Os segredos emocionais de famosos e milionários

Fernanda FilizzolaDivulgação

  Os segredos de famosos e milionários serão revelados pela terapeuta Fernanda Filizzola.

Ela é terapeuta, pós-graduanda em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e especialista em relacionamentos, comportamento humano e desenvolvimento emocional. Atua ajudando pessoas a compreenderem seus padrões afetivos, fortalecerem a autoestima e construírem relações mais saudáveis, equilibradas e conscientes.  

VEJA ENTREVISTA NA INTEGRA

COMO VOCÊ ENTENDE QUE MUITOS FAMOSOS TÊM RELAÇÕES ABUSIVAS E CONTINUAM NELAS?

Fama, dinheiro e sucesso não imunizam ninguém emocionalmente. Eu entendo que a fama não protege ninguém de uma relação abusiva. A pessoa pode ter dinheiro, reconhecimento, beleza, poder social e, ainda assim, carregar feridas emocionais profundas, medo de abandono, necessidade de aprovação, baixa percepção de valor pessoal ou uma história afetiva marcada por instabilidade.

Muitas vezes, a pessoa não permanece porque “gosta de sofrer” ou porque “não enxerga” a situação. Ela permanece porque o vínculo abusivo costuma ser construído de forma gradual: começa com encanto, intensidade, promessas e sensação de conexão. Depois, vêm a desvalorização, o controle, a culpa e a manipulação.

Esse ciclo gera confusão emocional. A pessoa passa a esperar o retorno daquele parceiro amoroso do início da relação e começa a acreditar que, se mudar, for mais compreensiva, paciente ou menos exigente, talvez tudo volte a ser como antes.

Outro ponto importante é que relações abusivas não são feitas apenas de violência explícita. Muitas vezes existe uma alternância entre dor e afeto. Essa mistura de carinho, medo, esperança e rejeição fortalece o vínculo emocional e dificulta a saída. O cérebro se prende à possibilidade de reparação: “agora vai melhorar”, “ele me ama, só está passando por uma fase”, “talvez eu também tenha culpa”.

No caso de pessoas famosas, existe ainda um agravante: a exposição pública. Muitas permanecem nessas relações por vergonha, medo do julgamento, receio de destruir uma imagem construída, medo da mídia, dos fãs, dos contratos, da família ou até de admitir que, mesmo sendo admiradas por tantas pessoas, estavam sendo desrespeitadas dentro da própria intimidade.

Por isso, quando alguém continua em uma relação abusiva, precisamos olhar com menos julgamento e mais compreensão psicológica. Sair não é apenas terminar um relacionamento. Muitas vezes, é romper um padrão emocional antigo, enfrentar a abstinência daquele vínculo, reconstruir a autoestima, recuperar a percepção da realidade e reaprender que amor não deveria vir misturado com medo, controle, humilhação ou perda de si.

O QUE FAZ A RELAÇÃO ENTRE CASAIS ACABAR SE DESGASTANDO E OS DOIS SE SEPARANDO?

Na maioria das vezes, os relacionamentos não acabam de forma repentina. Eles vão se desgastando aos poucos, em pequenas desconexões emocionais repetidas diariamente. O problema raramente começa em uma grande briga. Ele começa quando o casal deixa de se sentir visto, ouvido, admirado e emocionalmente seguro dentro da relação.

Muitos casais entram em um ciclo silencioso de acúmulo emocional: frustrações não conversadas, mágoas mal resolvidas, críticas constantes, falta de validação, distanciamento afetivo e sensação de solidão, mesmo estando acompanhados. Com o tempo, a relação deixa de ser um lugar de acolhimento e passa a ser um ambiente de tensão, cobrança ou indiferença.

Outro fator importante é que muitas pessoas entram nos relacionamentos esperando que o outro cure inseguranças, preencha vazios emocionais ou supra necessidades internas que nem elas mesmas conseguem reconhecer. Quando isso acontece, o relacionamento passa a funcionar mais na lógica da carência do que da construção saudável. E nenhuma relação sustenta, por muito tempo, a responsabilidade de reparar emocionalmente o outro.

Também existe algo muito importante: o cérebro humano tende a repetir padrões afetivos aprendidos ao longo da vida. Então, muitas vezes, a pessoa não escolhe um parceiro apenas pela compatibilidade, mas pela familiaridade emocional. E aquilo que é familiar nem sempre é saudável. Isso faz com que muitos casais reproduzam dinâmicas de controle, afastamento, medo de abandono, necessidade excessiva de validação ou dificuldade de intimidade emocional.

Além disso, os relacionamentos se desgastam quando o casal perde a capacidade de reparar rupturas. Casais saudáveis não são os que nunca brigam. São os que conseguem conversar depois da dor, reconhecer falhas, validar sentimentos e reconstruir a conexão. Quando orgulho, silêncio, indiferença ou ataques passam a substituir diálogo e vulnerabilidade, a relação começa a adoecer emocionalmente.

Existe ainda um ponto muito atual: hoje, muitas pessoas têm dificuldade de sustentar profundidade emocional. Vivemos uma cultura da comparação constante, da hiperestimulação e da ideia de que sempre pode existir alguém “melhor” disponível. Isso enfraquece a tolerância às imperfeições naturais de qualquer relação de longo prazo.

No fim, os relacionamentos não acabam apenas pela falta de amor. Muitas vezes, acabam pela falta de presença emocional, maturidade afetiva, comunicação verdadeira e disposição para construir intimidade todos os dias.

A QUE VOCÊ ATRIBUI O AUMENTO NOS ÚLTIMOS ANOS DE RELAÇÕES ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO?

Eu acredito que o que aumentou nos últimos anos não foi necessariamente o número de pessoas homossexuais, mas a possibilidade de expressão, visibilidade e existência dessas pessoas com menos repressão e menor necessidade de ocultamento.

Durante muito tempo, a sociedade construiu uma ideia extremamente rígida sobre o que seria considerado “normal” em relação ao amor, ao corpo, ao desejo e à sexualidade. O filósofo Michel Foucault traz uma reflexão importante ao mostrar que a sociedade cria categorias, normas e rótulos que passam a definir quem está “dentro” ou “fora” do padrão socialmente aceito.

Ou seja, muitas vezes, o problema não está na existência da diversidade humana, mas na necessidade social de controlar, classificar e normatizar corpos e afetos. Historicamente, tudo aquilo que escapava de um modelo considerado legítimo era silenciado, reprimido ou tratado como inadequado.

Foucault mostra justamente que a sexualidade nunca foi apenas uma questão íntima, mas também social, política e cultural. Em muitos períodos da história, determinadas formas de amar precisavam existir no segredo, no medo e na invisibilidade para sobreviver.

Do ponto de vista psicológico, hoje entendemos que orientação sexual não é doença, distúrbio ou anormalidade. O sofrimento emocional vivido por muitas pessoas LGBTQIA+ esteve — e ainda está — muito mais relacionado ao preconceito, à exclusão, à vergonha e à violência social do que à sexualidade em si.

Diversos estudos mostram que ambientes de repressão, invalidação e discriminação aumentam significativamente o sofrimento psíquico, a ansiedade, a depressão e a sensação de não pertencimento.

Por isso, quando vemos um aumento na visibilidade de relações entre pessoas do mesmo sexo, isso também pode ser entendido como um movimento de maior liberdade emocional, autenticidade e possibilidade de existir sem precisar viver escondido. Não significa que “surgiram mais pessoas gays”, mas que mais pessoas passaram a ter espaço para reconhecer e viver quem são com menos medo.

Também considero importante destacar algo fundamental: diversidade afetiva e sexual faz parte da experiência humana. O amor, o vínculo, o afeto, o cuidado e o desejo não diminuem em valor, legitimidade ou humanidade por acontecerem entre pessoas do mesmo sexo.

O que durante muito tempo foi tratado como “anormal” dizia, muitas vezes, mais sobre os limites culturais de uma sociedade do que sobre a própria natureza humana.

COMO OS PAIS DEVEM SE POSICIONAR QUANDO OS FILHOS JOVENS NÃO RESPEITAM OS PAIS?

Quando um filho jovem começa a desrespeitar os pais, é importante que a família compreenda que o problema não deve ser visto apenas como “falta de educação” ou “rebeldia”, mas como um sinal de que existe uma ruptura na forma como aquele vínculo está funcionando emocionalmente.

Isso não significa ausência de limites. Pelo contrário: a psicologia mostra que adolescentes precisam de limites claros, consistentes e seguros para se desenvolver emocionalmente de maneira saudável. Mas também mostra que respeito não se constrói pelo medo, pela humilhação ou pela violência. Respeito se constrói por meio de vínculo, coerência, presença emocional e autoridade saudável.

Muitos pais foram ensinados que autoridade significa rigidez, punição ou obediência absoluta. Porém, hoje sabemos que ambientes excessivamente autoritários podem produzir medo, afastamento emocional, silêncio afetivo e até aumento da agressividade. Da mesma forma, ambientes permissivos demais também geram insegurança, desorganização emocional e dificuldade de tolerar frustrações. O equilíbrio saudável está justamente na combinação entre acolhimento emocional e firmeza nos limites.

Existe um ponto muito importante que a neurociência do desenvolvimento explica: o cérebro de crianças e adolescentes ainda está em formação, principalmente nas áreas ligadas ao controle de impulsos, regulação emocional, tomada de decisão e tolerância à frustração. Isso significa que muitos comportamentos desafiadores não acontecem porque o jovem “não ama os pais” ou porque “é ruim”, mas porque ele ainda está aprendendo a lidar com emoções intensas, autonomia, identidade e pertencimento.

Isso não significa aceitar o desrespeito passivamente. Significa compreender que os pais precisam ocupar um lugar de liderança emocional, e não de disputa de poder. Quando os adultos entram apenas na lógica do grito, da ameaça, da humilhação ou do confronto constante, a relação vira uma batalha de ego, e não um espaço educativo.

Muitas vezes, o filho deixa de ouvir porque a comunicação dentro daquela família já foi tomada por críticas, acusações, invalidação emocional ou desconexão afetiva.

Outro ponto essencial é que os filhos aprendem muito mais pelo exemplo do que pelo discurso. A forma como os pais lidam com frustração, conflito, raiva, diálogo e respeito ensina silenciosamente como aquele jovem aprenderá a se relacionar com o mundo. Crianças e adolescentes observam mais do que escutam. O comportamento emocional dos pais funciona como modelo interno de relacionamento.

Por isso, pais emocionalmente disponíveis tendem a construir relações mais cooperativas do que pais apenas controladores. Isso envolve escutar sem humilhar, corrigir sem destruir, impor limites sem violência psicológica e compreender que disciplina não é punição: disciplina é ensino. É ajudar aquele jovem a desenvolver consciência emocional, responsabilidade, empatia e capacidade de autorregulação.

Também é importante entender que muitos comportamentos agressivos ou desrespeitosos podem esconder sofrimento emocional, sensação de não pertencimento, excesso de críticas, dificuldades escolares, ansiedade, baixa autoestima, solidão ou desconexão familiar. Às vezes, o comportamento inadequado é a forma emocionalmente desorganizada que aquele jovem encontrou para expressar dor, raiva ou necessidade de atenção.

Existe ainda algo muito importante: respeito não nasce apenas da hierarquia. Ele nasce da construção diária de vínculo. Filhos que se sentem constantemente humilhados, invalidados ou emocionalmente invisíveis podem até obedecer por medo, mas dificilmente desenvolverão respeito genuíno, confiança emocional e diálogo saudável.

Por outro lado, quando os pais conseguem unir presença, escuta, coerência, afeto e limites claros, o ambiente familiar tende a se tornar mais seguro emocionalmente. E relações seguras favorecem muito mais cooperação do que relações baseadas apenas em punição.

No fim, educar não é controlar completamente um filho. Educar é ajudar um ser humano em desenvolvimento a construir maturidade emocional, responsabilidade e humanidade sem perder o vínculo afetivo no processo.

COMO VOCÊ VÊ OS JOVENS DE HOJE?

Eu vejo os jovens de hoje como uma geração emocionalmente sobrecarregada. É uma geração que cresceu com muito acesso à informação, mas nem sempre com espaço suficiente para elaborar emocionalmente tudo aquilo que sente.

Nunca tivemos jovens tão conectados digitalmente e, ao mesmo tempo, tão expostos à comparação, à pressão por desempenho, à necessidade de validação e ao medo de não serem suficientes.

Muitos adultos olham para essa geração apenas com críticas e dizem que os jovens estão “fracos”, “sensíveis demais” ou “sem limites”. Mas a psicologia mostra que existe algo muito mais profundo acontecendo. Estamos falando de uma geração que cresceu sendo constantemente observada, comparada e avaliada: nas redes sociais, na escola, nos relacionamentos e até dentro de casa. Isso produz um estado contínuo de vigilância emocional.

Hoje, o jovem não enfrenta apenas os desafios naturais da adolescência, como construção de identidade, pertencimento e autonomia. Ele também lida com excesso de estímulos, hiperconectividade, ansiedade de desempenho, medo de exclusão social e uma cultura que valoriza produtividade e imagem o tempo todo.

Muitos cresceram acreditando que precisam ser interessantes, bonitos, bem-sucedidos e felizes o tempo inteiro para serem aceitos.

Além disso, existe uma mudança importante na forma como essa geração se relaciona emocionalmente. Muitos jovens aprenderam a se comunicar muito pelas telas e pouco pela profundidade emocional presencial. Isso não significa falta de sentimento, mas, muitas vezes, dificuldade de sustentar frustração, silêncio, conflito, espera e relações mais profundas.

Vivemos uma cultura da rapidez, da recompensa imediata e da substituição constante, e isso inevitavelmente impacta os vínculos humanos.

Ao mesmo tempo, eu vejo uma geração extremamente consciente emocionalmente em muitos aspectos. Os jovens de hoje falam mais sobre saúde mental, ansiedade, traumas, autoestima, identidade, abuso psicológico e relações tóxicas do que as gerações anteriores falavam. Isso é extremamente importante. Muitas dores que antes eram silenciadas hoje conseguem ser nomeadas.

Mas existe também um risco: transformar qualquer desconforto em incapacidade emocional. A vida exige tolerância à frustração, responsabilidade afetiva, construção de maturidade e capacidade de enfrentar dificuldades.

Talvez o grande desafio dessa geração seja justamente aprender a equilibrar sensibilidade emocional com fortalecimento emocional.

Eu vejo jovens que, muitas vezes, não precisam de mais julgamento, comparação ou invalidação. Precisam de escuta, presença, direção emocional e adultos que consigam orientar sem humilhar.

Porque, por trás de muitos comportamentos difíceis, existe uma geração emocionalmente cansada, tentando desesperadamente encontrar pertencimento, valor e conexão real em um mundo extremamente acelerado.

COMO VOCÊ ENTENDE OS MILIONÁRIOS E FAMOSOS QUE DÃO TUDO SEM LIMITES AOS FILHOS?

Eu entendo que muitos pais famosos e milionários, apesar de oferecerem muito conforto material aos filhos, às vezes acabam confundindo amor com ausência de limites. E isso, geralmente, não acontece por maldade ou desinteresse, mas por questões emocionais muito mais complexas do que parecem à primeira vista.

Muitos desses pais vivem rotinas extremamente exigentes, com excesso de trabalho, exposição constante, culpa pela ausência, pressão social e pouco tempo de convivência real com os filhos. Em muitos casos, aquilo que não conseguem oferecer em presença emocional tentam compensar por meio de bens materiais, permissividade ou dificuldade de frustrar.

O problema é que afeto não é substituído por excesso de concessão. A psicologia do desenvolvimento mostra que crianças e adolescentes precisam não apenas de amor e conforto, mas também de contorno emocional.

Limite não é falta de amor. Limite é estrutura psíquica. É através dos limites que a criança aprende tolerância à frustração, empatia, responsabilidade, autorregulação emocional e percepção do outro.

Quando tudo é permitido e toda frustração é evitada, existe o risco de formar jovens com dificuldade de lidar com onão”, com a espera, com perdas e com a realidade.

Existe ainda um fenômeno importante: muitos pais bem-sucedidos projetam nos filhos o desejo de poupá-los das dificuldades que eles próprios viveram. Então, oferecem tudo aquilo que não tiveram.

Isso pode partir de um lugar genuíno de amor. Mas a ausência total de frustração não fortalece emocionalmente uma criança — pelo contrário. O desenvolvimento emocional saudável exige pequenas experiências de limite, espera, responsabilidade e construção gradual de autonomia.

Outro ponto importante é que crianças aprendem não apenas pelo que recebem, mas também pelo funcionamento emocional da família. Quando os pais têm dificuldade de sustentar limites por medo de perder o afeto dos filhos, medo de conflito ou necessidade excessiva de aprovação, a relação pode se tornar emocionalmente desorganizada.

Os filhos passam a ocupar um lugar de centralidade absoluta, e os pais deixam de exercer uma autoridade segura e estruturante.

Além disso, fama e excesso de privilégio podem criar uma percepção distorcida da realidade. Crianças que crescem sem contato com consequência, esforço gradual ou limites claros podem desenvolver maior dificuldade em lidar com frustração, crítica, rejeição e relações horizontais fora daquele ambiente protegido.

E isso pode gerar sofrimento emocional importante mais tarde, porque o mundo real inevitavelmente impõe limites.

Mas é importante fazer uma distinção ética: oferecer conforto, boas oportunidades e qualidade de vida aos filhos não é o problema. O problema surge quando o excesso de concessão substitui presença emocional, educação afetiva e construção de responsabilidade.

No fim, crianças não precisam apenas de pais que deem tudo. Precisam de pais que ensinem a lidar com tudo: inclusive com frustração, espera, limites, empatia, responsabilidade e realidade emocional.

Porque amor saudável não é ausência de limites. É presença, vínculo, segurança e direção emocional.

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