Eduardo Martini expõe reflexos do luto em tour de force cênico

Eduardo Martini em O Último AtoMorgade

Quando subiu ao palco do Teatro União Cultural, em São Paulo, para a sessão de estreia de O Último Ato, o ator e diretor vencedor do Prêmio Bibi Ferreira Eduardo Martini encarou a plateia para explicar que, a despeito do anúncio de estreia, a peça escrita por Franz Keppler e dirigida por Elias Andreato, seria na verdade uma leitura encenada. Isso porque o ator estava acometido de uma infecção intestinal que o impedia, em sua própria avaliação, de fazer o espetáculo como concebido.

E foi com isso em mente que, a partir do terceiro sinal, Martini entrou em cena com texto na mão para dar vida a um engenheiro imerso na dor da antecipação da perda de seu companheiro, um pintor famoso que, sofrendo com os primeiros sintomas do mal de Alzheimer, opta pelo processo de eutanásia.

Escrita por Keppler a partir da história do poeta e filósofo Antônio Cícero (1945-2024), que se retirou de cena após vislumbrar o cenário de perda de memória. O dramaturgo, contudo, evita focar no processo de despedida da personagem e opta por refletir os efeitos do luto em seus amigos e, principalmente, em seu companheiro, cuja única opção é a de aceitar a partida.

A peça se passa na noite que antecede a viagem do casal a Portugal para uma despedida. Depois, a dupla vai para a Suíça, onde o processo deve ocorrer. Imerso em lembranças, a personagem de Martini traz para a cena a figura de amigos de longa data, também sofrendo com a antecipação da partida.

Mesmo se tratando de uma leitura encenada, a direção de Elias Andreato se faz presente em um registro econômico, configurada principalmente nos diálogos registrados em voz off entre a personagem de Martini e a caixa postal do celular do parceiro. Inclusive é justamente esse elemento que atravanca parte da fluidez da história.

O grande mérito da dramaturgia de O Último Ato, inclusive, está em aprofundar a relação das personagens e suas conexões humanas, sem necessariamente esbarrar em discussões políticas e sociais a respeito da eutanásia. A dramaturgia de Keppler trabalha essencialmente com o reconhecimento da plateia frente a personagens carismáticas, como a excelente Olga, que, sem nunca surgir em cena, se torna coadjuvante de peso.

Com desenho de luz, trilha e cenário discretos, O Último Ato se alicerça na força de um bom texto e do trabalho de Eduardo Martini, ator experiente, que na noite de 22 de janeiro desempenhou verdadeiro tour de force ao entrar em cena inseguro, mas ainda dono do jogo que domina como poucos de sua geração. 

Há em O Último Ato, inclusive, passo adiante na investigação do ator acerca das relações humanas, iniciada com comédias como Na Medida do Possível, Chá das Cinco e Dark Room e que chegou a seu ponto de maturação no drama Pra Você Lembrar de Mim, de Regiana Antonini.

O ator estabelece relação direta com o público, que se deixa levar pelas memórias bem desenvolvidas de sua personagem e a relação saborosa com os amigos e com o amor de sua vida. É momento bonito de uma peça que não quer tanger assuntos éticos, políticos ou mesmo filosóficos, optando por atingir a plateia naquilo que ela, refletida na população de um país, tem mais medo. A morte como ato irrevogável da vida.

COTAÇÃO: ★ ★ ★ (BOM)

SERVIÇO:

O Último Ato
Data: 22 de janeiro a 26 de fevereiro (quintas-feiras)
Local: Teatro União Cultural, São Paulo (SP)
Endereço: R. Mário Amaral, 209 – Paraíso
Horário: 20h
Preço do Ingresso: R$ 40 (meia) a R$ 80 (inteira)

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