O posicionamento do presidente francês Emmanuel Macron contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul vai muito além de argumentos técnicos ou ambientais. A análise do contexto interno da França torna a conclusão inevitável: trata-se muito mais de uma escolha política e eleitoral do que de uma decisão comercial.
A França vive um momento de forte desgaste social, com protestos recorrentes, pressão do setor agrícola e queda de apoio ao governo. Diante da dificuldade de competir em um mercado global cada vez mais eficiente e tecnológico, o caminho adotado não foi enfrentar problemas estruturais de produtividade e custos, mas erguer barreiras e buscar culpados externos. Nesse cenário, o acordo UE-Mercosul tornou-se o alvo ideal.
Ambientalismo seletivo como barreira comercial
O discurso ambiental, embora legítimo, perde credibilidade quando usado de forma seletiva. Países que devastaram grande parte de seus territórios ao longo da história agora se colocam como fiscais da produção agrícola tropical, ignorando avanços tecnológicos e práticas sustentáveis já incorporadas por produtores sul-americanos.
Não se trata de negar desafios ambientais, mas de separar preocupação real de protecionismo travestido de virtude.
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O acordo nunca foi um favor ao Brasil. Ele nasce da complementaridade entre economias: a Europa amplia mercados para seus produtos industriais; o Mercosul fortalece sua presença em alimentos, energia e commodities. E, do ponto de vista institucional, o processo não depende exclusivamente da França para avançar, o que reforça o caráter político do veto.
Firmeza é a resposta do Brasil
Ao ceder à pressão interna, Macron não fortalece a França. Apenas adia ajustes inevitáveis e empurra parceiros estratégicos para outros mercados. Para o Brasil, o episódio exige firmeza, previsibilidade e defesa da soberania comercial. O agro brasileiro seguirá produzindo e exportando.
Se a França não quiser competir, negociar e respeitar acordos internacionais, talvez o problema não esteja no Mercosul. O comércio global não é para quem tem medo da concorrência. Quem escolhe se fechar descobre, mais cedo ou mais tarde, que o protecionismo não alimenta economias, apenas discursos.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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