O dramaturgo, ator e diretor teatral João das Neves ganha uma nova leitura de sua obra com o lançamento de O Encenador e a Floresta, livro que revisita o intenso encontro do artista com os povos indígenas durante o período em que viveu no Acre, entre 1986 e 1991.
A publicação, uma coedição entre a Associação Campo das Vertentes e a Relicário, reúne textos do autor, incluindo o inédito “Diário de Viagem ao Yurayá”, que registra sua imersão no território Huni Kuin.
Com prefácio de Ailton Krenak e capa ilustrada pelo coletivo MAKHU – Movimento dos Artistas Huni Kuin, coordenado por Ibã Huni Kuin, o livro ilumina uma das fases mais transformadoras da trajetória do encenador. Krenak descreve o período como um encantamento profundo:
“Encantamento com a cultura de um povo da floresta, experiência mítica para quem ansiava outros mundos. Com seus alunos indígenas, João pôde levar ao palco seus amigos Kaxinawa, abrindo uma colaboração artística incomum.”
A obra se aprofunda nas relações entre artes cênicas, ancestralidade indígena e a força simbólica da floresta, revelando como essa vivência redefiniu o olhar de João sobre corpo, cena e narrativa.
Um encontro que virou teatro, memória e registro histórico
O livro apresenta três textos fundamentais do artista produzidos no Acre:
- “O Teatro e a Floresta” – artigo apresentado no Brasil, Espanha, Alemanha e México, onde João discute como a floresta transformou sua linguagem teatral.
- “Como os Kaxinawá descobriram o teatro” – relato do primeiro encontro com os Huni Kuin, ainda em Rio Branco, quando ele ministrava um curso de teatro.
- “Diário de Viagem ao Yurayá” (inédito) – registro minucioso dos três meses em que navegou pelo Rio Jordão, convivendo intensamente com o povo Huni Kuin.
O posfácio, assinado por Mara Vanessa Fonseca Dutra, contextualiza o Acre à época, detalha a criação do Grupo Poronga e explora a chamada trilogia acreana de João: Caderno de Acontecimentos, Tributo a Chico Mendes e Yurayá – o rio do nosso corpo.
Audiolivro amplia o acesso
A versão em áudio, Viagem ao Yurayá, narrada pelo ator Glicério do Rosário, apresenta uma leitura compacta do diário e reforça o compromisso da obra com a acessibilidade.
Sobre o autor
João das Neves (1934–2018) foi um dos nomes centrais do teatro brasileiro, vencedor de prêmios como Molière, Bienal Internacional de São Paulo, APCA, Golfinho de Ouro e Quadrienal de Praga. Fundador do histórico Grupo Opinião em 1964, atravessou a ditadura militar com produções que confrontavam o regime e inovavam a dramaturgia nacional.
Entre 1985 e 1992, viveu no Acre, onde conviveu com os Huni Kuin, criou o Grupo Poronga e desenvolveu um teatro profundamente conectado à floresta, às identidades brasileiras e às narrativas indígenas. A partir de 1992, em Minas Gerais, sua obra dialogou com o teatro negro, o universo LGBTQIAPN+ e pautas feministas, consolidando uma produção diversa e transformadora ao longo de seis décadas.











