O ESG está perdendo força nas empresas brasileiras?

Pesquisa de 2024 aponta que ampla maioria dos executivos acreditam que iniciativas ESG podem prejudicar o desempenho financeiro no curto prazoReprodução/Magnific (magnific.com)

Após anos de crescimento acelerado, a agenda ESG parece ter perdido parte do protagonismo que conquistou no ambiente corporativo brasileiro entre 2020 e 2023. O tema, que dominou relatórios anuais, apresentações para investidores e estratégias de comunicação corporativa, enfrenta hoje um cenário mais complexo, marcado por questionamentos sobre sua efetividade, pressões econômicas e uma busca crescente por resultados concretos.

Parte dessa percepção decorre do contexto macroeconômico. Em um ambiente de juros elevados, desaceleração econômica e maior cobrança por rentabilidade, muitas empresas passaram a priorizar iniciativas diretamente ligadas à geração de receita e à eficiência operacional. Uma pesquisa da EY em 2024 revelou que 92% dos executivos acreditam que iniciativas ESG podem prejudicar o desempenho financeiro de curto prazo, evidenciando o conflito entre sustentabilidade e resultados imediatos enfrentado por muitas organizações. Ao mesmo tempo, a pesquisa afirma que 88% dos investidores afirmam ter aumentado o uso de informações ESG em suas decisões de investimento, demonstrando que a pressão do mercado permanece relevante.

Outro fator importante é a crescente desconfiança em relação ao chamado greenwashing. Ao longo dos últimos anos, muitas empresas adotaram discursos ambiciosos de sustentabilidade sem apresentar métricas claras ou mudanças estruturais significativas. Como consequência, investidores, consumidores e reguladores passaram a exigir maior transparência e comprovação dos resultados divulgados. O debate deixou de ser sobre promessas e passou a ser sobre evidências.

No Brasil, essa mudança também expôs uma lacuna entre discurso e prática. Estudos recentes mostram que a grande maioria das empresas declara priorizar a sustentabilidade, mas uma parcela significativa ainda não possui indicadores robustos, metas claras ou mecanismos de prestação de contas adequados. Isso sugere que, para muitas organizações, o ESG ainda não foi plenamente integrado à estratégia de negócios.

Apesar desse aparente recuo, os fatores que impulsionaram a ascensão do ESG continuam presentes. Mudanças climáticas, riscos regulatórios, exigências de transparência, pressão de investidores e a necessidade de construir cadeias de suprimentos mais resilientes seguem influenciando decisões corporativas. 

Dessa forma, o que se observa não é necessariamente o declínio do ESG, mas sua maturação. O mercado parece estar abandonando iniciativas superficiais e ações voltadas exclusivamente para reputação, concentrando esforços em projetos capazes de gerar impacto mensurável e retorno econômico. O ESG deixa de ser um diferencial de marketing para se tornar uma ferramenta de gestão de riscos, eficiência operacional e criação de valor de longo prazo.

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