‘Habitat’, com Fernanda de Freitas, expõe tensões do cancelamento

Elenco da peça HabitatKim Leekyung

A morte de um cachorro nas dependências de uma unidade do supermercado Carrefour, em novembro de 2018, em Osasco (SP), gerou forte repercussão nacional. Imagens do animal, que teria sido envenenado após sofrer maus-tratos, circularam nas redes motivando protestos, investigações e debates sobre violência, responsabilidade corporativa e a forma como a opinião pública se mobiliza diante de tragédias.

É desse episódio que bebe a dramaturgia de Habitat, novo texto do ator, diretor e dramaturgo Rafael Primot que cumpre temporada no palco do Teatro Estúdio, no Centro de São Paulo. Longe de ser uma reconstituição factual, a dramaturgia usa do episódio como ponto de partida simbólico, deslocando o foco do caso concreto para a engrenagem social que se forma em torno dele. 

Primot discute a velocidade dos julgamentos digitais, a cultura do cancelamento e uma sensibilidade contemporânea que, ao mesmo tempo em que amplia o cuidado com os animais, ainda revela dificuldade em lidar com violências humanas mais complexas. O texto evita sentimentalismo fácil e tensiona essa contradição sem oferecer respostas simplificadoras.

Habitat se sustenta em um trio de intérpretes particularmente afinado. Presença bissexta nos palcos de São Paulo, Fernanda de Freitas surge como a grande surpresa da montagem, com uma presença cênica segura na construção de uma jornalista e ativista que mergulha com intensidade auto indulgente na luta pelos direitos dos animais.

Veterano do elenco, Rogério Britto imprime precisão contida ao empresário de escrúpulos maleáveis, mas é em Rafael Primot, na pele do segurança de uma loja, que a ação se concentra.

O ator, que coleciona excelentes trabalhos no palco, como os recentes A Herança, Um Pequeno Acidente e o autoral Baby – Você Precisa Saber de Mim, atinge ápice cênico ao compor uma personagem densa que não recorre em nenhum momento a caricatura. Habitat também é seu texto mais expressivo desde o supracitado Baby, evitando atalhos dramatúrgicos comuns ao tratar de um tema tão sensível.

A direção, dividida entre Lavínia Pannunzio e Eric Lenate, aposta em um ritmo intenso e em ambientes permanentemente tensionados. Em alguns momentos essa aceleração se torna excessiva e gera certa fadiga sensorial, mas a encenação encontra sustento na dramaturgia. Luz, trilha e cenário trabalham de forma integrada.

O desenho de luz de Sarah Salgado e a trilha de LP Daniel ajudam a conduzir a narrativa, enquanto o cenário cria ambiência levemente onírica que amplia o campo simbólico da discussão.

No conjunto, Habitat funciona menos como denúncia direta e mais como reflexão sobre como reagimos às crises coletivas. A peça confirma Rafael Primot em fase madura como dramaturgo e ator, além de evidenciar um elenco em sintonia, numa montagem que atinge a relevância ao discutir, sem simplificações, o modo como selecionamos e construímos nossas indignações públicas.

COTAÇÃO: ★ ★ ★ ★ (ÓTIMO)

SERVIÇO:

Habitat
Data: 13 de janeiro a 5 de março
Local: Teatro Estúdio, São Paulo (SP)
Endereço: R. Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos, região central
Horário: Terça a quinta às 20h
Preço do ingresso: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia).

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