Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.
Os domingos de verão da juventude de Fernando Louza, de 75 anos, foram épicos na Barra da Tijuca – antes mesmo de o bairro da zona sudoeste do Rio de Janeiro existir. Nos idos de 1960, a silenciosa região se estendia em propriedades rurais, poucas casas e ruas de terra batida (o Plano de Urbanização de Lúcio Costa resultou na construção dos condomínios inaugurados em 1980). O ambiente pacato, no entanto, ia para o espaço aos domingos – dia de corrida no Circuito da Barra da Tijuca, uma pista de rua temporária que rasgava a antiga Avenida Sernambetiba (hoje Avenida Lúcio Costa) e a Avenida das Américas, um clássico do automobilismo carioca.
Ali, roncavam alto os motores de DKW-Vemaguet, Willys Interlagos Berlinetta e Simca Chambord. O lugar funcionou como palco de grandes astros do esporte, como Chico Landi (1907-1989), Bird Clemente (1937-2023) e Emerson Fittipaldi, hoje com 78 anos. E foi nesse cenário que um dos mais renomados fotógrafos de moda do Brasil iniciou sua história de enquadrar e clicar à perfeição.
“Adorava as corridas de carro na Barra da Tijuca e torcia loucamente pela equipe DKW-Vemaguet, principalmente pelo piloto Bird Clemente”, revela Fernando, flamenguista “de corpo e alma”, que morava em Copacabana e atualmente vive em Higienópolis, São Paulo. “Comecei a fotografar com uma Lubitel 2, uma câmera soviética que ganhei do meu pai quando eu tinha 17 anos.” Os domingos com a família (pai dentista, mãe dona de casa, um irmão e uma irmã) e amigos incluíam ainda banhos de mar e um hobby que o acompanha até hoje: frescobol.
Depois dos cliques no Circuito da Barra da Tijuca, o rapaz que sonhava em ser piloto de avião começou a perceber que gastava horas e horas folheando revistas de moda nas bancas – tinha especial atração pelo trabalho do fotógrafo norte-americano Neal Barr (1931-2015). “Me considero um autodidata, que foi aprendendo com a vida. Mas, bem novo, estudei fotografia com Nelson di Rago, ficava no estúdio dele, meio-dia a gente parava de trabalhar, ia pro Arpoador, jogava frescobol, passava no Polis Sucos para almoçar e voltava a trabalhar à tarde.”
Na época, meados de 1970, ele já atuava no encarte Ela, do jornal O Globo, onde publicou o seu primeiro ensaio de moda, chamado pela lendária editora Nina Chavs (com quem também trabalharia na fase em que viveu em Paris). A partir daí, não parou mais de colaborar para revistas (Vogue, Marie Claire, Claudia, Elle, Interview); de fotografar passarelas; e de viajar – outra grande paixão.
“Ele começou a ficar famoso porque foi pioneiro em fotos de desfiles internacionais, como Paris e Milão, em uma época que os brasileiros não eram convidados para estes eventos”, conta o jornalista Mario Mendes, de 66 anos de idade e 40 de profissão, um dos pilares do jornalismo de cultura pop e comportamento, colaborador da ForbesLife Fashion.
“Conheci o Fernando quando estava na revista Interview em 1979, lembro que ele trouxe uma entrevista com Dalma Calado [considerada uma das primeiras top models brasileiras], a primeira a ganhar mil dólares por dia, o que era uma coisa do outro mundo.” Na lista de modelos que fizeram a história da moda nacional, também estiveram na mira das lentes de Fernando: Betty Lago, Andrea Dellal e Silvia Pfeifer. “Mais pra frente nos encontramos na Elle, aí ele já era um grande nome da fotografia, parceiro da Regina Guerreiro, e depois na Daslu – Fernando sempre teve uma visão muito particular; ele pega aquela coisa mais classuda da moda e tempera com uma pimenta brasileira”, explica Mario, professor no assunto.
Entre os desfiles mais emblemáticos, Fernando Louza cita Yohji Yamamoto, Issey Miyake, Thierry Mugler, Claude Montana e Chanel por Karl Lagerfeld.
As 10 imagens mais emblemáticas do acervo de Fernando Louza, segundo ele mesmo, para a Forbes Brasil










Havana e Salvador
Já entre os países favoritos, Cuba se destaca. “Adoro a energia da ilha e do povo cubano. Sem falar da água turquesa do mar. Ah! Amo a música cubana. Toco cajon, originário do Peru, mas muito tocado na ilha, assim como tumbadora [outro instrumento de percussão]. Meu lugar predileto em Havana é a Casa de la Musica.”
No Brasil, é encantado pela capital baiana. “Salvador e Havana têm uma energia parecida. Em alguns lugares, ao fechar os olhos é possível me teletransportar para Havana.” Quem o levou para fotografar em Salvador foi Paulo Borges, fundador e diretor criativo da São Paulo Fashion Week, evento de 30 anos de tradição que Fernando tem lugar cativo.
“Fernando é um apaixonado pelo que faz”, resume Paulo sobre o amigo desde 1980. “Conheceu de perto tudo de moda. Ele adora fotos externas, de preferência com luz natural. Suas imagens carregam sensualidade e são extremamente sofisticadas.” Dois nomes que alcançaram fama nacional e foram próximas de Fernando: Xuxa e Luiza Brunet. “No início da carreira delas, chegaram a se hospedar em casa; fizemos muitos trabalhos juntos”, conta o fotógrafo.
Maria Rita Alonso, diretora de redação da Marie Claire, ressaltou que Fernando “tem a capacidade de unir a moda e arquitetura, com paisagens encantadoras, e faz isso de uma forma muito poética e impactante – ele é um esteta.” Redatora-chefe da Vogue, Maria Laura Neves, sublinha as palavras de sua xará. “O Fê é um mestre. Ele é um dos nomes mais importantes e longevos da moda brasileira, uma indústria em que alguns nomes pipocam, mas poucos se mantêm – mas o Fê tem essa trajetória imensa, trabalhando para revistas e marcas, grande nome de capas históricas de moda. A primeira vez que o vi em ação fiquei impressionada com seu perfeccionismo – é um nível de entrega, de detalhismo e de minúcias que faz o trabalho dele ser exemplar. Fernando é um admirador da beleza feminina, tem devoção pela mulher.”
Se na juventude um domingo especial era sinônimo de corrida de carro na Barra e frescobol, agora, em São Paulo, com mais de 50 anos de profissão, o domingo perfeito tem outra programação para Fernando Louza: “Assistir a uma ótima série com minha namorada e com o Grum, o cachorro dela, que eu adoro! Um cachorro nota mil, acrobata, dá altos pulos, muito engraçado.”
O post Fernando Louza: Cinco Décadas Que Moldaram o Olhar da Moda Brasileira apareceu primeiro em Forbes Brasil.














