Diretor de “A Nobreza do Amor” defende protagonismo negro na TV

Igor Verde define ‘A Nobreza do Amor’ como um ‘conto de fadas afro-brasileiro’Divulgação Globo

A novela “A Nobreza do Amor”, atual trama das seis da TV Globo, tem chamado atenção pela proposta estética, pelo protagonismo negro e pelas discussões sociais inseridas em uma narrativa inspirada em contos de fadas. Um dos responsáveis por transformar esse universo em imagens é o diretor Igor Verde, que integra a equipe comandada por Gustavo Fernandez.

Em entrevista ao iG, o diretor falou sobre os bastidores da produção, a importância da representatividade no audiovisual brasileiro e os desafios de conduzir uma história que mistura fantasia, romance e reflexão social.

“Um conto de fadas afro-brasileiro”

Segundo Igor, o convite para integrar a equipe surgiu por meio do diretor artístico da novela, Gustavo Fernandez. O projeto, no entanto, chamou sua atenção por diversos fatores, especialmente pela originalidade da trama.

“O convite surgiu do Gustavo, o diretor artístico da novela. E muita coisa me encantou no projeto. Primeiro, o fato de que é uma história que ainda não foi vista na novela brasileira: um conto de fadas afro-brasileiro. Segundo, o trio de autores, formado por Elisio Lopes Jr., Duca Hachid e Júlio Fischer. E terceiro, trabalhar com Gustavo novamente, um diretor que admiro muito e que encoraja sua equipe a ser arrojada e criativa, além de ter uma visão estética muito refinada que imprime na tela”, afirmou.

Igor VerdeDivulgação TV Globo

“O Brasil precisa se ver na televisão”

Com um elenco principal majoritariamente negro, “A Nobreza do Amor” se destaca em um cenário em que a representatividade ainda é alvo de debates constantes na televisão brasileira.

Para Igor, a importância dessa escolha vai muito além da ficção. “A importância é o Brasil ver o Brasil. Por muito tempo, quando o Brasil se via na televisão, se via branco. Um estrangeiro que chegasse a este país e assistisse às novelas poderia pensar que se tratava de uma nação europeia. A televisão tem a função de contar ao Brasil quem é o Brasil e ajudar a construir reflexões sobre o país que temos e o país que queremos”, destacou.

O diretor também defendeu avanços na representatividade nos bastidores das produções. “Precisamos que todo o nosso povo esteja representado na tela da televisão brasileira e também atrás da tela, onde o desafio é ainda maior. É um avanço que precisa acontecer na mesma velocidade”, pontuou.

Diferenças entre uma novela das seis e uma novela das nove

Antes de integrar “A Nobreza do Amor”, Igor também participou da equipe de direção de “Mania de Você”, novela exibida na faixa das 21h.

Embora reconheça diferenças relacionadas à classificação indicativa dos horários, ele acredita que a linguagem de uma novela é determinada principalmente pela história que está sendo contada.

“‘Mania de Você’ era uma novela contemporânea que falava sobre obsessão, poder e desejo. Já ‘A Nobreza do Amor’ é uma fábula sobre uma princesa africana em busca de retomar seu trono. São universos completamente distintos. A primeira exigia uma estética ligada ao luxo, à riqueza e ao poder. A segunda funciona como um sonho, uma fábula que precisa encantar o público com uma estética quase mágica e onírica”, explicou.

Entre o entretenimento e a reflexão

A novela também vem se destacando por abordar conflitos políticos, sociais e raciais sem abrir mão do entretenimento. Para o diretor, esse equilíbrio começa no texto dos autores e se completa na construção das cenas.

“O importante é compreender quando a narrativa pede humor, emoção ou reflexão. Entender o terreno narrativo que cada cena propõe é fundamental para manter o ritmo da história, prender a atenção do público e, ao mesmo tempo, convidá-lo a refletir sobre questões políticas, sociais e raciais do nosso tempo”, avaliou.

A Nobreza do AmorDivulgação Globo

Os personagens que mais despertam expectativa

Entre os núcleos que mais têm despertado sua atenção nesta fase da trama, Igor cita personagens que ainda prometem movimentar a história.

“Estou louco para ver o Jendal (Lázaro Ramos) chegar a Barro Preto e interagir com os moradores da cidade. Também acompanho com muito interesse a trajetória de Mirinho (Nicolas Prattes) e Virgínia (Theresa Fonseca), que vão deixando de lado uma vilania mais juvenil para assumir contornos mais dramáticos e perigosos”, contou.

No entanto, é a história de Tonho (Ronald Sotto) e Alika (Duda Santos) que parece ocupar um lugar especial no coração do diretor.

“Tonho é um homem preto carinhoso, justo e leal. E a relação dele com Alika promove uma transformação muito bonita. Eu diria que é uma subversão da história do sapo que vira príncipe ao beijar a princesa. Aqui, é o príncipe que toma consciência da sua própria realeza ao beijar uma princesa que já sabe exatamente quem é. Essa é a curva narrativa que desejamos para a negritude brasileira: que ela reconheça sua história, seu valor e sua nobreza”, declarou.

Casal conquistou o público

Questionado sobre a repercussão da novela, Igor destacou o carinho do público por Tonhoe Alika. “Nós temos um público muito fiel, mas algo que me chamou atenção foi como Tonho e Alika se tornaram um casal aspiracional para tantas pessoas. Eles representam uma relação construída com amor, respeito e companheirismo. E acho muito importante que seja um casal preto ocupando esse lugar”, disse.

O diretor também relembrou a repercussão positiva de uma das cenas mais marcantes da trama. “O ritual de Dona Menina na gameleira em homenagem ao rei Cayman (Welket Bungué) foi um momento muito especial. Acho muito bonito como Zezé Motta representa essa realeza negra brasileira e como ela consegue emocionar e criar identificação com o público”, afirmou.

O papel estratégico da cultura brasileira

Ao analisar o cenário atual do audiovisual nacional, Igor adotou um tom enfático ao defender a cultura como instrumento fundamental para a construção da identidade brasileira.

“Vivemos um momento crucial para consolidar a indústria cultural e o audiovisual como elementos estratégicos para a soberania nacional. O mundo está passando por mudanças profundas, e a construção de uma identidade nacional ligada ao povo brasileiro é essencial nesse processo”, argumentou.

Para ele, fortalecer o setor exige investimentos permanentes e políticas públicas de longo prazo.

“Precisamos da regulamentação dos streamings e de uma política de Estado contínua para a cultura e o audiovisual, com recursos compatíveis com a importância estratégica dessa indústria para um país continental como o Brasil. A cultura ajuda a construir pertencimento, identidade e entendimento sobre quem somos enquanto nação”, concluiu.

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