Existe uma máxima que fala que um pôster de um filme, seja ele qual for, é como um cartão de visita a respeito da própria obra.
Se for este o caso, devemos acima de tudo parabenizar a equipe de marketing, responsável pelo título Marty Supreme (2025), uma vez que quando foi lançado não apenas o primeiro pôster do longa-metragem dirigido por Josh Safdie, mas o primeiro material oficial de promoção relacionado ao filme, tivemos algo que, lamentavelmente, tornou-se um tanto raro, no caso, a clareza sobre o que estávamos prestes a assistir no apagar das luzes.
O primeiro pôster oficial de Marty Supreme exprime simplicidade e exatidão com um fundo preto e um escrito em branco que diz ‘Marty Supreme’ com letras garrafais, todas em caixa alta, com um pequeno, quase invisível detalhe, que é um reduzido Timothée Chalamet – caracterizado como o personagem-título da obra – na parte de baixo da letra ‘A’ do título. Adicione o slogan que diz ‘Dream Big’ (no traduzido, ‘Sonhe Alto’), também em caixa alta.
Em resumo: Marty Supreme é precisamente sobre isso, alguém que fez de seu nome, algo bem maior do que a própria pessoa. Além de uma busca ensandecida de imaginar-se ou sonhar com a possibilidade de um dia, nome e indivíduo, estarem na mesma altura.
Marty Supreme é a história sobre a ascensão de Marty Mauser, um talentoso jogador de tênis de mesa, em Nova York, nos anos 1950, que busca a grandeza em um esporte marginalizado, passando de apostas ilegais a torneios internacionais, porém, sua ambição o leva por caminhos moralmente duvidosos, misturando genialidade e trapaça para alcançar a fama.

É importante que antes de adentrarmos no espírito de Marty Supreme, pontuemos algo que merece nota, que diz respeito à direção de Josh Safdie.
Aqui, encontramos o primeiro trabalho solo de Josh Safdie, desde O Prazer de Ser Roubado (2008), dado que nos últimos 15 anos, Josh trabalhou sempre em parceria com seu irmão e maior colaborador, Benny Safdie.
Mais recentemente, o duo de cineastas conhecidos como os irmãos Safdie, lançaram suas obras Bom Comportamento (2017) e Jóias Brutas (2019). Veio a pandemia e eles anunciaram que trabalhariam separados desta vez. Benny Safdie fez e lançou Coração de Lutador: The Smashing Machine (2025), enquanto Josh Safdie fez e lançou Marty Supreme.
Após a sessão da obra criada por Josh Safdie, uma coisa ficou muito clara. Apesar de sabermos que existiu uma colaboração entre irmãos, nos dois últimos projetos de destaque, no caso, Bom Comportamento e Jóias Brutas, dá para sentir que ambos longas-metragens têm muito mais de Josh do que de Benny.
Em Coração de Lutador: The Smashing Machine, percebemos que Benny Safdie tem uma cautela e atenção aos detalhes na composição de uma cena que não encontramos em Marty Supreme; agora, do outro lado, ao assistir esta montanha-russa frenética no filme sobre o jogador de tênis de mesa, sentimos uma força magnética contínua de um organismo vivo que não para de se mover, enquanto pegamos de modo prático qual era a intenção de Josh Safdie nessa jornada.

O ainda jovem cineasta Josh Safdie fez de seu personagem-título, um objeto móvel e incansável na busca pelo tal ‘sonho americano’, que claramente foi tratado como algo mais do que uma ilusão ou como um objetivo inalcançável, mas especialmente, como aquilo que termina nos afastando de nossa própria essência.
Pelo roteiro sagaz de Ronald Bronstein e Josh Safdie, teremos algumas chances de testemunhar a parte da boa essência que existe no espírito inquieto de Marty Mauser, como por exemplo, um presente, muito especial, que ele dá para a sua mãe – interpretada por Fran Drescher – com quem ele tem uma relação bem tumultuada.
Safdie deixou bem claro, desde o início da fita que a vida começa como uma grande corrida, sendo a primeira de todas as corridas, aquela dos espermatozoides tentando ser o primeiro a fecundar com o óvulo. Portanto, se Marty Mauser começou vencendo a primeira prova de sua vida, então, ele deve naturalmente conseguir sair vencedor de todas as outras provas que a trajetória humana impõe. Mas como sabemos, a realidade não é bem assim.
Diferentemente de seus dois últimos projetos cinematográficos que encaixavam-se no gênero de thriller criminosos, Marty Supreme é uma comédia dramática que faz rir com a trama, mas diretamente de Marty Mauser, pois só assim sentiremos a crítica anunciada por Josh Safdie, que na parte final volta seus olhares para a relação do ‘Zé Ninguém’ judeu – que pelo estereótipo americano, deveria ser de nascença rico e vencedor – que almeja ser visto como grande por aqueles mais abastados que se acham no direito de abusar e humilhar, todos que encontram-se abaixo, ou seja, a maioria de nós.

Para finalizar, é preciso e precioso que se disserte sobre a performance de Timothée Chalamet – indicado ao Oscar por Marty Supreme – que compôs um personagem que não é apenas um humano falho, mas, na verdade, uma pessoa de comportamento detestável que, absurdamente, mostra-se muito atraente para quem assiste.
O (ainda) muito jovem Timothée Chalamet que, aos 30 anos de idade, mantém traços físicos de um adolescente, nunca pareceu tão adulto em um filme como aqui, em Marty Supreme.
Talvez, o maior mérito deste caos ambulante da narrativa de Marty Supreme e, consequentemente, da direção de Josh Safdie e atuação de Timothée Chalamet, seja fazer de um enganador e trambiqueiro, alguém passível de redenção.
Por Josh Safdie, sentimos que os dedos médios que Marty Mauser ergueu para tudo e todos, também são um reflexo – e mecanismo de defesa – dos dedos médios que a vida ergueu para com ele, que na bela cena final, pelos olhos de seu diretor, merece a chance de (sobre)viver em sua melhor essência.














