Nico Puig, 53, é lembrado até hoje por seus papéis marcantes em produções como “Sex Appeal” (1993) e “Olho no Olho” (1993), onde deixou sua marca. Cheio de energia e com um currículo extenso de trabalhos publicitários e novelas na TV Globo e Record, o ator, que começou sua carreira antes dos 15 anos, hoje leva uma vida mais tranquila ao lado do marido, Jefferson Lattari.
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Em conversa exclusiva com o iG, o artista, que está casado há quase 30 anos, falou sobre sustentar o rótulo de ‘sex symbol’ e viver uma vida dupla por trás das câmeras. Ao comentar sobre como era lidar com isso no dia a dia, o famoso foi sincero:
Sem a criminalização da homofobia, que passou a valer apenas em 2019, Nico explicou que adotou esse personagem, que rapidamente ganhou espaço na mídia. “Fiz mais de 150 comerciais, quase todos enaltecendo o menino mulherengo e cheio de marra. Mal sabiam que, por dentro, eu era frágil, inseguro e com a autoestima baixa. Quanto mais trabalhos fazia, fossem comerciais ou impressos, mais me sentia uma fraude prestes a ser descoberta e, possivelmente, execrada”, disse.
Ao revisitar o passado, o ex-ator da Globo confessou ter enfrentado momentos conturbados, em que chegou a cogitar colocar um fim no próprio sofrimento, por não encontrar outra saída.
Apesar de enfrentar muita insegurança, em 1997, Nico Puig abriu uma nova porta em “Você Decide” ao participar do episódio intitulado: “Gay, quando eles amam”. Ainda que tenha sentido um misto de alegria e euforia, ele admitiu ter sentido medo de “abrir espaço para questionamentos”.
“Cheguei a achar que seria meu último trabalho, mas procurei fazê-lo ainda melhor, sonhando em ter uma resposta positiva do público. Mas não… o público decidiu separá-los [os personagens]. Me lembro bem de assistir ao episódio junto ao Jeff, meu marido, e, quando vi o resultado da votação, nos abraçamos aos prantos. Nós dois choramos tanto que tremíamos. Só de lembrar, eu me emociono”, revelou.
“Nunca imaginei que aquela história de amor fosse condenada e não aceita. Jeff e eu choramos abraçados por um longo tempo, entendendo que aquele veredito se aplicava a nós: ‘Nunca seremos aceitos’. Foi triste. Fiquei pensando em quantos jovens viram, se identificaram e compartilharam da triste realidade daquela sociedade”, declarou.
Assim como outros galãs, como Carmo Dalla Vecchia, Reynaldo Gianecchini e Tuca Andrada, Nico Puig não falava sobre sua sexualidade de forma aberta, com medo das represálias e até mesmo de perder papéis importantes na TV, o que era comum contra o público LGBTQIAP+.
Ao falar sobre esse ódio escancarado, é importante lembrar que o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas LGBT+. Em 2025, o país registrou 257 mortes violentas de pessoas da comunidade LGBT+, ou seja, a cada 34 horas, uma pessoa desse grupo foi assassinada, conforme relatório anual do Grupo Gay da Bahia.

Ainda nesse contexto, Nico refletiu sobre o momento em que se assumiu ao lado do marido. “Apresentar o Jeff às mídias foi algo pensado, planejado e consciente de que ‘sabe-se lá como seria’. E foi. Alguns aplaudiram, outros se afastaram. Cansamos de ouvir piadas preconceituosas e ameaças reais. De forma figurada, muitos atiraram pedras. Perdi trabalhos. Fui julgado não só pela minha escolha, mas também desclassificado enquanto profissional”, relembrou.
“Engraçado que pessoas que falavam antes que eu era uma ‘promessa’ na área mudaram de opinião do dia para a noite; diziam que eu não era bom o suficiente [risos]. Falaram tantas coisas ruins que acho que até me convenceram de que, de fato, eu não merecia estar onde cheguei”, confessou.
Em meio ao ódio e preconceito, o ex-galã contou que seu companheiro chegou a se sentir culpado pela situação em que se encontravam. “E eu fiquei triste em vê-lo daquele jeito. Não existia culpa. Mas a gente só tinha 23 anos, éramos inseguros com a maldade alheia. Decidimos fugir e ir morar em São Francisco, nos Estados Unidos. Para isso, precisávamos de dinheiro e, por convite da Ana Fadigas, encontramos a possibilidade financeira para essa fuga romântica”, disse.

No entanto, esse período longe não durou muito, já que Nico percebeu que ficar distante da mãe não seria o ideal, pois ela lutava contra a esclerose múltipla. “Voltamos, então. Confiantes, mas sem muitas expectativas profissionais. Pensamos: ‘Vamos nos reinventar'”, completou.
Casamento e aceitação
Ao comentar sobre seu casamento, que foi oficializado em 2015, o ex-ator deixou claro que isso os fortaleceu como casal e como pessoas. “Apresentar meu marido à minha família, e ele me apresentar à dele, nos fortaleceu. Ambas as famílias nos receberam muito bem e, inclusive, se tornaram próximas, frequentando-se e confraternizando muitas vezes todos juntos. Claro que alguns aceitaram melhor que outros, mas o tempo resolveu essas diferenças”, afirmou.

É importante destacar, no entanto, que uma pesquisa da organização Gênero e Número, com apoio da Fundação Ford, indica que, a cada dez pessoas do público LGBTQIAPN+, seis são agredidas verbalmente ou fisicamente pelos próprios parentes.
Ao falar sobre a nova geração e atores assumidos, ele refletiu sobre a importância de viver sua verdade hoje e sobre ter aberto portas para outros profissionais. “Espero, sim, ter aberto portas ou ter sido um exemplo de resiliência. Mas sei também que sou privilegiado, mesmo achando um absurdo esses privilégios que deveriam ser de todos. Todos somos especiais, únicos. Todos temos sentimentos, inseguranças e sonhos. Todos temos direito de ser felizes, cada qual com sua bagagem”, declarou.
“Juntos somos mais fortes, não para lutar, mas para mostrar que merecemos o melhor. Na vida, nosso maior comprometimento é sermos felizes, independentemente de qualquer posição social, financeira, raça ou credo. Precisamos levantar a bandeira da empatia; o mundo precisa desta bandeira cravada em todos os lugares. O que incomoda tanto a nossa existência?”, questionou.
Ainda sobre as dificuldades na juventude, Nico Puig confessou ter perdido muito tempo se escondendo e com medo de ser quem realmente era:
Embora tenha enfrentado momentos difíceis, o ex-ator mostrou que soube se reinventar. Nico começou sua carreira no design, onde resgata o que é descartado. Ao fazer um paralelo sobre sua nova profissão e sua carreira artística, ele admitiu ter se sentido “descartado”, assim como os objetos com que trabalha hoje.
“Foi, e ainda é, difícil. Me senti como algo descartado. Sofri. Mas pensei: ‘Se me jogaram no lixo, vou sair daqui tirando tudo o que eu possa reaver, reinventar, reciclar e repaginar minha vida’. Estou utilizando o que alguns entendem como lixo, porque tudo depende de quem se refere e como enxerga a vida. Eu tenho consciência de que não sou lixo, mesmo que alguns assim me vejam”, reforçou.

“Quase tudo pode se transformar em algo útil e bonito; só depende do olhar de quem se volta para realmente ver e reconhecer valor onde muitos, infelizmente, são cegos. A beleza está no coração e nos olhos de quem sabe respeitar e admirar as diferenças. Se tudo e todos fossem iguais, não nos reconheceríamos. Seríamos todos padronizados, feitos bonecos fabricados”, disse.
Por fim, Nico Puig mandou um recado especial para seu eu mais jovem: “Se o menino Nico, lá dos anos 90, me pedisse um conselho, o Nico de hoje diria: ‘A vida é uma só. Faça a cada dia o seu melhor. Não espere nada do outro, mas ame sempre a si mesmo e a quem te mereça. Você é singular e, ao contrário do que dizem por aí: ninguém é substituível'”.











