Itaú amplia benefícios de cartões Uniclass; difícil é entendê-los

Itaú aumentou pontuação dos cartões Uniclass Mastercard Black e Visa InfiniteImagem gerada por IA

Os grandes bancos estão apostando uma nova forma de disputar os clientes de renda média alta. Em vez de simplesmente oferecer mais pontos ou mais acessos a salas VIP, passaram a atrelar esses benefícios ao relacionamento do consumidor com a instituição. O cartão de crédito deixou de ser o protagonista e virou apenas uma das peças de um ecossistema que envolve investimentos, movimentação financeira e fidelização.

A reformulação dos cartões Itaú Uniclass Mastercard Black e Visa Infinite, apresentada nesta terça-feira (29), é um dos exemplos mais recentes dessa estratégia. O pacote de benefícios ficou mais competitivo. O problema é que, junto com ele, cresceram também a quantidade de regras e o esforço exigido do cliente para alcançar as principais vantagens.

O novo posicionamento do Itaú no segmento Uniclass pode ser resumido da seguinte forma: os benefícios existem, mas precisam ser conquistados.

A pontuação pode chegar a até 2,5 pontos por dólar gasto. Os clientes também podem obter quatro acessos anuais a mais de 1.400 salas VIP e diferentes formas de isenção da mensalidade do cartão. No entanto, praticamente nenhuma dessas vantagens é automática.

O acesso às salas VIP, por exemplo, depende da participação no programa Minhas Vantagens. Clientes no nível 5 recebem os quatro acessos anuais independentemente do valor da última fatura. Já quem está entre os níveis 1 e 4 precisa ter registrado uma fatura de pelo menos R$ 4 mil para receber exatamente o mesmo benefício.

A mensalidade segue lógica semelhante. Nos cartões Black e Infinite, o valor é de R$ 80 por mês, mas pode ser reduzido em 50% para clientes com faturas entre R$ 4 mil e R$ 7.999. A isenção integral pode ser obtida por três caminhos diferentes: gastar ao menos R$ 8 mil por fatura, manter R$ 50 mil em investimentos no Itaú ou atingir o nível 4 do programa Minhas Vantagens.

Sob a ótica do banco, a estratégia faz sentido. Quanto maior o relacionamento do cliente com a instituição, maior a probabilidade de que ela se torne seu banco principal — conceito conhecido no mercado como “principalidade”.

Em vez de recompensar apenas quem usa o cartão, o Itaú passa a incentivar que o consumidor concentre patrimônio, gastos e outros produtos financeiros na mesma instituição.

Para o consumidor, porém, a conta é mais complexa.

Cartões melhores, mas difíceis de entender

Cada benefício segue uma lógica diferente. A mensalidade possui uma regra. As salas VIP seguem outra. A pontuação máxima, outra. Em vez de uma estrutura única, o cliente precisa navegar por diferentes critérios para descobrir quanto realmente precisará concentrar no banco para acessar cada vantagem.

Esse problema fica evidente justamente na principal promessa da campanha.

A página do Itaú informa que o cliente pode acumular “até 2,5 pontos por dólar” ao participar do programa Minhas Vantagens e registrar uma fatura a partir de R$ 4 mil. Em um programa com vários níveis, não custaria nada detalhar isso, ainda que em uma nota de rodapé.

A dificuldade não se limita à página do cartão. O próprio ambiente dedicado ao Minhas Vantagens também não demonstra como subir de nível. 

O banco diz que é possível consultar detalhes no aplicativo. E quem não é cliente vai saber como?

O resultado é que, mesmo após consultar diferentes páginas do banco, um consumidor que ainda não é correntista pode terminar a leitura sem compreender exatamente quanto precisará gastar, investir ou concentrar no Itaú para receber aquilo que o marketing promete.

Nesse aspecto, o Itaú acaba ficando atrás de um concorrente direto.

O Santander Rewards também utiliza um programa de relacionamento para liberar benefícios, mas apresenta de forma mais transparente quais comportamentos elevam o nível do cliente e quais vantagens são desbloqueadas em cada etapa.

Essa diferença é importante porque revela uma mudança maior no mercado.

Os programas de relacionamento deixaram de premiar apenas quem é fiel ao cartão. Cada vez mais, é preciso ser fiel ao banco.

O Itaú pode ter compreendido bem a primeira parte dessa transformação ao construir um produto mais competitivo.

Falta resolver a segunda: explicar com a mesma eficiência como o consumidor pode, de fato, transformar esse potencial em benefícios reais. Hoje, entender o novo Uniclass exige, talvez, mais esforço do que para conquistar os benefícios dele.

Nota da coluna: O Pé de Milha solicitou ao Itaú o comunicado oficial sobre a reformulação dos cartões para subsidiar esta análise, mas não recebeu o material até a publicação deste artigo. 

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