Irã quer transformar conflito militar com EUA em guerra econômica, diz especialista

Trump afirmou que os EUA irão controlar o Estreito de Ormuz e bloquear o acesso aos portos iranianos.

Reuters via BBC

O Estreito de Ormuz é hoje a principal fonte de influência estratégica e de dissuasão do Irã em seu conflito com os Estados Unidos e por isso Teerã tenta transformar o conflito militar em uma guerra econômica. A avaliação é de Mehran Kamrava, cientista político e professor da Universidade de Georgetown no Catar, em entrevista à BBC.

Kamrava afirma que o chamado “Eixo da Resistência” do Irã — que inclui grupos como o Hamas, em Gaza, o Hezbollah, no Líbano, e os houthis, no Iêmen — está desarticulado, ou pelo menos militarmente enfraquecido, em consequência da guerra. Por isso, o Estreito de Ormuz ganhou importância estratégica para os iranianos.

“Para o Irã, o Estreito de Ormuz é uma importante fonte de influência estratégica e sua principal fonte de dissuasão”, disse Kamrava ao programa Today, da Rádio 4 da BBC, nesta terça-feira (14/07).

Segundo o professor, o Irã “tem plena consciência” de que não pode enfrentar os EUA em condições de igualdade em uma guerra.

“Por isso, o Irã procura transformar um conflito militar em um conflito econômico. É justamente por essa razão que deseja manter sua influência sobre o Estreito de Ormuz.”

Como resposta, Kamrava acredita que os EUA estão “determinados a retirar do Irã o controle do estreito”, mas ele acha que ninguém sabe exatamente como isso pode ser feito — “nem mesmo os estrategistas do Pentágono”.

“Já vimos o presidente dos EUA tentar diversas abordagens, e parece que os americanos agora estão adotando uma estratégia diferente. Eles estão atacando locais altamente estratégicos ao longo da costa sul do Irã, no Golfo Pérsico”, afirma o professor da Universidade de Georgetown

“Se isso poderá eventualmente levar a uma invasão terrestre da Ilha de Kharg ou de alguma outra ilha iraniana é algo que precisaremos acompanhar de perto.”

O professor avalia que tanto o Irã quanto os EUA querem que o conflito chegue ao fim, mas ambos insistem que isso precisa acontecer nos seus próprios termos.

“Países como Omã, Catar e Paquistão estão fazendo o que podem para incentivar uma mediação. Seja por meio do memorando de entendimento já assinado ou de alguma versão dele, os dois países reconhecem a necessidade de chegar a algum tipo de solução negociada”, diz Kamrava. “O que exatamente isso significará, no entanto, ainda está indefinido.”

O conflito entre Irã e EUA está tendo repercussões negativas na região, segundo o professor. Ele afirma que países como Catar e Emirados Árabes Unidos passaram as últimas décadas construindo uma imagem de segurança, estabilidade e prosperidade.

“E tudo isso está sendo abalado pelo que parece ser uma escalada involuntária do conflito. A frente envolvendo a Arábia Saudita e os houthis voltou a se intensificar. Se os houthis decidirem fechar o Estreito de Bab el-Mandeb [outra via marítima crucial para a economia global], poderemos estar diante de uma nova escalada significativa. Estamos vivendo um momento extremamente delicado.”

Bloqueio americano em Ormuz

O presidente americano, Donald Trump, afirmou na segunda-feira que os EUA irão controlar o Estreito de Ormuz e bloquear o acesso aos portos iranianos, alegando que o Irã violou um acordo firmado com o país.

Segundo Trump, o estreito permanecerá aberto, mas o controle americano impedirá que “navios iranianos ou seus clientes entrem ou saiam”.

Em comunicado divulgado no X, o Comando Central dos EUA (Centcom) informou que o bloqueio entrará em vigor nesta terça-feira (14/7) às 17h (horário de Brasília).

Os EUA lançaram ataques contra o Irã pela terceira noite consecutiva na segunda-feira, em meio à escalada das hostilidades entre os dois países.

Os Emirados Árabes Unidos acusaram o Irã de um ataque “audacioso” a dois navios-tanque no Estreito de Ormuz, que deixaram um tripulante morto e oito feridos — quatro deles gravemente.

Trump também anunciou uma taxa de 20% sobre toda a carga transportada pelo estreito, mas não explicou como isso funcionaria. O dinheiro arrecadado, segundo Trump, seria para bancar a operação americana na via navegável essencial ao comércio de petróleo mundial.

“O Estreito de Ormuz está aberto, e permanecerá aberto, com ou sem o Irã. Estamos restabelecendo o bloqueio ao Irã — assim chamado porque impede apenas que navios ou clientes do Irã entrem ou saiam”, escreveu o presidente americano, em publicação na sua rede social Truth Social.

“Os EUA serão, daqui em diante, conhecidos como ‘o guardião do Estreito de Ormuz’; no entanto, nessa condição — e por uma questão de Justiça—, serão reembolsados (à taxa de 20% sobre toda a carga transportada) por todos e quaisquer custos necessários para garantir a segurança e a proteção desta região do mundo, que é extremamente instável”, disse Trump.

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