Profert e o desafio de produzir fertilizantes no Brasil

Foto: Daniel Popov/Canal Rural

O avanço do Profert no Congresso reacende uma discussão estratégica para o agronegócio brasileiro: por que um dos maiores consumidores de fertilizantes do mundo ainda depende da importação de cerca de 90% desses insumos?

A resposta vai além da falta de incentivos públicos. Ela passa por um conceito formulado há quase 250 anos por Adam Smith: a chamada “mão invisível do mercado”.

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A mão invisível também faz contas

Smith defendia que, quando existe demanda e liberdade econômica, os investimentos tendem a buscar naturalmente as melhores oportunidades. O capital se dirige para onde há possibilidade de retorno.

Se essa lógica bastasse, o Brasil já teria se tornado um grande produtor de fertilizantes há muito tempo. Poucos países têm um mercado consumidor tão grande e tão estável quanto o nosso.

Mas a mão invisível não ignora custos.

Durante décadas, investidores fizeram uma conta objetiva: produzir fertilizantes no Brasil ou importar? Na maioria das vezes, importar mostrou-se mais competitivo.

Não por falta de mercado.

Mas porque produzir aqui continua sendo caro.

O Brasil afasta o capital que deveria atrair

Juros elevados, carga tributária complexa, logística deficiente, licenciamento demorado e insegurança jurídica tornam o investimento produtivo mais difícil. Soma-se a isso um ambiente de negócios que, há anos, coloca o Brasil em posições pouco favoráveis nos rankings internacionais de competitividade.

Nesse cenário, a mão invisível fez exatamente aquilo que Adam Smith descreveu: direcionou investimentos para locais onde o retorno era maior e os riscos menores.

Por isso, o Profert merece uma análise que vá além do anúncio dos recursos.

O programa faz parte de um diagnóstico correto. O Brasil precisa reduzir sua vulnerabilidade externa. A guerra entre Rússia e Ucrânia mostrou como a dependência de fertilizantes pode representar um risco para toda a cadeia agrícola.

A intenção é acertada.

A dúvida está na execução.

Programa público não substitui ambiente de negócios

Incentivos financeiros, isoladamente, conseguem compensar problemas estruturais que permanecem há décadas?

Uma fábrica de fertilizantes exige investimento bilionário e retorno de longo prazo. Nenhum investidor toma essa decisão olhando apenas para um programa de governo. Ele observa custo do financiamento, previsibilidade tributária, infraestrutura, segurança regulatória e rentabilidade esperada.

Se esses fatores continuam desfavoráveis, o capital continuará procurando alternativas mais competitivas.

Essa é a principal lição da mão invisível do mercado.

Ela não cria investimentos por decreto.

Ela responde ao ambiente econômico.

A origem de muitas dificuldades

O verdadeiro desafio do Profert talvez não seja apenas estimular a produção de fertilizantes. É contribuir para um país onde produzir volte a fazer sentido.

Quando o ambiente econômico funciona, não é preciso convencer empresários a investir. Eles próprios enxergam a oportunidade.

No fim, a maior política industrial continua sendo a construção de um ambiente de negócios competitivo, com juros compatíveis, sistema tributário racional, infraestrutura eficiente e segurança jurídica.

Muitos dos problemas econômicos e sociais do Brasil nascem exatamente dessa dificuldade: o país tem demanda, mercado, produtores, necessidade e potencial, mas não consegue criar as condições para que a mão invisível atraia os investimentos necessários.

Enquanto isso não mudar, continuaremos tentando corrigir com programas públicos aquilo que deveria nascer naturalmente de um ambiente econômico saudável.

O Brasil não precisa apenas de uma política para fertilizantes. Precisa de um país onde investir, produzir e gerar emprego volte a ser uma decisão lógica, viável e competitiva.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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