Inteligência artificial acelera o comércio exterior

Lucas CongoAcervo pessoal

A inteligência artificial deixou de ser uma tendência para se tornar uma ferramenta presente na rotina do comércio exterior.

Processos que antes exigiam horas de análise documental, conferência de informações e cruzamento de dados passaram a ser executados em poucos minutos por sistemas capazes de identificar inconsistências, prever atrasos logísticos e apoiar decisões estratégicas.

O avanço da tecnologia ocorre em um momento de expansão das operações internacionais.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a corrente de comércio brasileira alcançou US$302 bilhões no primeiro semestre de 2025, o maior resultado da série histórica para o período.

Foram US$166 bilhões em exportações e US$136 bilhões em importações, números que refletem o aumento da movimentação internacional e a busca das empresas por operações cada vez mais eficientes.

Nesse cenário, ferramentas de inteligência artificial começam a ganhar espaço em diferentes etapas do comércio exterior, desde a análise documental até o planejamento logístico e tributário.

Para especialistas, no entanto, o avanço da tecnologia deve ser acompanhado de supervisão técnica para evitar falhas que podem gerar custos elevados.

Para Lucas Congo, especialista em comércio exterior, planejamento tributário e CEO do Grupo Platina 8, a principal contribuição da inteligência artificial está na capacidade de transformar grandes volumes de informações em análises rápidas, permitindo que empresas tomem decisões mais estratégicas.

“A inteligência artificial consegue analisar milhares de informações em poucos segundos e identificar padrões que seriam praticamente impossíveis de perceber manualmente. Isso aumenta a eficiência das operações, mas não elimina a necessidade de conhecimento técnico. No comércio exterior, a responsabilidade pela decisão continua sendo das pessoas.”

Uma das áreas que mais vem sendo impactada é a conferência documental.

Operações internacionais envolvem documentos como fatura comercial, packing list, certificado de origem, conhecimento de embarque, licenças e declarações aduaneiras.

Plataformas baseadas em inteligência artificial conseguem comparar automaticamente essas informações e identificar inconsistências antes mesmo da carga seguir viagem.

Outro avanço importante acontece na logística internacional.

Com base em dados de portos, transportadoras, condições climáticas e histórico de embarques, sistemas inteligentes conseguem prever atrasos, estimar tempos de trânsito e sugerir rotas alternativas para minimizar impactos na cadeia de suprimentos.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, a inteligência artificial já é utilizada para aumentar a eficiência logística, fortalecer a gestão de riscos e tornar as cadeias globais de suprimentos mais resilientes diante de eventos inesperados.

Para Lucas Congo, essa capacidade de antecipação representa um dos maiores benefícios da tecnologia.

“Quando uma empresa consegue identificar um possível atraso antes que ele aconteça, ela ganha tempo para reorganizar estoques, renegociar prazos e reduzir impactos financeiros. Essa previsibilidade faz diferença em operações internacionais.”

A inteligência artificial também começa a ser utilizada como ferramenta de apoio na análise tributária e na classificação fiscal de mercadorias.

Atualmente, diversas plataformas conseguem sugerir códigos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) a partir da descrição de um produto.

Apesar da praticidade, especialistas alertam que essa etapa exige atenção.

A classificação fiscal depende de fatores técnicos, como composição, finalidade, aplicação e enquadramento legal de cada mercadoria.

Um erro pode resultar em recolhimento incorreto de tributos, perda de benefícios fiscais, retenção de cargas e autuações.

“A inteligência artificial é excelente para acelerar pesquisas e organizar informações, mas não pode substituir a análise técnica. Uma classificação fiscal incorreta pode gerar prejuízos significativos para a empresa”, afirma Lucas Congo.

O uso da inteligência artificial não se limita ao setor privado.

Autoridades aduaneiras de diversos países também passaram a utilizar algoritmos para análise de riscos, identificação de padrões suspeitos e direcionamento de fiscalizações.

A Organização Mundial das Aduanas (OMA) aponta que essas tecnologias vêm ampliando a capacidade das administrações aduaneiras de identificar inconsistências e tornar os processos de fiscalização mais eficientes.

Ao mesmo tempo em que fortalece os mecanismos de controle, a inteligência artificial também amplia o acesso das pequenas e médias empresas a ferramentas que antes estavam restritas às grandes multinacionais.

Recursos para tradução automática, pesquisa internacional de fornecedores, organização documental e análise de mercado passaram a fazer parte da rotina de negócios de diferentes portes.

Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o mercado global de inteligência artificial deverá crescer de US$189 bilhões, registrados em 2023, para aproximadamente US$4,8 trilhões até 2033, consolidando-se como uma das tecnologias de maior impacto econômico da próxima década.

Para Lucas Congo, esse crescimento tende a acelerar a transformação digital do comércio exterior, mas não reduzirá a importância dos profissionais especializados.

“A tecnologia continuará evoluindo, mas continuará sendo necessário entender legislação, tributação, logística e estratégia internacional. A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa para apoiar decisões, não para substituir o conhecimento humano.”

Na avaliação do especialista, empresas que conseguirem integrar inteligência artificial, organização de processos e equipes qualificadas terão melhores condições de competir em um mercado cada vez mais dinâmico e conectado.

“Mais do que automatizar tarefas, o grande desafio será utilizar a inteligência artificial de forma estratégica, transformando dados em decisões mais rápidas, seguras e eficientes. No comércio exterior, velocidade é importante, mas segurança continua sendo indispensável.”

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