UE compra pouco da carne bovina do Brasil, mas paga mais e abre portas para outros mercados

UE excluiu o Brasil da lista de países que atendem às suas regras sobre o uso de antimicrobianos na pecuária. Medida começa a valer dia 3 de setembro.

Foto de David Foodphototasty na Unsplash

A partir do dia 3 de setembro, a União Europeia vai interromper as suas compras de produtos de origem animal do Brasil e, no caso da carne bovina, a suspensão não preocupa pelo volume, mas pelo peso estratégico do bloco para pecuaristas e frigoríficos nacionais.

??A UE excluiu o Brasil da lista de países que cumprem suas regras contra o uso excessivo de antimicrobianos na pecuária. A medida não foi motivada por irregularidades encontradas na carne nacional, mas porque a União Europeia considera insuficiente o controle que o Brasil faz sobre o uso dessas substâncias.

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A UE é destino de apenas 3,7% do volume total que o Brasil exporta em carne bovina – e por 5,8% do valor –, mas compra cortes nobres e é considerada uma espécie de “vitrine” para o mundo: atender às exigências dos europeus é visto como um selo de qualidade que ajuda a abrir portas em outros mercados, afirmam especialistas ouvidos pelo g1.

“A Europa é uma vitrine seja por causa das exigências em termos de rastreabilidade, seja pela remuneração. Ela compra praticamente só cinco cortes do nosso boi, só que paga bem”, ressalta Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do mercado de pecuária do Cepea-USP.

Segundo Carvalho, enquanto a China paga, em média, US$ 6,50 pelo quilo da carne bovina brasileira, a União Europeia desembolsa cerca de US$ 10 pelo mesmo volume.

A preferência europeia é por cortes do traseiro do boi, como filé mignon, contrafilé, alcatra e coxão mole, mas também pelo filé de costela, que é retirado do dianteiro. O restante da carne desses animais é comercializado no mercado brasileiro, como a picanha.

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Arte/g1

Por que a UE é uma ‘vitrine’ para o mundo?

Como maior produtor e exportador de carne bovina do mundo, o Brasil segue padrões sanitários rigorosos para abastecer todos os mercados em que atua, inclusive o interno. Mas, no caso da União Europeia, o processo de habilitação de fazendas e frigoríficos é mais complexo.

Para começar, nem todos os estados brasileiros podem exportar carne para a UE. Hoje, apenas Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul têm essa autorização.

Além disso, estar em um desses estados não garante venda para os europeus. As fazendas interessadas precisam receber uma comitiva da UE, que avalia se a propriedade cumpre os requisitos sanitários, veterinários e de bem-estar animal exigidos pelo bloco.

Outro detalhe é que cada boi que vira carne para a União Europeia precisa ser rastreado individualmente.

É justamente essa série de exigências que faz da UE um mercado vitrine. “Se um país recebe o aval para exportar para a Europa, ele está recebendo um certificado de alto padrão regulatório”, comenta Fernando Enrique Iglesias, analista do Safras & Mercado.

Adaptar-se ao rigoroso sistema europeu também facilita o acesso a outros países exigentes, como o Japão e a Coreia do Sul, países com os quais o Brasil negocia a abertura no setor de carne bovina.

Por trabalhar com a União Europeia há mais de 20 anos, o pecuarista André Bartocci, de Mato Grosso do Sul, diz que está preparado para atender a esses mercados quando eles forem abertos. Ele lamenta, contudo, que o bloqueio da UE possa desestimular outros pecuaristas a manter os padrões de rastreabilidade.

O economista do Cepea-USP tem a mesma preocupação. Segundo ele, como o boi padrão Europa é mais caro de produzir, uma boa parte dos produtores pode acabar deixando os protocolos de lado. “É natural que isso ocorra porque eles não estarão recebendo a mais por isso”, diz Carvalho.

“Geralmente um boi Europa recebe até 10% de premiação”, afirma Carvalho, explicando que o prêmio é o valor extra pago por um boi criado para atender às regras da UE em relação à cotação nacional.

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A estratégia de pecuaristas entrevistados pelo g1 é negociar essa premiação em outros mercados. A ideia do pecuarista Rafael Andrade Asato, que também é do MS, é encaixar o gado de padrão europeu em programas de exportação para os EUA ou em protocolos de carnes nobres voltadas para o consumo interno.

Caso o mercado não pague um valor adicional pelo seu rebanho, Asato diz que vai parar de seguir os protocolos europeus. “Não faz sentido eu agregar um custo de rastreabilidade, de chip, se eu não tiver um prêmio por isso”, afirma.

Carvalho, do Cepea-USP, lembra que, mesmo que a UE volte a liberar as exportações do Brasil, ainda leva um tempo para que os produtores voltem a vender para o bloco. Isso porque a UE vai passar a exigir comprovações de que um boi não usou antimicrobianos durante toda a sua vida.

“Um bezerro que nascer em agosto ou setembro de 2026, por exemplo, só vai estar pronto para o abate por volta de 2028 ou início de 2029”, explica.

O pecuarista André Bartocci explica que seu rebanho já não usa antimicrobianos há muitos anos porque exporta pela Cota Hilton, uma modalidade de exportação de carnes nobres com tarifa reduzida que proíbe o uso dessas substâncias durante toda a vida do animal.

“Quem faz cota Hilton não usa antimicrobiano há muito tempo. Mas a maioria da carne que vai para a Europa não é Hilton, é lista Trace, uma categoria [de exportação] onde o produtor só precisa comprovar que não usou antimicrobiano nos últimos 100 dias [de vida do animal]. Agora vai mudar, todo o ciclo vai precisar de comprovação”, diz Bartocci.

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Vai sobrar carne no Brasil?

O veto da União Europeia chega em um momento sensível para o Brasil, que também lida com a imposição de cotas de exportação de carne bovina por parte da China, maior comprador do produto nacional, diz Juliana Torres, analista de inteligência de mercado da StoneX Brasil.

“O primeiro semestre foi marcado por uma aceleração das exportações para a China para atender às cotas e talvez, agora, o Brasil olhasse mais para os países europeus. Historicamente o Brasil exporta mais para a União Europeia no segundo semestre”, diz Torres.

Sem China e UE, a analista diz que dificilmente o volume de carne será totalmente absorvido por outros países e a tendência é que ocorra um aumento da oferta de carne no mercado interno brasileiro nos próximos meses.

“Os cortes mais nobres que tradicionalmente vão para a União Europeia podem ficar mais baratos. Claro que não é volume tão grande, mas podemos encontrar preços mais reduzidos”, afirma Carvalho.

Apesar da perspectiva de maior oferta, Juliana Torres ressalta que o Brasil atravessa uma virada do ciclo pecuário, marcada por uma diminuição da oferta de animais para abate, que deve evitar quedas muito expressivas de preços.

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