Janguiê Diniz*
Recentemente, ao refletir sobre o cenário político-eleitoral que se desenha no país, me peguei pensando em que medida os candidatos à Presidência da República estão, de fato, preocupados com o futuro das políticas públicas de financiamento da educação superior. A inquietação parece simples, mas ganha relevância à medida que o país se aproxima de mais uma eleição presidencial.
Embora o período oficial de campanha ainda não tenha começado, é público e notório que a disputa eleitoral já está em curso. Com maior ou menor intensidade, os pré-candidatos ocupam espaços nas propagandas partidárias, nas redes sociais, em eventos públicos e no noticiário político. Aos poucos, os temas que deverão pautar o debate nacional até outubro começam a ser apresentados à população.
Boa parte dessas discussões têm girado em torno de assuntos que alimentam a polarização política que se consolidou no Brasil nos últimos anos. As divergências ideológicas, os embates entre grupos políticos e as disputas narrativas seguem dominando o debate público. Enquanto isso, questões estruturantes para o desenvolvimento do país estão sendo escanteadas, mesmo quando afetam milhões de brasileiros.
E isso chama ainda mais atenção quando observamos o que pensam os próprios eleitores. Pesquisa Datafolha divulgada em março de 2026 mostrou que a educação está entre os principais problemas do país na percepção da população. O tema foi citado por 9% dos entrevistados, ocupando a quarta posição no ranking, empatado com a corrupção. À frente aparecem apenas saúde (21%), violência e segurança pública (19%) e economia (11%).
Se a educação está entre as principais preocupações dos brasileiros, seria natural que ela ocupasse espaço de destaque nos discursos dos futuros candidatos ao Palácio do Planalto. No entanto, o que se observa até o momento é uma preocupante ausência de debates sobre políticas públicas capazes de ampliar o acesso, garantir a permanência e fortalecer a formação de milhões de estudantes.
Esse silenciamento é especialmente preocupante quando analisamos a realidade da educação superior brasileira. Atualmente, cerca de 80% das matrículas estão concentradas em instituições privadas. Isso significa que qualquer debate sério sobre ampliação do acesso ao ensino superior passa pelo fortalecimento de mecanismos que permitam aos estudantes ingressar e permanecer nessas instituições.
Nesse contexto, programas como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa Universidade para Todos (ProUni) assumem papel estratégico. Ambos constituem políticas consolidadas de democratização do acesso ao ensino superior e representam, para milhões de brasileiros, a única possibilidade concreta de cursar uma graduação.
Enquanto o ProUni oferece bolsas integrais e parciais para estudantes que atendem aos critérios socioeconômicos estabelecidos, o Fies financia percentuais variados das mensalidades, pagos pelos estudantes após a conclusão do curso. Um ponto relevante é que, há quase uma década, o Fies passou por uma profunda reformulação que retirou o caráter social do programa, transformando-o em uma política essencialmente financeira.
Não se trata de discutir apenas a manutenção desses programas. O desafio é muito maior. O Brasil apresenta indicadores distantes das metas de acesso à educação superior. Milhões de jovens concluem o ensino médio e não conseguem ingressar na graduação. Outros tantos abandonam os estudos por dificuldades financeiras. Em um cenário de profundas desigualdades econômicas e sociais, políticas de financiamento e apoio estudantil deixam de ser apenas instrumentos educacionais e passam a representar mecanismos de mobilidade social, geração de renda e desenvolvimento econômico.
Por isso, é legítimo perguntar: quais são as propostas dos pré-candidatos para o futuro dessas políticas? Há planos para ampliar o alcance do ProUni? Existe alguma estratégia para fortalecer o Fies e recuperar seu caráter social? Como garantir previsibilidade orçamentária para esses e outros programas nos próximos anos? Quais medidas serão adotadas para assegurar que estudantes de baixa renda possam não apenas ingressar, mas concluir sua formação?
São perguntas fundamentais que ainda aguardam respostas claras e objetivas. Afinal, esse é um debate que vai muito além de assegurar o direito à educação previsto na Constituição Federal. Trata-se de debater o futuro do país, sua capacidade de gerar conhecimento, impulsionar a inovação, aumentar a produtividade, fortalecer a competitividade econômica, formar profissionais qualificados e reduzir desigualdades sociais historicamente persistentes.
As eleições presidenciais representam uma oportunidade para que o país reflita sobre seu projeto de futuro. Nesse debate, a educação superior precisa ocupar posição central. Mais do que slogans ou discursos genéricos, precisamos de propostas concretas para garantir que milhões de brasileiros continuem encontrando no ensino superior uma oportunidade real de transformação de vida. O silêncio em torno desse tema, até aqui, é preocupante. Resta a expectativa de que, até outubro, a educação ganhe o reconhecimento que merece. Para o bem de todos os brasileiros, independentemente da corrente política.
*Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES); secretário-executivo do Brasil Educação – Fórum Brasileiro da Educação Particular; fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional; presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.









