O caso do cachorro Orelha, morto por adolescentes em Santa Catarina, não é apenas um episódio isolado de crueldade contra um animal. Ele é um sinal de alerta, um retrato perturbador de algo mais profundo: a forma como estamos educando nossos filhos, formando caráter e lidando com responsabilidade, empatia e consequências. Quando jovens são capazes de cometer um ato dessa natureza, a pergunta não deve se limitar ao “o que aconteceu?”, mas se expandir para “o que falhou na formação dessas pessoas?”. Comportamentos extremos raramente surgem de forma espontânea. Eles costumam ser fruto de uma soma de fatores: ausência de limites claros, banalização da violência, desvalorização da vida, falhas na educação emocional e uma cultura que, muitas vezes, normaliza a falta de empatia.
Antes de tudo, é importante estabelecer que a educação começa em casa. É no ambiente familiar que se constroem os primeiros alicerces do caráter: o respeito, a responsabilidade, a noção de consequência, o cuidado com o outro (humano ou animal) e o entendimento de que ações geram impactos. Pais e responsáveis não educam apenas com discursos, mas com atitudes. A forma como reagem aos erros dos filhos, impondo limites, lidando com frustrações e assumindo responsabilidades ensina muito mais do que qualquer sermão. No caso do Orelha, um aspecto ainda mais preocupante foi a postura de alguns pais dos adolescentes envolvidos. Em vez de assumirem a gravidade da situação, colaborarem com as investigações e utilizarem o episódio como uma oportunidade de correção e aprendizado, houve relatos de tentativas de coagir testemunhas, retirar filhos do país e encobrir o caso. Essa postura não apenas compromete a Justiça, mas também transmite uma mensagem profundamente equivocada: a de que proteger significa esconder, justificar ou negar erros.
Quando adultos usam sua influência para livrar filhos das consequências de seus atos, ensinam uma lição perigosa: a de que responsabilidade pode ser evitada, de que o poder pode substituir a ética e de que empatia pode ser deixada de lado em nome da conveniência. Nesse contexto, o problema deixa de ser apenas juvenil, e se torna um reflexo direto da formação moral dos próprios pais. É impossível falar sobre educação dos filhos sem falar sobre a educação dos adultos. Criar crianças e adolescentes exige maturidade emocional, coragem moral e compromisso com valores que, muitas vezes, exigem decisões difíceis. Amar um filho não significa blindá-lo das consequências, mas prepará-lo para enfrentar a realidade com responsabilidade, humildade e senso de justiça. Corrigir, orientar e responsabilizar também são formas de amor.
A escola desempenha um papel fundamental nesse processo. Ela contribui para a formação intelectual, social e ética, reforçando valores como convivência, cidadania, respeito às diferenças e pensamento crítico. No entanto, a escola não pode — e não deve — substituir a família na formação do caráter. Seu papel é complementar. Quando a base familiar é frágil ou incoerente, o trabalho da escola se torna mais desafiador e, muitas vezes, insuficiente para suprir lacunas profundas na formação moral. Estamos, portanto, diante de um problema que vai muito além de um caso isolado. Trata-se de um sinal de degradação moral em diferentes níveis: na educação doméstica, na postura de adultos, na tolerância social à violência, na banalização do sofrimento e na perda de sensibilidade diante da vida. Quando a crueldade deixa de chocar, algo essencial está sendo perdido.
Casos como o de Orelha nos obrigam a encarar perguntas incômodas, mas necessárias: estamos ensinando nossos filhos a respeitar a vida em todas as suas formas? Estamos formando jovens empáticos, conscientes e responsáveis, ou apenas indivíduos centrados em si mesmos? Estamos educando para a ética ou para a impunidade? Mais do que indignação momentânea, o episódio exige reflexão profunda e mudança de postura. A forma como educamos hoje moldará o tipo de sociedade que teremos amanhã. Se negligenciarmos valores como empatia, respeito, responsabilidade e justiça, colheremos uma geração mais fria, mais intolerante e menos humana.
O cachorro Orelha se torna, tristemente, um símbolo. Símbolo de que precisamos rever a forma como educamos nossos filhos, como agimos como pais, como cobramos responsabilidade e como cultivamos valores dentro de casa e fora dela. Educar não é apenas preparar para o mercado de trabalho ou para o sucesso acadêmico. É formar caráter, consciência e humanidade. Falhar nessa missão tem um custo alto. Não apenas para uma família ou para um caso isolado, mas para o futuro de toda a sociedade.














