O anúncio da vitória de Marcelo Medici na categoria de melhor ator do Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) pegou parte da classe teatral de surpresa na manhã desta terça-feira (27). Isso porque não é costume de prêmios do gênero laurearem performances de comediantes, ainda mais em espetáculos como Dona Lola, um solo cômico em que o ator dá vida a uma personagem feminina.
Justa, a vitória do ator reacendeu antiga discussão a respeito do reconhecimento que prêmios e listas tendem omitir para espetáculos cujo viés cômico sobressai a qualquer arco (melo)dramático, ainda que com uma veia crítica pulsante. É o caso do (ótimo) Dona Lola, comédia em que Medici ativa no público a memória afetiva familiar, mas também traça uma crítica de fina ironia à superficialidade do sucesso nas redes sociais.
Medici, já habitué do olimpo de grandes comediantes do Brasil, habita agora o hall daqueles reconhecidos por premiações incensadas pela indústria teatral do eixo Rio-São Paulo. Ao seu lado estão nomes como Ilana Kaplan, vencedora do Shell por seu (ótimo) desempenho em Baixa Terapia e Grace Gianoukas, que levou o mesmo APCA por sua interpretação de Dercy Gonçalves (1907-2008) em Nasci pra ser Dercy.

A vitória de Marcelo Medici neste ano ajuda a corrigir antigos erros e omissões do próprio APCA, que já havia ignorado o ator em outros momentos de brilho por seus desempenhos em Eu era Tudo pra Ela e Ela me Deixou, de Emílio Boechat, em 2011, no musical Rocky Horror Show, dirigido pela dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho em 2017, e, claro, o blockbuster Cada um com Seus Pobrema, ainda hoje carro-chefe da trajetória de solos do ator.
É verdade que, dado o contexto da indicação de Medici, e o ótimo espetáculo que Dona Lola se provou ser ao longo de suas temporadas em São Paulo, cabe questionar a omissão de outras indicações, tão inspiradoras quanto a do ator. Ricardo Rathsam pela direção sóbria e bastante delicada.
Ainda assim, a vitória do ator mostra que prêmios ainda podem receber lufadas de ar fresco, mesmo que, em grande medida, ainda respirem por aparelhos ao sempre optarem por escolhas óbvias ou conservadoras. Um passo de cada vez.
Confira os vencedores da última edição do prêmio APCA de teatro:
Dramaturgia: Silvia Gomez, por Lady Tempestade
Direção: Dinho Lima Flor, por Restinga de Canudos
Ator: Marcelo Medici, por Dona Lola
Atriz: Paula Cohen, por Finlândia
Espetáculo: (Um) Ensaio Sobre a Cegueira
Prêmio especial: Programa Persona, que há 10 anos reverencia a memória do teatro brasileiro na TV Cultura.
Prêmio especial: Caetano Vilela, pela trajetória na iluminação nas artes cênicas brasileiras.













