O início de 2026 escancarou uma mudança preocupante na postura internacional da maior potência do planeta. Em poucas semanas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acumulou declarações e ações que elevaram o nível de tensão global: ameaças ao Irã, atritos com o México, intervenção direta na Venezuela, a afirmação de que pode tomar a Groenlândia “por bem ou por mal”, ataques diretos ao coração da estabilidade econômica mundial, e, agora, uma ofensiva comercial de alcance global.
Não são episódios isolados. É um padrão.
Ao sinalizar a possibilidade de uma ação militar contra o Irã sob o argumento de conter mortes durante manifestações internas, Trump ultrapassou uma linha sensível. Uma crise doméstica grave passa a ser tratada como justificativa para intervenção externa. O risco é evidente: transformar um conflito interno em um confronto internacional, com impactos diretos sobre energia, comércio e segurança global.
É o gesto clássico de jogar gasolina num barril de pólvora para acender um charuto, confiando que nada vai explodir.
Tarifas contra quem negocia com o Irã
Depois de elevar o tom militar, Trump avançou para o campo econômico. O presidente anunciou a imposição de tarifas de 25% sobre produtos de países que mantêm relações comerciais com o Irã, numa tentativa de isolar Teerã por meio de sanções indiretas.
A medida é ampla, pouco detalhada e carrega forte potencial de conflito comercial. Países que negociam tanto com os Estados Unidos quanto com o Irã passam a ser colocados contra a parede.
O Brasil entra nesse radar. O Irã figura entre os principais parceiros comerciais brasileiros, com destaque para o setor de fertilizantes, insumo estratégico para o agronegócio. Qualquer encarecimento, interrupção logística ou retaliação cruzada tende a pressionar custos de produção no campo e ampliar a instabilidade de preços.
Aqui, a política externa americana deixa de ser um problema distante e passa a atingir diretamente cadeias produtivas brasileiras.
México: pressão externa, instabilidade regional
A relação com o México também entrou em rota de colisão. Ao misturar imigração, segurança pública e ameaças de ação direta, a Casa Branca pressiona um país vizinho e aliado, fragilizando canais institucionais e ampliando tensões sociais.
Problemas complexos, que exigem coordenação e diplomacia, passam a ser tratados na base da intimidação. O resultado é instabilidade regional, não solução.
Venezuela: o precedente que assusta
A derrubada de Nicolás Maduro representa um divisor de águas. Independentemente da avaliação sobre o regime venezuelano, a mensagem enviada ao mundo é clara: a troca de governos volta a ser tratada como instrumento legítimo de política externa.
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Esse tipo de precedente empurra outros países para posições defensivas, incentiva corrida armamentista e corrói a previsibilidade internacional.
Groenlândia: quando o impensável vira discurso oficial
É na Groenlândia que o raciocínio geopolítico se fecha. Ao afirmar que pode tomar o território “de uma forma ou de outra”, Trump normaliza algo que parecia superado: a ideia de aquisição territorial pela força.
A Groenlândia envolve segurança no Ártico, rotas estratégicas, recursos naturais e a disputa direta com Rússia e China. Quando um presidente dos Estados Unidos trata esse tema como uma negociação imobiliária com ameaça embutida, o recado é direto: o direito internacional virou detalhe.
Ataque ao Fed
O sinal mais grave, porém, vem da economia. Trump passou a defender a possibilidade de processar ou responsabilizar judicialmente o presidente do Fed, Jerome Powell.
O Federal Reserve (Fed) não é apenas o Banco Central americano. Ele é o principal pilar de estabilidade da economia mundial. Suas decisões orientam juros globais, fluxo de capitais, preços de ativos, câmbio e o financiamento de dívidas soberanas em praticamente todos os países.
Colocar sob ameaça a independência do Fed significa: politizar a política monetária, desancorar expectativas de inflação, gerar volatilidade nos mercados globais e elevar o custo do endividamento mundial.
Em um planeta já sufocado por dívidas históricas, esse tipo de ataque institucional pode provocar choques financeiros em cadeia, muito além das fronteiras americanas.
Essa escalada conversa diretamente com a base mais radical do movimento Make America Great Again (Tornar a América Grande Novamente). Confronto, força e ataque às instituições rendem aplausos no curto prazo. Mas o custo é alto: desorganização institucional interna e instabilidade externa.
Para sustentar a política doméstica, Trump não apenas exporta tensão — ele coloca em risco o próprio alicerce do sistema econômico global.
Planeta no limite
O mundo já convive com crescimento econômico fraco, endividamento recorde, tensões comerciais persistentes e conflitos regionais latentes. Adicionar a esse cenário uma superpotência que ameaça territórios, confronta governos, impõe tarifas extraterritoriais e pressiona o próprio Banco Central é multiplicar riscos sistêmicos.
Não se trata de estilo ou temperamento. Trata-se do momento histórico. Quando a maior economia do planeta passa a tratar a força — militar, política, econômica e institucional — como linguagem central, o mundo inteiro paga a conta.
O barril está cheio. A pólvora, seca. E agora, além do fósforo, alguém resolveu mexer também no cofre que sustenta a economia global.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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