Uma dentre tantas perguntas dolorosas que um indivíduo acaba por fazer na vida acontece naquele momento que alguém querido morre, indagando-se “o porquê daquela pessoa de tão bom coração ter morrido?”.
Ainda mais, quando levamos em consideração algumas prováveis circunstâncias ao redor da morte daquela pessoa.
É sobre isso que fala Sirāt (2025), de Oliver Laxe, o representante espanhol no Oscar deste ano, sobre um pai em busca de sua filha desaparecida, junto com seu filho mais novo e um grupo de jovens que curtem uma rave, nos desertos do sul de Marrocos.

Quando a fita do cineasta Oliver Laxe começa, pouco se imaginava que tomaria o rumo que escolheu, porém, ao final fez todo o sentido, seja emocional ou narrativo.
Para iniciar a conversa sobre Sirāt, primeiramente, é necessário explanar o impacto da música eletrônica – e suas variadas subvertentes, como House, Techno, Trance – no ser humano, inclusive, espiritualmente.
Faz parte da conversa entre as pessoas, discutir sobre um possível valor na música eletrônica, que é vista e ouvida por alguns, apenas como uma enorme barulheira sem qualquer traço de melodia ou harmonia, algo que na teoria mostra-se coerente, uma vez que a música eletrônica na realidade é uma ampla gama de elementos percussivos.
Contudo, apesar de uma suposta ausência melódica, observamos que pelos sons batucados – geralmente em volume muito alto – existe um tipo de força gravitacional que move as pessoas internamente, fazendo com que elas manifestem essa carga energética para fora de seus corpos, na maioria das vezes, em forma de algum tipo de dança.
E, quando analisamos tais seres dançando em conjunto, como por exemplo, numa rave (festa dançante), testemunhamos um ato comunal de forte conexão espiritual entre os participantes, onde cada ser dança no seu próprio andamento rítmico, mas como parte de algo que parece ir além daquilo que o próprio corpo pode expressar.

Assim, é muito curioso que o diretor Oliver Laxe, usou da música eletrônica e universo das raves, como o pano de fundo para Sirāt, uma história do tipo ‘road trip’ (viagem pela estrada) de um pai em busca de sua filha sumida, onde todos os viajantes, incluindo os ‘caçadores de raves no deserto’, terão de carregar o peso de uma cruz muito pesada, no caso, a própria noção de sua mortalidade.
Do mesmo modo que os chamados escolhidos por uma suposta força maior, que ultimamente eram homens como qualquer outro homem, terão que vagar pelo deserto em busca daquilo que desejam encontrar, lembrando que Sirāt – uma palavra árabe que significa ‘caminho’ ou ‘via’ -, segundo o Islã, é a ponte que toda pessoa deve atravessar no Yawm al-Qiyamah (lit. ’Dia da Ressurreição’) para entrar em Jannah (lit. ’Paraíso’).
Diz-se que Sirāt é mais fino que um fio de cabelo e tão afiado quanto a faca ou espada mais afiada. Abaixo deste caminho estão os fogos do Inferno, que queimam os pecadores para fazê-los cair.

Em resumo: a obra de Oliver Laxe fará da viagem deste grupo, basicamente, um inferno na Terra.
Pelas mãos do cineasta, analisaremos a dureza da natureza da vida que, aleatoriamente, entrega e tira, sem cerimônias e na mesma medida. E, como o próprio título entrega, tal caminho será tortuoso e perigoso, reiterando a ideia de que, às vezes, para conseguir algo, outra coisa acabará ou precisará ser deixada para trás. Uma lição muito dolorosa, especialmente para o protagonista interpretado pelo ator espanhol Sergi López, que ficou mundialmente conhecido como o frio e cruel Capitão Vidal, em O Labirinto do Fauno (2006), de Guillermo del Toro.
Ao final da fatídica jornada, tudo o que restará é uma forma de conexão ou fé impensada, que manifesta-se, tanto pelo desespero quanto na dança incontrolada, sempre lembrando que, assim como os marginalizados pela vida (cena final), tudo o que se consegue disso é a possibilidade de mais um dia, porém, lembrando mais uma vez, em uma viagem pelos desertos que parecem não ter fim.










