O que leva um homem pacífico a cometer um ato extremo? A pergunta que move O Motociclista no Globo da Morte, peça estrelada por Eduardo Moscovis, em cartaz no palco do Teatro Vivo, encontra na dramaturgia de Leonardo Netto um desenvolvimento rigoroso, sem concessões fáceis.
O autor dá nesta obra um passo adiante na investigação sobre a violência que já marcava trabalhos anteriores, sobretudo o (ótimo) solo Três Maneiras de Tocar no Assunto, uma análise sobre a homofobia estrutural entranhada na sociedade.
O Motociclista aprofunda de certa forma essa reflexão ao observar como a brutalidade contemporânea se infiltra em gestos cotidianos, muitas vezes sem alarde.
A direção de Rodrigo Portella acompanha essa proposta com uma encenação econômica. Eduardo Moscovis permanece sentado durante todo o desenvolvimento da narrativa, expondo os acontecimentos com clareza precisa, evitando efeitos demonstrativos.
O foco recai no olhar do ator, que sustenta a dramaturgia com precisão minimalista. É um trabalho intimista, que repõe o ator no lugar de grandeza que assumiu ao co-estrelar a já histórica montagem de Rafael Gomes para o clássico Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams (1911-1983) em 2015.
Essa contenção formal se estende aos elementos visuais com um luz estática assinada por Ana Luzia de Simoni, que sublinha a atmosfera de tensão contínua construída pelo texto de Netto e funciona como parte complementar do cenário.
Nada sobra em O Motociclista no Globo da Morte, e essa depuração contribui para que a tragédia urbana proposta pelo texto ganhe densidade sem recorrer a sublinhados excessivos.
No centro da peça está a transformação de um homem racional (um matemático que evita conflitos) em alguém envolvido numa espiral de violência após a morte cruel de um cachorro, derivado de uma sucessão de violências sociais em um micro espaço e tempo.
A narrativa evita explicações simplistas e propõe, de forma indireta, a tese incômoda de que a violência moderna talvez não seja exceção, mas extensão do convívio social. Ao tratar o tema com sobriedade, o espetáculo mantém a discussão aberta.
Sem grandiloquência, O Motociclista no Globo da Morte se afirma como um dos grandes espetáculos da temporada. A dramaturgia sólida ganha peso com uma direção discreta, mas muito presente. Moscovis conduz o monólogo com precisão rara e com a inteligência cênica de, com movimentos também discretos, prender a atenção constante do público.
A obra corre o risco de, mergulhada em minimalismos, pode soar austera, mas reforça a ideia central da dramaturgia de se manter atento para perceber o quanto a violência ao nosso redor pode ser prosaica, comum e presente.













