European Parliament
Depois de décadas de idas e vindas, a União Europeia autorizou a assinatura do acordo comercial com o Mercosul. Não é a entrada em vigor. É o início formal de um processo longo, gradual e cheio de etapas. Ainda assim, trata-se de um marco histórico no comércio internacional.
As negociações começaram no fim dos anos 1990. Desde então, o texto foi travado, reaberto e renegociado inúmeras vezes. Poucos acordos no mundo exigiram tanto tempo porque poucos envolveram tantos países, tantos setores sensíveis e interesses tão conflitantes. Quanto maior o acordo, mais difícil é acomodar vencedores e perdedores.
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O tratado une dois grandes blocos. De um lado, o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Do outro, os 27 países da União Europeia. Juntos, somam mais de 700 milhões de consumidores e um potencial de comércio que pode chegar à casa do trilhão de dólares ao longo do tempo, é um dos maiores acordos comerciais já tentado no planeta.
Na prática, o acordo prevê redução gradual de tarifas, regras comuns para comércio, serviços e investimentos, além de prazos longos de adaptação. Nada acontece de uma vez. Setores mais sensíveis terão anos, em alguns casos mais de uma década, para se ajustar, Não há choque imediato nem “abertura total” do dia para a noite.
O grande nó sempre foi a agricultura. O Mercosul é altamente competitivo na produção de alimentos. A Europa, por sua vez, mantém um modelo agrícola fortemente subsidiado e protegido, com custos elevados e menor capacidade de competir em preço. Eficiência produtiva de um lado, proteção estatal do outro.
Mesmo com a autorização para assinatura, a Europa segue dividida. Países como a França e a Irlanda se posicionaram contra ou com fortes ressalvas. O discurso oficial fala em meio ambiente, padrões sanitários e defesa do pequeno agricultor.
Mas o pano de fundo é outro: perda de competitividade. Em vez de enfrentar o desafio de estrutura, modernização, produtividade e custos, parte da agricultura europeia prefere erguer barreiras. O veto agrícola é, antes de tudo, uma escolha eleitoral interna.
Para o Mercosul, o acordo abre portas importantes. Acesso preferencial a um mercado rico e estável, mais previsibilidade para exportadores e novas oportunidades para carnes, café, açúcar, etanol, sucos e produtos com maior valor agregado.Ganhos existem, mas são graduais e estratégicos, não imediatos.
Do lado europeu, os benefícios também são claros. Acesso a alimentos e matérias-primas em escala, diversificação de fornecedores e maior segurança em cadeias produtivas num mundo cada vez mais instável.
Além disso, o acordo tem peso geopolítico: sinaliza que a Europa ainda aposta no multilateralismo, mesmo com o avanço do protecionismo global. Fechar mercados custa caro num mundo fragmentado.
O momento do avanço não é casual. Tensões comerciais globais, aumento de tarifas e disputas geopolíticas pressionaram os blocos a buscar alternativas. Quando o comércio global endurece, acordos entre regiões ganham valor estratégico. Proteger demais pode isolar; negociar pode abrir saídas.
Apesar do avanço, o caminho ainda é longo. Vêm pela frente a assinatura formal, a análise do Parlamento Europeu, processos de ratificação interna e, só então, a implementação gradual. Anos, não meses.
Para o cidadão comum, a mensagem é simples. O acordo não muda preços amanhã, não provoca invasões de produtos nem destrói setores de imediato. Ele cria regras previsíveis para uma integração econômica que será construída passo a passo. É uma aposta no futuro, não um remendo de curto prazo.
Depois de 25 anos, o acordo UE–Mercosul finalmente saiu da inércia política. Ainda há resistências, ajustes e disputas. Mas o essencial aconteceu: a porta foi aberta.
Num mundo mais protecionista, mais endividado e mais instável, esse acordo representa uma escolha clara, negociar, integrar e ganhar escala, em vez de levantar muros.
O relógio começou a andar. E, desta vez, parece que não volta para trás.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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