, Ana Rita construiu parte da trajetória acadêmica em Feira de Santana e atua na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Santo Antônio de Jesus, onde é professora do colegiado de História e colaboradora do mestrado. Em sua cidade natal, ela coordena o “Centro de Referência Bembé do Mercado: memórias e patrimônios de povos do terreiro e religiões africanas e afro-indígenas”.
Segundo a historiadora, a escolha do tema de pesquisa tem relação direta com sua vivência pessoal e acadêmica no recôncavo baiano. O aprofundamento começou após um convite para mapear terreiros em Cachoeira, também no recôncavo baiano, e evoluiu para especialização, mestrado e anos de dedicação ao estudo das populações negras no pós-escravidão.
O trabalho acadêmico ajudou a fundamentar a narrativa histórica apresentada na Sapucaí sobre a celebração de Santo Amaro,
TV Bahia
Considerada o maior candomblé de rua do mundo, a festa foi a grande homenageada pela escola, que conquistou o segundo lugar
TV Bahia
*Sob supervisão da editora Ailma Teixeira
LEIA MAIS:
Conheça a festa do Bembé do Mercado, tradição com mais de 135 anos que inspirou desfile da vice-campeã Beija-Flor
Quem é Juraci Dórea, artista feirense homenageado na Micareta de Feira 2025
Veja mais notícias de Feira de Santana e região.
Assista aos vídeos do g1 e TV Subaé ????






